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A Última Herdeira da Lua Rubra
img img A Última Herdeira da Lua Rubra img Capítulo 2 🌕 O HOMEM E O LOBO
2 Capítulo
Capítulo 6 🌕 A ARQUITETURA DA CONFIANÇA img
Capítulo 7 🌕 A CHEGADA DO INEVITÁVEL img
Capítulo 8 🌕 O OLHAR img
Capítulo 9 🌕 ESTRADA ENTRE DESTINOS img
Capítulo 10 🌕 SOB A LUA DE VAL'DARAN img
Capítulo 11 🌕 O CHAMADO DA MONTANHA img
Capítulo 12 🌕 ENTRE DOIS MUNDOS img
Capítulo 13 🌕 O INSTINTO DO SILÊNCIO img
Capítulo 14 🌕 FANTASIA E VERDADE img
Capítulo 15 🌕 FUNDAÇÃO INVISÍVEL img
Capítulo 16 🌕 DE VOLTA A REALIDADE img
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Capítulo 2 🌕 O HOMEM E O LOBO

A vida que eu não escolhi.

ADRIÁN SALVATORE PETRONIK

Eu não aviso quando vou. Nunca aviso. A minha ausência é sempre interpretada como estratégia, nunca como necessidade, e isso me convém. Em Barcelona, todos acreditam que cada movimento meu faz parte de um plano maior. O motorista supõe que estou indo negociar algo delicado demais para constar na agenda oficial. Minha assistente imagina que preciso de dois dias de silêncio antes de fechar contratos que movimentam cifras obscenas. O conselho prefere pensar que estou antecipando riscos invisíveis aos outros. Eles não perguntam porque aprenderam que respostas minhas raramente incluem explicações. Eu também nunca ofereço.

Dirijo sozinho.

A cidade se dissolve lentamente no retrovisor. Os prédios de vidro, as avenidas iluminadas, o cheiro constante de asfalto e combustível cedem espaço para a estrada que serpenteia em direção às montanhas. À medida que subo, o ar muda de textura. Ele se torna mais fino, mais cortante, carregado de umidade natural e resina fresca. O cheiro urbano desaparece, substituído pelo aroma de terra fria e folhas que começam a apodrecer sob o inverno. A pressão no peito, aquela tensão invisível que me acompanha entre reuniões e números, diminui gradualmente como se cada curva da estrada arrancasse um fragmento daquilo que preciso ser na cidade.

A lua ainda não alcançou o auge da lua cheia, mas já se impõe no céu com brilho suficiente para atravessar as copas das árvores. Ela não é apenas um objeto distante. É um pulso. Uma força silenciosa que pressiona por dentro. Não é metáfora. Não é romantização de instinto. É química, é sangue, é algo inscrito em mim antes mesmo de eu aprender a falar.

O chalé surge entre as árvores como se tivesse brotado da própria montanha. Madeira escura, telhado inclinado, janelas discretas que refletem a luz prateada. Nenhuma ostentação, nenhuma tentativa de impressionar. Apenas estrutura firme e isolamento absoluto. Aqui não existe a necessidade de provar nada.

Desligo o carro e o silêncio me envolve de forma quase palpável. Não há buzinas. Não há vozes humanas. Apenas o vento percorrendo as copas altas e o som distante de galhos roçando uns nos outros, como se a floresta respirasse em um ritmo próprio. O frio toca minha pele com honestidade. Ele não pede licença.

Entro no chalé e fecho a porta atrás de mim. O interior conserva o cheiro da madeira antiga aquecida por lareiras passadas. Há um leve traço de fumaça impregnado nas vigas, misturado ao aroma seco do couro do sofá e da cera aplicada na mesa maciça. Tudo está exatamente onde deixei, como se o tempo aqui fosse obediente à minha ausência.

Subo até o quarto com passos firmes. Tiro o relógio e o coloco sobre a cômoda. O peso do aço deixa meu pulso, marcando o fim temporário da identidade que carrego na cidade. Retiro o paletó, depois a gravata. Desabotoo a camisa devagar, sentindo o tecido deslizar pelos ombros. Cada peça que cai no chão é uma camada que abandono. Sapatos, meias, calça. Fico parado por um instante, respirando profundamente, deixando que o ar frio das montanhas entre nos pulmões e desça como algo necessário.

