Carmen apareceu à porta. Era uma mulher gordinha, não de todo malparecida. Trazia o rosto transtornado e, paradoxalmente, o rímel tinha escorrido. Sílvia sabia que era divorciada e mãe de dois filhos crescidos, mas aquilo não era assunto seu; pelo seu estado, percebeu que todos imaginavam para que os chamava.
- Sente-se - disse com tom cordial; Carmen avançou meio tonta e sentou-se. Devia estar a chorar. - Chamei-a para informar que não vamos poder renovar o seu contrato quando este vencer. Lamento que as coisas sejam assim, mas não vamos precisar de uma maquilhadora daqui em diante.
Carmen desmoronou-se e os olhos avermelhados encheram-se de lágrimas.
- Por favor - disse entre soluços -, dediquei quinze anos da minha vida a esta empresa, neles não faltei um único dia, nem fiquei doente, e fiz mais horas extraordinárias do que alguém poderia pagar-me. O seu pai sabe-o. Tenho os meus dois filhos a estudar, não pode fazer-me isto.
- Repito que lamento - respondeu Sílvia. - Estamos muito agradecidos pelos seus serviços, que foram excelentes; de facto, a Publicidade Setién dará as melhores referências sobre si, mas infelizmente não precisaremos de maquilhadora.
Carmen voltou a abandonar-se ao choro. Durante um momento, Sílvia olhou para ela sem saber o que fazer, quase estranhando que uma mulher que já passava bem dos quarenta anos não tivesse aprendido a conter-se. Por fim, foi até à cafeteira e preparou-lhe uma tília; tinha feito provisão dessa infusão antes de chegar, prevendo que poderia vir a ser necessária. Carmen deu um par de goles enquanto Sílvia lhe pedia que se tranquilizasse, insistindo que veria como tudo se resolveria.
Cenas mais ou menos parecidas repetiram-se durante o resto da manhã, sem que a Menina Setién amolecesse um ápice. O corredor foi um desfile contínuo de rostos cinzentos que passavam com o olhar vazio. Afinal de contas, dizia para si mesma, ainda deviam estar-lhe agradecidos: avisava-os com tempo, mesmo sabendo que podiam desleixar-se nas suas funções. Não teve prazer em despedir pessoas, mas também não sentiu pena ao fazê-lo; não foi mais do que um trabalho incómodo, daqueles que a contrariavam pelo excessivo contacto que exigiam com sensibilidades alheias.
Finalmente ficou sozinha por volta das duas da tarde. Encostou-se na sua cadeira e respirou tranquila; já não lhe restavam mais más notícias para dar. Tinha chegado o momento de começar a informar-se sobre Alberto Sagasta.
O PECADO ORIGINAL
Subiu para o Ave das oito da manhã; tinha-se dado permissão para se ausentar do trabalho, afinal de contas ia a Sevilha em missão de serviço. O Senhor Sagasta revelara-se um "mau rapaz" de cerca de cinquenta anos. Era um dos melhores fotógrafos de Espanha, mas, incrivelmente, não tinha querido aceitar nenhum cargo estável em nenhuma das empresas que lho tinham oferecido. Desde o primeiro momento, a personalidade de Alberto intrigou-a. Seria possível que alguém preferisse trabalhar como repórter, andar a saltar pelo mundo, em vez de se vincular a uma empresa como a Publicidade Setién? Pois era verdade, não havia quem lhe deitasse o laço.
E a questão era que ela queria a todo o custo a reportagem. Tinha de marcar esse ponto para ser respeitada como diretora. Estava no cargo há apenas alguns dias e tinha consciência de estar em liberdade vigiada. O seu pai era o maior dos problemas: continuava a ser o proprietário e, ao mínimo sinal de que não confiava nela, levá-la-ia para o lar familiar por uma orelha. Maldito velho; se o coração lhe tinha falhado, fora pelo desperdício de energia com que se lançava a tudo sempre. Se não fosse isso, ainda estaria a gerir a empresa ao seu capricho. Infelizmente, as suas preocupações não terminavam ali: havia também o Dom Jorge, o confidente do velho na cúpula; também dele devia cuidar-se.
O comboio abandonou a estação e começou a ganhar velocidade. O clarão de luz diurna através das janelas fez com que Sílvia voltasse à linha original dos seus pensamentos. Que peça devia ser o Senhor Sagasta. Na conversa telefónica que tinham mantido, ele recusara-se redondamente a vender-lhe as fotos. Ela chegara a oferecer-lhe um milhão de pesetas e ele continuara a recusar; se havia algo que conseguia confundi-la, era que alguém pudesse rejeitar tamanha quantia de dinheiro por algo tão insignificante. Dom Alberto tinha sido algo rude e até um pouco violento, chegando a perguntar-lhe se o seu pai aprovaria que gastasse esse dinheiro a comprar umas fotografias que nem sequer tinha visto. Não, não aprovaria, naturalmente.
Ela sentira o golpe, sentira-se ferida, mas continuava a querer a reportagem e engoliu o orgulho. Propôs-lhe que viesse a Madrid mostrar-lhe a sua obra, com as despesas pagas, claro; a negativa dele foi rotunda: "Está a brincar, Dona Sílvia? Quer que eu me desloque a Madrid para lhe mostrar algo que não lhe venderei? Se lhe sobra tempo, venha a senhora a Sevilha." Essa tinha sido a resposta dele e era por isso que ela, aceitando uma humilhação da qual não se julgava capaz, se tinha posto a caminho. Como lhe eram insuportáveis esses "artistazinhos" que ficavam cheios de tiques de vedeta.
Na realidade, tinha sido tudo uma questão de má sorte, um cruzamento de coincidências transitórias. Ela não era uma criadora e sabia que não seria capaz de emular os sucessos do seu pai; se tinha alguma possibilidade de se manter, era agindo como o que era: uma economista brilhante, e aplicando os critérios que conhecia. Mas claro... a tensão era palpável. Tantos despedimentos juntos tinham feito com que todos a odiassem, e ela precisava urgentemente de um sucesso para exibir. Se não fosse por isso, teria deixado que o tal Sagasta se cozesse na sua soberba e nos seus ares de divo.
A viagem passou num suspiro; entre a rapidez do Ave e o quão amuada ia, chegou à estação de Santa Justa antes de se dar conta. Aquilo não era uma excursão de prazer e também não planeava pernoitar; apenas queria resolver o assunto e ir-se embora, pelo que apanhou um táxi diretamente para a casa de Dom Alberto.