- Vamos entrar, seu avô está sendo levado para o quarto. - Olhei para Allen, o mordomo e fiel amigo do meu avô.
- O que aconteceu? - Ele me olhou, balançando a cabeça.
- Ele tem se recusado a tomar os remédios. Está terrível, falando que os netos não se importam mais com ele. - Eu ri. Ele que me expulsou da mansão e eu sou o neto desnaturado.
- Quando vou poder vê-lo? - Ele deu de ombros.
- Estão levando para o quarto, pediram para aguardar. - Respirei fundo. Quero vê-lo, ter certeza de que ele está bem. Não demorou muito para Nicholas chegar. Seus olhos assustados, com medo. Apesar de não nos darmos bem, eu sei o quanto meu avô é importante para ele. Pensei em dizer algo para ele, mas não tinha o que dizer. Apenas balbuciei um "o velho".
Allen nos encarou. Ele acha que somos dois idiotas, e não posso negar tal fato. Esperamos impacientes a liberação para podermos ver o velho. E assim que liberaram, eu e Nicholas corremos para entrar no quarto.
- Vovô! - Nicholas se apressou a falar, sempre tentando ser o centro das atenções. - Como está se sentindo?
- O senhor me assustou. O que estava pensando quando decidiu parar com seus remédios? - Questionei, mal-humorado. Meu avô apenas levantou a mão para ignorar meus sermões.
- É tão bom ver meus dois netos juntos de novo! - Ele segurou nossas mãos, unindo-as. - Era assim que eu desejava vê-los antes de morrer, unidos como irmãos, tomando conta da empresa, continuando o meu legado.
- O senhor não vai morrer, vovô. Não diga uma coisa dessas. - Nicholas falou, apenas concordando com a cabeça. - Nunca conheci pessoas mais fortes que você. Não vai morrer nem tão cedo. E pare de se preocupar com a empresa, ela está em boas mãos.
Nosso avô bufou, irritado. O sonho dele é ver eu e Nicholas trabalhando juntos na empresa.
- Vocês é que estão me matando. Estão acabando comigo e nem percebem! - Ele falou irritado, fazendo os aparelhos enlouquecerem. - Por que não podem sossegar, formar uma família e seguir os negócios da família em paz? É isso o que eu preciso, ver que vocês estão encaminhados na vida, se tornando alguém e não que são apenas dois ricos mulherengos como o pai de vocês.
- Vovô, deveria se acalmar ou os médicos vão voltar aqui. - Falei, olhando para os aparelhos. - Podemos falar disso uma outra hora, quando estiver se sentindo melhor.
- Não vou me sentir melhor, não enquanto não colocá-los no caminho certo! - O caminho certo para o velho conservador é me levar para o altar.
- O senhor fez o bastante, agora nos deixe cuidar de você. Que tal começarmos a nos tornar os homens que quer, assim? - Nicholas falou. Revirei os olhos. Meu avô deu um tapa na mão dele.
A questão é que meu avô está com o drama pronto. Ele é um ótimo manipulador e, sabendo que eu e Nicholas queremos agradá-lo, ele irá usar isso.
- Isso vai acabar esse ano, não vou deixar que se tornem uma cópia do pai de vocês! - Nunca seria como meu pai, nunca desonraria a minha palavra como ele fez, nunca magoaria uma mulher como ele magoou minha mãe. - Eu o criei errado e deixei que agisse como queria toda a sua vida, mas não vou cometer o mesmo erro com vocês.
- O que quer dizer com isso, vovô? - Nicholas perguntou.
- Não queria ter de fazer isso, mas vejo que é a única solução. Vocês terão até o Natal do próximo ano para casar e me apresentar a noiva! - O velho enlouqueceu, provavelmente são os efeitos do medicamento.
- O quê? Vovô, não pode fazer isso, apenas por suas fantasias, enquanto nós não queremos nenhum casamento ou formar família. - Nicholas ainda tenta argumentar.
