Para mim, aquilo soou como uma porta fechada na minha cara. Eu não gosto de portas fechadas, especialmente quando envolvem meu trabalho. Eu não projeto no escuro. Eu não aceito um cliente que quer controlar a conversa antes mesmo de olhar meu rosto.
- Entendo.
Respondi firme, mantendo o tom profissional.
- Antes de marcarmos qualquer reunião presencial, eu preciso ver o briefing do projeto. Uma ideia do terreno, referências, exigências, cronograma. E eu quero uma videochamada com o cliente.
Do outro lado, houve um silêncio curto, mas perceptível.
- O cliente não costuma fazer esse tipo de contato direto.
- Então ele não costuma trabalhar comigo.
Retruquei sem elevar a voz, mantendo cada palavra no lugar exato.
- Eu não me desloco para lugar nenhum sem entender o que está sendo pedido e sem olhar nos olhos de quem vai me contratar. Pode ser uma videochamada de dez minutos. Eu só quero ver o projeto e entender o que ele espera.
Ouvi um suspiro contido do outro lado da linha, como se o homem estivesse medindo até onde eu iria.
- Eu posso repassar suas condições. Ele retornará.
- Ótimo. Quando ele retornar, me envie antes as informações básicas do terreno e a proposta de contrato. Depois fazemos a videochamada. Só depois disso eu considero encontro presencial.
- Certo, senhora Moreau.
A formalidade repentina me fez sorrir sozinha. Eu não era senhora de ninguém. Eu era só Rúbia. Mas também era uma mulher acostumada a ser subestimada por ser jovem, e aprendi cedo a estabelecer limites antes que alguém tentasse me empurrar.
- Aguardo. Boa tarde.
Desliguei antes que ele acrescentasse qualquer coisa.
Guardei o telefone no bolso e permaneci alguns segundos parada, ouvindo o som das máquinas no canteiro como se precisasse daquele ruído constante para voltar ao eixo. O vento passou mais forte entre os contêineres, trazendo o cheiro de cimento úmido misturado ao metal frio das estruturas expostas. Puxei o casaco para mais perto do corpo e tentei rir de mim mesma.
Era só um trabalho.
Só uma casa.
Só uma montanha.
Mesmo assim, a sensação no meu peito não desapareceu. Ela ficou ali, discreta e insistente, como a lembrança de um sonho que eu não consigo repetir, mas também não consigo esquecer.
O expediente terminou mais tarde do que eu esperava. Entrei no carro e segui para o escritório para organizar alguns contratos pendentes. Assim que entrei, percebi que algo estava diferente. O clima estava pesado, carregado de murmúrios contidos.
Sandra, a mais dramática da equipe, veio direto até mim.
Ela entrou na minha sala sem bater, o que por si só já era um sinal de que algo estava fora do eixo.
O rosto dela estava pálido demais para alguém que costuma resolver problemas estruturais com uma planilha na mão e um comentário sarcástico nos lábios.
- Você não viu as reportagens?
Mantive os olhos na tela por alguns segundos antes de responder.
- Não. Eu estava trabalhando. Algum prédio caiu e esqueceram de me avisar?
Ela fechou a porta atrás de si como se o corredor inteiro não pudesse ouvir o que estava prestes a dizer.
- É sobre uma cidade nas montanhas da Espanha. Está em todos os portais regionais.
Franzi levemente a testa.
- Espanha é grande demais para isso ser alarmante.
Sandra deu dois passos na minha direção e apoiou as mãos na mesa.
- Val d'Aran. Já ouviu falar?
O nome não me trouxe nenhuma memória concreta, apenas uma sensação leve e estranha que descartei imediatamente.
- Não. E deveria?
Ela engoliu seco antes de continuar.
- Moradores estão denunciando um... um lobisomem.
A risada escapou antes que eu pudesse conter.
- Você está falando sério?
- Não é exatamente lobisomem, tipo lua cheia e transformação dramática. É pior. Estão dizendo que são pessoas. Pessoas que viram lobos.
Recostei-me na cadeira, cruzando os braços.
- Sandra, você está me interrompendo por causa de teoria de internet?
Ela respirou fundo, claramente incomodada.
- Um caçador foi encontrado morto. Ataque animal, mas não era urso, não era lobo comum. Testemunhas disseram que viram algo enorme correndo entre as árvores antes dos tiros. Um homem. Depois um lobo.
- E você acredita nisso?
- Eu não sei no que eu acredito. Só sei que é estranho demais para ser coincidência.
Balancei a cabeça.
- Você assistiu Crepúsculo ultimamente? Porque isso está com cheiro de roteiro adolescente.
Ela estreitou os olhos.
- Você acha mesmo que todo mundo está inventando?
- Acho que quando o inverno chega e a neve cai, as pessoas ficam entediadas demais.
Peguei meu casaco da cadeira.
- Pessoas não viram lobos, Sandra. Isso se chama ficção. Cinema. Série de streaming.
- Mas e se for algo diferente?
- Não existe "e se" quando o assunto é biologia básica.
Caminhei até a porta.
- Eu tenho prazos reais para cumprir. Se alguém estiver assustado com sombra na floresta, sugiro terapia ou menos internet.
- Você está mesmo ignorando isso?
Abri a porta e sorri.
- Eu ignoro coisas que não existem.
Saí antes que ela pudesse responder.
Mas enquanto atravessava o corredor, aquela sensação incômoda voltou, discreta e persistente. Não por causa de lobisomens.
Por causa do nome da cidade.
Val d'Aran.
Eu não sabia por quê, mas o som dele permaneceu na minha cabeça durante o resto do dia.
Quando cheguei em casa, tirei as botas e o casaco, acendi a lareira e fui até a cozinha preparar um chocolate quente cremoso. O aroma doce e intenso tomou o ambiente enquanto eu me jogava no sofá, tentando convencer a mim mesma de que tudo aquilo era absurdo.
Meus pensamentos voltaram para Sandra. Para o olhar dela. Não que eu estivesse mudando de ideia, mas a insistência dela ecoava. Peguei o tablet e pesquisei a reportagem.
Um homem falava com firmeza diante da câmera que desde muito jovem ouvia histórias de homens que viravam lobos. Ele dizia que viu. Um lobo cinza, forte, grande, com olhos verdes intensos.
O sorriso que nasceu em mim foi involuntário.
Ainda assim, uma parte racional tentou organizar aquilo.
Matilhas não gostam de se sentir ameaçadas. Se algo reagiu, certamente foi provocado.
Eu fechei a tela e deixei o tablet de lado.
Era ridículo.
Mas naquela noite, antes de dormir, a imagem do lobo cinza de olhos verdes permaneceu comigo mais tempo do que deveria.
Ele deve ser lindo.