Caminho até os fundos do chalé e abro a porta que dá para a floresta. A noite me recebe sem cerimônia. A lua ilumina o terreno irregular, desenhando sombras longas que se movem com o vento. O cheiro da floresta é intenso. Terra úmida, musgo, resina fresca, pequenos animais escondidos sob folhas secas. Há vida por toda parte, mesmo no silêncio.

Fecho os olhos.

Deixo acontecer.

Não é dor. Nunca foi dor. É expansão. Os ossos se ajustam com naturalidade ancestral. A pele vibra sob uma energia que não precisa de explicação. A audição se amplia, captando o menor ruído a centenas de metros. O cheiro da noite se desdobra em camadas complexas, cada uma identificável. Quando abro os olhos novamente, o mundo não é menor. Ele é mais vasto. Ou talvez eu finalmente esteja completo dentro dele.

Desço o declive atrás do chalé e entro na floresta. Corro com precisão absoluta, desviando de troncos e raízes como se cada obstáculo fosse parte de um percurso conhecido desde sempre. O vento atravessa o corpo com força cortante. O coração pulsa firme, sincronizado com a noite. Aqui não existem acionistas. Não existem relatórios. Não existem expectativas. Apenas o chão sob minhas patas e a liberdade crua de ser inteiro.

O cheiro muda antes que eu veja qualquer coisa.

Não é natural.

Metal. Pólvora recente. Suor humano misturado a adrenalina. A floresta deixa de ser apenas território e se torna campo de ameaça. Reduzo o ritmo, mas não paro completamente. Meus sentidos se expandem ainda mais, rastreando a origem daquele odor intruso. Entre as árvores, a poucos metros, percebo o contorno rígido de um homem segurando uma espingarda com força excessiva. O cheiro dele é instável, carregado de medo mascarado por raiva. Mais atrás, quase oculto pela sombra de um pinheiro, outro observa com atenção calculada.

Caçadores.

O primeiro ergue a arma com mãos que traem sua própria coragem.

- Morre, monstro.

O disparo rompe o ar, espalhando o cheiro de pólvora quente. A bala atravessa o espaço onde eu estava um instante antes. Um segundo tiro vem logo depois, mais apressado, mais desesperado.

Eu poderia fugir. Conheço cada inclinação do terreno melhor do que eles jamais conhecerão. Mas não recuo.

Avanço.

A distância desaparece em um salto preciso. O homem tenta recuar, mas o medo paralisa seus reflexos. Minhas presas encontram a jugular dele com eficiência direta. O sangue é quente e intenso, espalhando um cheiro ferroso que se mistura ao frio da noite. O corpo dele cede rapidamente, a espingarda caindo sobre as folhas secas com um som oco.

Não há espetáculo. Não há celebração. Apenas instinto. Defesa.

O segundo homem observa, imóvel, enquanto o medo altera completamente o cheiro dele. Nossos olhares se cruzam sob a luz prateada da lua. Ele entende o que está diante dele. Entende que não é mito, não é delírio, não é ficção.

Eu não avanço sobre ele.

Ele recua lentamente, depois desaparece entre as árvores, levando consigo a intenção de retornar com mais do que armas.

Permaneço parado por alguns segundos, escutando além do vento. A floresta retoma seu ritmo cauteloso. O corpo aos meus pés já não representa ameaça.

Eles estão aqui.

E não vieram por acaso.

Retorno ao chalé com passos firmes. A transformação acontece novamente sob a lua que continua indiferente ao sangue derramado. Quando volto à forma humana, o frio atinge a pele com mais intensidade. Entro, fecho a porta e me apoio por um momento na madeira sólida.

O ar dentro do chalé carrega agora o cheiro distante de sangue e pólvora trazido comigo.

Pego uma toalha e limpo as mãos com movimentos controlados, como se pudesse remover o peso do que aconteceu. Não há culpa. Não há orgulho. Apenas a constatação de que o mundo que tentei manter distante começa a se aproximar.

Seguro o relógio, mas não o coloco.

Fico parado.

A lua ainda brilha lá fora, iluminando a floresta que agora guarda um segredo a menos.

Eu não estou sozinho nessas montanhas.

E não falo apenas do homem que morreu.

Alguém estava observando de longe.

E dessa vez não fugiu apenas por medo.

Fugiu para avisar.

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