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Capítulo 9 7 A faca na empresa

Nas semanas seguintes, Úrsula encarnou sua personagem com maestria. Fingir simpatia era uma arte e com Isadora, o papel era ainda mais fácil. Ela sorria, elogiava os vestidos caros que a irmã escolhia para ela, fazia perguntas bobas sobre os melhores spas e restaurantes da cidade, e parecia genuinamente interessada enquanto Isadora tagarelava sobre seus hobbies e eventos sociais.

Passeavam pelos shoppings como duas amigas inseparáveis , Úrsula sempre de salto, maquiagem impecável e os lábios vermelhos como uma assinatura. Não era amor. Era estratégia.

Por trás dos sorrisos, ela ouvia, aprendia, absorvia.

Quando Isadora a questionou sobre trabalhar no Grupo Valli, Úrsula foi direta:

- Eu não tenho interesse em me enfiar num escritório, querida. Já trabalhei demais na vida.

Mas o contrato de sociedade não era tão simples. Não precisava de um cargo, mas teria responsabilidades. Reuniões periódicas, participação nas decisões estratégicas, acesso a documentos e balanços. Sua presença, ainda que não fosse vitalícia, precisava ser ativa.

Antes da primeira reunião, ela estudou tudo o que pôde sobre o Grupo Valli. Passou noites mergulhada em relatórios, atas de assembleias, planilhas de fluxo de caixa, nomes de fornecedores, contratos... Ela sabia o terreno que pisava.

E quando o grande dia chegou, ela chegou atrasada de propósito.

Os saltos de Úrsula estalaram no mármore liso da sala de reuniões, reverberando como uma batida de tambor. Seu perfume doce, amadeirado e marcante, preencheu o ambiente. Todos os olhares se voltaram para ela, alguns carregados de desdém, outros com aquela curiosidade silenciosa, quase maldosa, que se reserva para quem está apenas esperando um tropeço, um deslize, um vexame.

Úrsula se acomodou na cadeira de couro como se fosse dona do lugar e, de certa forma, era.

Não demorou para o homem que ela já havia notado, grisalho, terno azul-marinho engomado demais, sorriso tão amargo quanto seu café sem açúcar, começar sua investida. Alexandre Magno, diretor comercial da divisão de trading do Grupo Valli, exalava arrogância como se fosse perfume.

Ele disfarçava o veneno com comentários sutis, mas Úrsula entendia a língua da prepotência como ninguém.

- É bom saber que ao menos a senhora sabe ler um relatório de hedge, senhora Costa. - disse, com um sorriso cínico, depois que ela corrigiu um dado "esquecido" no balanço trimestral.

Úrsula inclinou a cabeça, o sorriso de canto dançando em seus lábios vermelhos, os olhos faiscando.

- Sei muito mais do que ler, senhor...?

- Alexandre Magno.

- Ah, claro. Senhor Magno. - repetiu com uma falsa doçura. - Por exemplo, sabia que no fechamento do último contrato futuro de soja, a empresa GrainInvest reportou um desvio de 2% acima do teto de hedge acordado? Isso gerou uma exposição não justificada de pouco mais de 1,2 milhão de dólares para o Grupo.

O silêncio caiu sobre a mesa como uma nuvem carregada. Olhares se cruzaram, tensos. Um dos homens engoliu em seco, era ele o responsável direto pelo controle de risco da operação.

Alexandre cerrou os olhos, o sorriso cínico agora com uma fissura de incômodo, mas manteve o tom ácido:

- Impressionante... Onde foi que aprendeu essas coisas, Úrsula? - a voz dele estava impregnada de desdém, como se esperasse ouvi-la dizer que aprendera tudo sozinha, nas ruas, que era apenas um rosto bonito com sorte.

Mas Úrsula não era só um rosto.

- Contabilidade. Universidade Federal. Me formei aos 20 anos, porque terminei o ensino médio adiantada, mesmo estudando em escola pública. Mesmo morando numa comunidade onde não tinha nem o que comer direito. - a frase saiu firme, mas sem arrogância. Era um fato, e um soco no estômago deles.

O silêncio agora era espesso, constrangedor. Respeito forçado.

Ela sorriu. Não era apenas uma mulher bonita. Era inteligente.

E eles teriam que engolir cada palavra.

---

Luiz caminhava de um lado para o outro em seu pequeno escritório, o telefone preso entre o ombro e o ouvido, os passos impacientes estalando no piso de madeira. Estava indignado, murmurando palavras quase inaudíveis, mas carregadas de veneno.

- Inacreditável... - resmungou, bufando. - Isso é um absurdo! Uma palhaçada!

O ambiente ao redor não ajudava a acalmá-lo. Seu novo escritório, ainda com cheiro de tinta fresca, era modesto, adaptado em um prédio comercial simples no centro da cidade. O letreiro na porta ainda era provisório: L.S. Consultoria e Serviços Financeiros, o quarto negócio que Luiz tentava colocar de pé com os empréstimos de Isadora, sempre generosa e otimista, mas ele ah, ele sabia que tudo dependia dela.