- Sim, não pode forçar as pessoas a se casarem e muito menos dar um ultimato com uma data final, vovô. - Tentei trazer a sanidade de volta ao velho.
- Queria que fossem assim sempre, como irmãos que se apoiam, mas o único momento em que conseguem fazer isso é para irem contra mim! - Ele falou irritado. - Não querem se casar e ter uma família? Ótimo, então não deixarei a empresa para nenhum de vocês. Querem a cadeira de CEO? Mostrem que merecem! O primeiro a se casar assume o posto!
Então o velho decidiu usar as armas que tem. A verdade é que, por direito, a cadeira é minha. Passei a vida me preparando para isso. Minha mãe não aceitaria nada menos do que seu filho no posto.
Dei de ombros. Provavelmente o velho irá esquecer dessa insanidade. Deve ser só os efeitos dos remédios.
Algumas semanas depois
Emma
Meu encontro com Jemes Carter não saía da minha cabeça. Não o vi mais desde do baile de natal. Apesar de não ter tido nem ao menos um beijo dele, tenho para mim que a noite passada foi especial para ele, assim como foi para mim.
- Emma, venha! - Maya me chama. Como trabalhamos na véspera do Natal, eu, Cairo e Maya organizamos uma pequena ceia para nós e os outros funcionários, na cozinha do hotel mesmo na noite do dia 25.
- Estou indo. - Falei, tirando o avental.
A ceia foi deliciosa, mas como não seria? O chefe sempre faz as melhores refeições. Cairo me entregou um pequeno embrulho no final do jantar.
- O que é isso? - Perguntei, olhando para ele. Ele sorriu.
- Abra. - E quando abri, vi um papel dobrado.
- Uma carta. - Cairo riu. Abri o papel e era um bilhete com as letras do meu pai.
"Cuide de Emma, não abandone, garanta o futuro dela. Mas não sei como protegê-la até que ela saiba lutar sozinha. Preciso que ajude, seja forte. Christine não é a mulher que pensei que é. Cuide do meu tesouro, Cairo."
- Meu pai... - Senti vontade de chorar.
- Não acredito que o testamento esteja certo, Emma. Seu pai garantiu que deixou seu futuro seguro. Agora que você é maior de idade, precisa de bons advogados. Com certeza o testamento foi alterado. - E senti um alívio que não sentia há muito tempo. Meu pai não havia me esquecido.
- Obrigada, Cairo. - Ele sorriu e se afastou, me deixando com o bilhete na mão. Maya chegou logo depois, com outro embrulho na mão.
- Não vai fazer isso. Prometemos que não trocaríamos presentes. - Falei para ela, que sorria.
- Já fez seu pedido para o papai noel? - Eu ri. Há muito tempo que não acredito no bom velhinho.
- Ainda não, não sei o que pedir. E você? - Ela riu e me entregou o embrulho. Revirei os olhos, abri e vi a máscara que havia usado.
- Guardou isso? - Perguntei, confusa. A verdade é que Maya devia se livrar de todas as provas de que eu estive no baile.
- Não tem mais problema. Ninguém irá lembrar mais da moça de vermelho que chamou a atenção de Jemes Carter. - Talvez ela tenha razão. Eu realmente quero ter algo para lembrar daquela noite.
- Muito obrigada. - Ela bateu no meu ombro de leve.
- Sabe, senhorita Emma, no Natal passado eu pedi para o papai noel que me desse um emprego com pessoas maravilhosas, e eu estou aqui. - Ela sorriu. - Que tal fazer o seu pedido? Talvez, só talvez, ele se realize.
Maya se afastou e eu fiquei ali. Então decidi subir para o terraço. Se ela tem razão, melhor pedir em um lugar que seja mais próximo do bom velhinho.
E ali, no terraço, onde o beijo com Jemes Carter não aconteceu, eu pedi com todo o meu coração que, se o papai noel existisse, ele interferisse em meu destino e me desse Jemes Carter de presente.
" Eu não sabia, mas que maldito desejo"