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Capítulo 10 8 O preço do poder

Úrsula saiu da sala de reuniões como uma tempestade elegante. O salto ressoando pelo corredor soava como um anúncio, um sinal de que ela estava ali e não pretendia sair tão cedo. Sabia que os cochichos começariam assim que passasse da porta, perfeitos para alimentar o próprio fogo.

Eles falariam mal dela pela última quinzena inteira, e Úrsula adorava isso.

Sentia os olhares grudarem na pele como pequenos espinhos. Mas ela andava como quem flutua, os ombros erguidos, o sorriso discreto, como se aquele lugar fosse o palco perfeito para sua performance.

Foi abordada no corredor por uma mulher rígida, de cabelos castanhos escuros tão bem presos que pareciam apertar o próprio crânio. O tailleur era engomado, sem um vinco fora do lugar, a maquiagem discreta demais, o olhar carregado demais. Para Úrsula, parecia alguém que vestia a tensão como segunda pele.

Faltava-lhe algo... talvez carisma, talvez sensualidade.

Ou quem sabe... uma vida.

A mulher se aproximou, os saltos mais contidos, o tom de voz frio, ensaiado:

- Precisa de alguma coisa, senhora Úrsula?

Úrsula parou, ergueu uma sobrancelha, o sorriso de canto preguiçoso:

- E você é quem, querida?

A pergunta foi seca, sem rodeios. Úrsula não tinha cargo ali, não precisava de secretária.

A mulher respondeu, ajustando o blazer, como se cada palavra fosse um lembrete de seu próprio status:

- Carolina. Secretária de Lívia.

Úrsula fez uma pausa, o sorriso crescendo, venenoso:

- Ah, entendi... - Úrsula soltou uma risada curta, sarcástica - A secretária da Isadora tem uma secretária... Esse Grupo Valli realmente precisa rever alguns custos.

Carolina, sem saber onde enfiar as mãos ou como reagir, ficou estática.

Úrsula deu um passo à frente, baixando o tom, quase como quem confidencia algo íntimo:

- Não preciso de nada, querida. Nada que você possa me dar, pelo menos.

E saiu, o perfume doce ainda pairando no ar, deixando Carolina tensa, de olhos arregalados, engolindo o próprio orgulho como um comprimido amargo.

O reinado de Úrsula estava só começando.

Isadora alcançou a irmã no corredor pouco depois do embate com Carolina. Usava um sorriso radiante, quase infantil, os saltos tilintando num ritmo mais apressado que os de Úrsula, que teve de conter um suspiro exasperado e fingir simpatia.

Isadora alcançou Úrsula, um sorriso radiante iluminando seu rosto.

- Você está indo muito bem! - exclamou, os olhos brilhando de orgulho. - Eu não imaginava que você era tão ótima! É claro que isso vem da genética da nossa mãe.

Úrsula sentiu um frio na barriga ao ouvir sobre a mãe. A lembrança de Clara, a mulher que a abandonara quando era apenas um bebê com dias de vida, a mulher que a deixara sozinha com um homem que nunca a tratara como um pai deveria tratar, a fez conter um comentário ácido. A fortuna que agora desfrutava, em grande parte, era resultado da morte de Clara, e isso a incomodava.

- Obrigada, Isadora - respondeu Úrsula, tentando manter a voz neutra. - Mas não estou interessada em um cargo na empresa.

- Como assim? - Isadora franziu a testa, confusa. - Você é muito boa para não ter um cargo. Deveria estar liderando alguma equipe!

Úrsula balançou a cabeça, um sorriso irônico nos lábios.

- Olha, eu posso ser boa, mas não quero um emprego. Há sim muito o que fazer aqui, mas não da forma tradicional. Por exemplo, por que a sua secretária, também tem uma secretária?

Isadora hesitou, mas logo respondeu, tentando justificar a situação.

- Ah, Carolina faz o trabalho da Lívia quando ela não está. É uma questão de organização.

Úrsula arqueou uma sobrancelha, desafiadora.

- Mas se alguém não está no trabalho durante o horário de trabalho, ainda merece um emprego? - A pergunta pairou no ar, provocativa.

Isadora abriu a boca para responder, mas Úrsula continuou, sem dar espaço para interrupções.

- Se Carolina sempre está aqui, então ela é quem merece o cargo, não a Lívia.

O olhar de Isadora se tornou pensativo, e ela percebeu que a irmã tinha um ponto. A dinâmica da empresa, com suas hierarquias e cargos, parecia tão frágil quando exposta à luz da lógica de Úrsula.

- Você pode ter razão - admitiu Isadora, um sorriso tímido surgindo em seu rosto.

- Acredito que passarei um tempo na empresa, apenas de olhos atentos, mas não quero um cargo. Só quero garantir que a empresa continue lucrando.

Isadora abriu um sorriso que quase ia de orelha a orelha; aquilo para ela já era o suficiente.

Úrsula e Isadora saíram juntas do prédio imponente do Grupo Valli, caminhando lado a lado em direção a um restaurante próximo, conhecido pela comida sofisticada e ambiente tranquilo. O contraste entre as duas era perceptível: Úrsula, confiante, de passos firmes e expressão afiada; Isadora, delicada, porém determinada, vestida com elegância sóbria.

Enquanto aguardavam à mesa, Úrsula percebeu que Isadora tentava ignorar o telefone, recusando chamadas sem sequer olhar para a tela. Curiosa, Úrsula não resistiu e perguntou com um sorriso malicioso:

- Quem é que não merece sua atenção?

Isadora soltou um suspiro, jogando o aparelho no bolso do casaco.

- Luiz... ele tem sido um pé no saco nos últimos dias.

Úrsula arqueou a sobrancelha, inclinando-se de leve para perto da irmã.

- Por conta de ter me dado 50% dos negócios da família?

Isadora fez uma careta, a expressão se tornando mais séria.

- É, parece que não gostou nada disso. Mas não é só por isso... Ele anda complicado, inseguro.

Úrsula cruzou os braços, um brilho calculista nos olhos.

- Sabe, Irmã, marido que reclama da presença da esposa, que não consegue lidar com mudanças, quase nunca é uma boa pessoa. Ele provavelmente está com medo, mas também pode estar tramando algo para retomar o controle.

Isadora olhou para Úrsula, surpresa com a franqueza, mas não pôde negar que aquele comentário fazia sentido.

- Talvez você esteja certa - admitiu ela, pensativa. - Nunca gostei daquele jeito dele... Sempre teve um lado controlador, sabe?

Úrsula sorriu, satisfeita por plantar uma semente de desconfiança.

- Cuide bem disso. Às vezes, afastar quem não veste a camisa da família faz parte do jogo.

Elas continuaram caminhando, a conversa ganhando um tom conspiratório, enquanto a sombra de Luiz começava a crescer silenciosa entre as irmãs recém-unidas.

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