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Em Critport, o céu desabava em uma chuva torrencial.
Ellie Gordon foi conduzida às pressas para o prédio principal do Solar Moon.
Antes admirada em Critport como uma socialite de destaque, agora ela se via como um peão no esquema da família Gordon, substituindo a filha deles em um casamento arranjado.
Seu marido, Kaiden Thorpe, era o quarto filho da família. Ele era conhecido por sua inteligência e talento precoces, mas seu distanciamento resultou em um afastamento da família. Um acidente de carro o teria deixado com as pernas paralisadas.
Enquanto a noite envolvia a mansão, Ellie aguardava seu marido esquivo.
A ausência de Kaiden sugeria sua relutância em encontrá-la, talvez uma recusa em aceitá-la.
Para Ellie, porém, aquela ausência era um alívio, poupando-a do dilema de um confronto.
Exausta pelas provações com a família Gordon, ela tirou o vestido de noiva e foi para a cama em busca de descanso.
O tempo se dissolvia entre sono e vigília quando, de repente, a porta se abriu com um clique seco, rompendo o silêncio.
Era uma figura alta.
Meio adormecida, Ellie se mexeu ao ouvir o barulho.
Antes que pudesse organizar os pensamentos, a figura se juntou a ela na cama, aproximando-se gradualmente.
O calor repentino a despertou por completo.
No instante seguinte, o estranho se virou e a imobilizou, as mãos fechando-se em torno de seu pescoço.
"Quem é você?", ele exigiu, a voz baixa e gélida como a de uma fera defendendo seu território.
A luz da lua revelou seu rosto, os olhos ainda mais frios que a voz.
Sem dizer uma palavra, Ellie desferiu um chute rápido contra o ponto vulnerável do homem.
"Porra!", ele rosnou, esquivando-se com habilidade do ataque.
Aproveitando o momento, Ellie se libertou e saltou da cama.
O quarto se transformou em um turbilhão de movimentos enquanto eles trocavam uma série de golpes.
Treinada em artes marciais, Ellie geralmente era imbatível, mas rapidamente percebeu a habilidade superior do homem.
"Sou a esposa de Kaiden Thorpe. Se não for embora, chamarei os seguranças para expulsá-lo..."
Sua ameaça foi interrompida quando o homem a agarrou pelo pescoço, empurrando-a contra a parede.
Subitamente, as luzes se acenderam, inundando o quarto de claridade.
Sob a luz intensa, as feições do homem eram marcantes: olhos profundos, nariz proeminente, maxilar definido. Ele olhou para Ellie com uma mistura de surpresa e sarcasmo.
"Quem você pretende expulsar?"
O olhar dele desviou-se do vestido de noiva no canto e fixou-se novamente em Ellie.
Vestindo roupas casuais simples, e não um camisolão, Ellie estava em alerta.
Um lampejo de desprezo cruzou os olhos de Kaiden.
Lutando para respirar, Ellie conseguiu ofegar: "Você... é o Kaiden?"
Ela nunca tinha visto Kaiden, que raramente aparecia em público, mas fazia sentido que o único homem com acesso ao quarto principal fosse ele.
Contudo, suas pernas pareciam perfeitamente normais, ao contrário do que os rumores afirmavam.
Kaiden arqueou levemente as sobrancelhas, reconhecendo a dedução dela, e a soltou.
"Ahem..." Tossindo violentamente, Ellie caiu no chão, prometendo a si mesma nunca mais sentir aquele terror sufocante.
Kaiden era, de fato, tão imprevisível e implacável quanto os rumores diziam!
"Então, sobre chamar os seguranças?", perguntou Kaiden, acendendo um cigarro e fitando Ellie de cima.
Seus olhos pousaram no pescoço dela, marcado pela sua própria mão, a pele delicada avermelhada sob a luz.
Ellie sentiu um acesso de vergonha.
Não tinha percebido que era Kaiden quando ameaçara pedir ajuda.
Kaiden, com uma postura que sugeria poder sobre vida e morte, disse friamente: "Escolha como quer terminar."
Ellie sabia que Kaiden pensava em silenciá-la, agora que ela descobrira a verdade sobre as pernas dele.
"Senhor Thorpe, sou legalmente sua esposa. Não pode me tratar assim!", protestou ela, o coração acelerado pelo medo.
"Você não passa de uma mulher que ninguém sabe de onde veio. Como ousa se dizer minha esposa, hein?" A voz de Kaiden estava impregnada de desdém enquanto ele soltava uma baforada de fumaça.
Ellie cerrou os punhos, sentindo-se profundamente humilhada.
Suas origens eram de fato obscuras; até os nomes de seus pais biológicos eram um mistério.
A alta sociedade já sabia que Ellie era apenas uma substituta da família Gordon, não a verdadeira filha deles.
Mas era culpa dela?
Tivera ela alguma escolha?
Nunca quisera aquele casamento com Kaiden.
Impaciente, Kaiden pressionou um botão próximo à cama.
Pouco depois, dois seguranças adentraram o quarto.
"Expulsem-na", ordenou Kaiden, com frieza.
"Espere, Kaiden!" Ellie exclamou, desesperada. "Eu prometo! Não direi uma palavra sobre suas... sobre as pernas do senhor!"
Aceitara aquele casamento como forma de retribuir à família Gordon por duas décadas de cuidados. Agora, considerava sua dívida quitada.
Kaiden, o rosto uma máscara de indiferença, falou de repente com um toque de aparente benevolência. "Ellie, se conseguir sobreviver a esta noite, poderá permanecer como senhora Thorpe."
Boom!
Crack!
O céu noturno rugiu com um trovão.
Um relâmpago cruzou o céu, seu brilho esmaecendo, mas a chuva implacável persistia.
A previsão indicava que o temporal duraria a noite toda.
Aquele dia deveria ter sido seu dia de núpcias, com ela como a noiva de Kaiden. No entanto, Ellie se viu confrontada com a severidade implacável da tempestade lá fora...
Naquele momento, ela percebeu a verdade.
A intenção de Kaiden não era apenas humilhá-la; ele estava propondo um desafio mortal.
Como uma noiva imposta a ele pela família, a morte dela seria uma solução conveniente.
"Não me toquem!", declarou Ellie, erguendo-se com dignidade. "Eu mesma me retiro."
Seu olhar encontrou o dos seguranças que se aproximavam, e ela os advertiu: "Lembrem-se, sou a mulher legalmente casada com o senhor Thorpe. Não seria prudente pôr as mãos na esposa de seu patrão, não seria?"
Sua postura parecia complacente, até gentil, mas um brilho de triunfo cintilou em seus olhos.
Acreditava ter suas emoções bem escondidas, mas Kaiden viu através de sua fachada.
E isso despertou nele um certo interesse.
A Ellie de quem ouvira falar, a suposta filha da família Gordon, era descrita como virtuosa, digna e gentil – a ideal para comandar uma casa importante.
Mas a mulher à sua frente desafiava todas aquelas descrições, seu espírito inquebrantável mesmo diante da adversidade.