Do outro lado da linha, Carolina, uma das secretárias do Grupo Valli, com sua voz aveludada, clara e firme, parecia saborear o que contava. Tinha os cabelos castanho-escuros, lisos, sempre presos em um coque, e um jeito elegante, um tanto frio, que escondia um olhar de interesse quando falava com Luiz. Os dois eram mais íntimos do que Isadora jamais poderia imaginar.

- Ela ainda está na empresa, Luiz. - Carolina informou, com um toque de divertimento na voz. - Na sala de reuniões. Pessoalmente, ela pediu revisão de alguns dados que não pareciam certos. Ninguém saiu para almoçar ainda.

Luiz parou, olhos arregalados, a raiva subindo como fogo no peito.

- Como assim pediu revisão? Quem ela pensa que é para mandar assim? Pode ser sócia, mas é uma Zé Ninguém! Uma palhaçada, só pode ser isso!

Carolina deu um risinho contido, ajustando a pulseira dourada no pulso enquanto espiava a tela do computador, o trabalho pausado.

- Aparentemente... conhece, sim. - respondeu, com um tom de mistério. - Renata está encarregada do café lá dentro e ouviu parte da conversa. Diz que Úrsula fez faculdade de contabilidade há uns anos. Parece que ela tem um diploma de verdade, Luiz.

Luiz quase jogou o celular na parede.

- Isso não faz dela uma boa gestora! Ela pode ter estudado, mas não sabe nada de commodities, não sabe lidar com hedge, não entende o mercado financeiro! É um absurdo ela mandar ali, um absurdo!

A voz dele subiu uma oitava, quase um grito. Mas Carolina, sempre elegante, apenas sorriu.

- Sua esposa também está na sala de conferências, Luiz. Deve estar adorando ver a irmãzinha trabalhar... - sua voz carregava uma pitada de ironia.

Luiz parou, os olhos fixos no nada, o peito arfando. O sangue latejava em suas têmporas, uma mistura de ciúme, frustração e puro ódio queimando por dentro. Ele desligou e largou o telefone na mesa com força, o som seco ecoando no escritório pequeno. As palavras de Carolina ainda pairavam no ar, se infiltrando como veneno. Mas, acima de tudo, era a presença de Úrsula que o fazia ranger os dentes. Ela não pertencia àquele mundo, não podia pertencer.

Mas o que mais o perturbava não era apenas a ascensão repentina de Úrsula no Grupo Valli, não. Era a lembrança da noite com ela, que insistia em voltar como uma cicatriz em brasa, pulsante.

Ele fechou os olhos, e as imagens o engoliram.

Aquela madrugada ainda o queimava. O quarto de motel, o cheiro dela, os lençóis amassados. Luiz despertou com a cabeça pesada, o corpo suado, e um pânico gelado subindo pelo peito.

Ela estava ali, nua, jogada no lençol de cetim, como se fosse dona do mundo. O batom borrado, os cabelos emaranhados

Ele praguejou em silêncio. Nunca nunca era assim. Luiz sempre era cuidadoso. Jamais motéis famosos, jamais com alguém que sequer sabia o nome. Mas naquela noite, ele tinha sido descuidado.

Saiu da cama devagar, o coração disparado, vestindo as roupas com pressa. Procurou papel, achou um bloquinho no criado-mudo. Escreveu o bilhete com a mão trêmula:

"A conta já está paga. Desculpe pelo que aconteceu. Amo minha esposa. Isso não vai se repetir."

Dobrou as notas de dinheiro, uma quantia vergonhosamente alta, quase como uma gorjeta de quem tentava comprar o silêncio. Não queria parecer um canalha completo, mas sabia que parecia.

Quando olhou para ela pela última vez, deitada, os lençóis deslizando pelas curvas como seda, algo dentro dele se contorceu. Uma mistura de desejo e arrependimento, uma raiva inexplicável.

Saiu do quarto tentando não fazer barulho, o papel na mesa de cabeceira, as notas dobradas. Passou pela recepção de olhos baixos, a mão tremendo quando entregou o cartão de crédito, o da esposa. Sabia que Isadora nunca checava a fatura, que as despesas dele passavam despercebidas no cartão Black dela. Um hábito antigo, de quem sabia se esconder.

Pagou a pernoite e quase correu até o carro. As mãos ainda tremiam no volante quando ligou o motor e arrancou.

Foi para a casa da mulher que aceitava ser sua segunda opção sem sequer hesitar. Ela abriu a porta de camisola, o cabelo bagunçado, o olhar irritado:

- Onde você estava? - perguntou, a voz mais baixa do que o habitual, mas carregada de suspeita.

Luiz não hesitou. Nem corou.

- Com a Isadora. Tivemos um jantar, acabamos discutindo depois... bom, você sabe como é.

Ela o olhou de cima a baixo, desconfiada, mas aceitou a mentira como aceitava todas as outras.

Luiz suspirou, aliviado, mas o peito ainda estava apertado. Nunca mais, ele pensou naquela madrugada.

Nunca mais cometeria um erro tão estúpido.

Agora, sabendo que Úrsula estava sentada à mesa de reuniões, exigindo revisão de contratos, comandando homens que ele mesmo achava imponentes, a lembrança ardia ainda mais.

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