- Don Vincenzo Lucchese. Pelo visto, você esqueceu até como se fala com quem está acima de você. - Vincenzo declara, cortando a fala de Enzo sem a menor cerimônia.
- Don? - Cesare repete, incrédulo diante da audácia e da ousadia de Vincenzo ao interromper tudo daquela forma.
- É o que se ganha quando se deixa um serviço pela metade. - Vincenzo responde, encarando o homem com firmeza.
Seu olhar percorre o altar como se cravasse uma marca invisível em cada um deles. Ao chegar à Vittoria, inclina levemente a cabeça, com a frieza de quem avalia uma mercadoria.
- Perdeu o juízo, rapaz? O que pensa que está fazendo? - Alfonso dispara, irritado, dando um passo à frente com a postura de quem não admite afronta.
- Tomando o que sempre foi meu por direito. - Vincenzo responde, com o olhar fixo em Vittoria, que prende a respiração, sem saber se recua ou o enfrenta.
E então, sem dar chance para qualquer reação, leva as mãos às costas e puxa uma arma, fazendo gritos alarmados ecoarem pelo jardim, enquanto os poucos soldados presentes sacam as suas.
- Contenham seus homens. Hoje é um dia especial e duvido que queiram transformá-lo no início de uma guerra. - Provoca, com a voz firme e desdenhosa, enquanto engatilha a arma e a aponta para Enzo, que por um instante deixa a postura vacilar.
- Abaixe essa arma, Vincenzo. - Cesare ordena, com a voz firme, enquanto leva a mão ao coldre, preparado para atirar ao menor sinal de perigo.
- Don Moretti, que tal deixar que os mais jovens resolvam como homens? - Sugere, com um tom ácido e calculadamente desrespeitoso, mirando Enzo sem sequer disfarçar o desafio.
Então, em um gesto de provocação deliberada e puro desrespeito, ele deixa a arma escorregar pelos dedos e a estende na direção de Enzo, como se o convidasse para um jogo que já considera vencido.
- Você decide, Enzo. - Declara, balançando a arma diante do rosto dele, como se fosse um brinquedo. - Podemos manter o tratado de paz entre as famílias ou você prefere lidar com o estrago agora? Tanto faz para mim, só quero ver quem irá sangrar primeiro.
- Mas que diabos você está tramando? - Enzo vocifera, tomado pela raiva, enquanto arranca a arma das mãos de Vincenzo e dispara para o alto, fazendo os convidados se encolherem, tomados pelo pânico.
Uma risada sarcástica escapa dos lábios de Vincenzo, divertido com o caos que se instala, especialmente com o estado de choque de Vittoria, que permanece imóvel, incapaz de reagir a tudo ao seu redor.
- Cuidado. - Vincenzo adverte, com um sorriso quase divertido nos lábios. - É de verdade, seria uma pena se você se machucasse com isso.
- Chega de palhaçada. - Enzo vocifera, apontando a arma e avançando com os olhos em brasa. - Com que direito você invade o meu casamento e transforma tudo em um circo? - Continua, a voz firme, mas carregada de indignação, enquanto encosta o cano no peito de Vincenzo, como se tentasse recuperar o controle que já perdeu.
- Assim não, Enzo. - Repreende, segurando o cano da arma e guiando-o até a própria testa, como se o desafiasse a atirar. - Desse jeito, minhas chances de sair vivo caem bastante, mas o estrago que vem depois, ah, esse, você não sobrevive. - Acrescenta, com um sorriso gélido. - Agora seja útil pela primeira vez na vida, decida. - Finaliza, em um tom carregado de desprezo, como se falasse a um menino tentando brincar de homem.
E então, antes que Enzo tenha sequer a chance de respirar, o som seco de passos ritmados rompe o silêncio tenso.
Das sombras que se alongam pelo jardim no início da noite, surgem os soldados, firmes, implacáveis, empunhando suas Tommy guns com os olhos cravados nos alvos.
O metal das armas reluz sob a luz amarelada dos lustres e tochas, enquanto os convidados se levantam em pânico, cadeiras tombam e o altar vira um palco de caos prestes a explodir.
- Todos mantenham a calma. - Vincenzo ordena, a voz firme e imperturbável rasgando o caos ao redor como se nada daquilo fosse inesperado. - Então, Enzo, estou pronto para a sua decisão. - Continua, a voz impassível, como se a arma encostada em sua testa não significasse nada. - Puxe o gatilho, inicie essa guerra e assista sua família ser destruída sem poder fazer nada. Ou dê um passo para o lado e me deixe ocupar meu lugar no altar.
- O quê? - Vittoria pergunta, a voz trêmula, finalmente despertando do transe que a dominava.
O choque estampado em seu rosto denuncia que, até aquele momento, ela mal compreendia o que estava acontecendo.
- Pai? - Enzo murmura, incrédulo, os olhos vacilantes entre a arma e o altar, sem saber se recua, avança ou simplesmente desmorona ali mesmo.
- Patético. - Vincenzo debocha, arrancando a arma das mãos de Enzo com desprezo. - Aposto que o senhor teria adorado vê-lo naquele carro com meu pai, não é mesmo, Don Cesare?
- Você está cometendo um grande erro, jovem. - Cesare adverte, trocando um olhar rápido e carregado com Alfonso.
Ambos exalam fúria contida, mas sabem que, se atirarem ali mesmo, farão exatamente o que Vincenzo quer: dando início a uma guerra da qual só sairão com vida, com muita sorte.
- Estou selando uma aliança. - Vincenzo responde, fazendo um gesto para que Enzo se afaste.
E sem a menor cerimônia, quase o empurrando, toma seu lugar no altar como se fosse o dono da ocasião.
- Mas é claro, sou um cavalheiro. - Acrescenta, com um sorriso torto. - Então, deixo a decisão para você, bella. - Seus olhos encontram os dela com firmeza. - Case-se comigo. - Propõe, travando a arma com um estalo preciso antes de encaixá-la no coldre, como se encerrasse uma negociação que jamais teve oposição real.
- Não. - Vittoria responde, de imediato, sem sequer pensar, como se aquela proposta absurda não passasse de uma piada de mau gosto.
- Nunca que você...
- Ainda não chegou sua vez, sogro. - Vincenzo interrompe, sem desviar os olhos de Vittoria, como se Alfonso sequer existisse. - Vamos tentar novamente, bella. - Murmura, aproximando-se lentamente, eliminando a distância entre eles com uma presença que impõe mais que qualquer arma. - Case-se comigo, se quiser de volta aquilo que você mais ama.
Vittoria se move rapidamente no altar, os olhos percorrendo o ambiente como se buscasse desesperadamente por alguém.
O coração dispara ao não encontrar o que procura, e a respiração falha, presa na garganta, sufocada pelo pânico.
- Giuliano. - Vittoria sussurra, como se o nome lhe roubasse o fôlego, o ar escapando dos pulmões em um único sopro.
Seus olhos voltam lentamente para Vincenzo, agora tomados por um pavor silencioso, ela entende exatamente o que está em jogo.
- Você tem o direito de escolha, não sou um monstro. - Vincenzo declara, com a voz serena e cortante, como uma sentença de morte. - Case-se comigo, e tudo permanecerá em paz.
Inclina-se devagar, o tom quase confidencial, até que sua respiração toque o ouvido dela.
- Mas, se preferir seguir com seu compromisso com Enzo, aceitarei com dignidade. E, como presente de casamento, enviarei seu irmão de volta. Um pedaço por dia, até que o silêncio complete o que restar dele.