O banho é uma cerimônia de respeito. A água cai morna, um abraço líquido que nunca ousa ser quente demais, pois o calor é o gatilho da minha ruína. Meus movimentos são lentos, coreografados para evitar qualquer fricção desnecessária. A toalha não esfrega; ela apenas pousa sobre a pele, absorvendo a umidade como se pedisse licença para tocar o sagrado. Aplico a pomada manipulada com a precisão de um cirurgião em áreas que só eu conheço e recorro ao meu truque mais antigo: finas camadas de algodão hidrófilo por baixo da camisa de seda. É o acolchoamento entre a minha vulnerabilidade e o mundo exterior.
Aos 27 anos, minha beleza é uma construção estratégica. Sou ruiva por genética e teimosia, com fios longos que caem em ondas acobreadas, servindo como uma cortina natural para o meu pescoço. Meus olhos verdes são bússolas de humor; eles revelam o brilho da inteligência e a chama da ofensa antes mesmo de eu abrir a boca. Tenho 1,73m de altura e uma postura que muitos confundem com arrogância, mas que nada mais é do que o alinhamento necessário para que o tecido das roupas não repuxe onde não deve.
Minha maquiagem é discreta, mas eficiente: uma base de alta cobertura que uniformiza o que a doença tenta manchar, lábios em tons de nude sóbrio e um olhar que encara o mundo sem pedir desculpas. No meu closet, não existem roupas casuais; existem estratégias. Tecidos com forro de cetim, costuras embutidas que não arranham e cortes que favorecem o movimento sem expor a fragilidade. Meus saltos são médios, o equilíbrio exato entre a autoridade de uma executiva e o conforto de quem não pode se dar ao luxo de tropeçar.
Dentro da minha bolsa, carrego meu kit de sobrevivência, meu "manual de instruções" portátil: soro fisiológico, bandagens estéreis, um hidratante sem fragrância que custa metade do meu aluguel e um bilhete que escrevi para mim mesma em uma noite de crise: "Você não é a sua doença. Você é quem atravessa."
O Domínio do Caos
Trabalho no 18º andar da Torre Íris. A Vértice Engenharia é uma empresa de médio porte, sólida, mas sem o brilho ofuscante das gigantes da Faria Lima. Aqui, o ar cheira a café fresco e ozônio de impressora. Minha recepção não é apenas um balcão; é o meu centro de comando. Gerencio três telas que brilham com planilhas complexas, dois ramais que nunca silenciam e um calendário que trato com o cuidado que um museólogo dedica a uma relíquia. Eu conheço a vida dos diretores melhor do que suas próprias esposas.
Seu Anselmo, o porteiro que viu gerações passarem por aquele lobby, me chama de "Menina da Cabeça Fria". Para os estagiários, sou o "Sistema Operacional Humano". Eu apenas sorrio. O controle é o meu único vício.
Às 9h00, Helena Lobo, a diretora administrativa, cruza o corredor. Helena é uma mulher feita de ângulos retos e decisões rápidas.
- Bom dia, Clara. O caos já deu as caras? - perguntou ela, sem diminuir o passo.
- Bom dia, Helena. A UrbanAxis tentou um blefe, mas a reunião está confirmada para as 10h. O CFO deles solicitou quinze minutos de antecipação para revisar índices de liquidez. A Sala B já está preparada: projeção testada, temperatura em 22°C, água sem gás e o café árabe que ele prefere.
Helena parou, me analisando com a intensidade de um general inspecionando uma tropa de elite.
- E o contrato do Lote 12?
- Impresso em papel timbrado, rubricado por quem de direito e lacrado. O motoboy principal chega às 11h15. Por precaução, devido ao protesto na avenida vizinha, já reservei o Jonas, nosso backup, para as 11h40.
Um sorriso raro e genuíno surgiu nos lábios de Helena.
- Você é meu milagre de segunda-feira, Clara. Se eu pudesse, te transformava em algoritmo e vendia para a concorrência por milhões.
Eu apenas agradeci com um aceno de cabeça. Enquanto ela entrava em sua sala, o telefone tocou. A UrbanAxis estava em pânico; o CEO deles ficou retido em uma vistoria de última hora e queriam empurrar tudo para as 11h. Em exatos cento e vinte segundos, eu desmontei e remontei a manhã da Vértice. Avisei o jurídico, remanejei a consultoria de seguros para as 16h, troquei a sala B pela A - que tem uma acústica superior para chamadas de vídeo - e reconfirmei o coffee break. Ninguém sentiu o solavanco. Foi uma solução limpa, cirúrgica, invisível. É assim que eu gosto de operar: como o vidro, que está lá, mas ninguém nota, a menos que ele quebre.
A Sombra do Lobo
O calor do meio-dia começou a pressionar as vidraças da Torre Íris. Mantive-me hidratada, bebendo água religiosamente para compensar o efeito dos medicamentos no meu organismo. Um toque discreto sob a blusa me confirmou que o algodão ainda estava seco. Sem alertas. Sem fogo.
Às 12h05, a comitiva da UrbanAxis finalmente desembarcou do elevador. Guiei-os com a polidez gélida que o ambiente exige. O CFO, um homem que parecia prestes a ter um colapso nervoso, me olhou como se eu fosse um anjo enviado para salvar seu cronograma. Mal sabia ele que minha calma era fruto de anos negociando com bolhas e feridas reais.
Pouco depois, Helena me chamou em sua sala. O ambiente exalava o aroma de café recém-passado e o peso de algo importante. Ela estava em pé, de costas para a porta, observando o horizonte de prédios.
- Clara, sente-se. Beatriz Prado, uma headhunter agressiva do mercado, me ligou hoje. - Helena virou-se, e vi uma hesitação inédita em seus olhos. - Eles têm uma vaga. Algo fora da curva. Algo que paga o triplo do que você recebe aqui, mas que exige um preço que poucos estão dispostos a pagar.
Mantenha a voz neutra, mas meu coração deu um solavanco, enviando um sinal de alerta para a minha pele.
- Fora da curva como, Helena?
- Secretária executiva de um CEO. Mas não estamos falando de qualquer executivo. Estamos falando do homem que redesenhou o skyline desta cidade com vidro e aço. Miguel Satamini.
O nome caiu entre nós como uma lâmina de guilhotina, brilhante e letal. Satamini. O sobrenome que fazia salas de reuniões silenciarem e ações da bolsa flutuarem.
- Miguel Satamini está sem secretária há dois meses - continuou Helena, cruzando os braços. - A última saiu em estado de choque, carregando uma indenização que daria para comprar um duplex nos Jardins. Antes dela, três não duraram um semestre. O homem é uma máquina, Clara. Arrogante a um nível patológico. Ele exige precisão absoluta, detesta explicações longas e tem tolerância zero para erros, barulho ou improvisos. Ele não quer uma funcionária; ele quer uma extensão perfeita da sua própria vontade.
Respirei fundo, sentindo o ar condicionado resfriar meu rosto.
- Se ele é esse monstro de eficiência e arrogância, Helena, por que alguém em sã consciência aceitaria o cargo? O dinheiro é o único atrativo?