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A Secretária do CEO de Gelo
img img A Secretária do CEO de Gelo img Capítulo 4 Clara
4 Capítulo
Capítulo 6 A ESTÉTICA DA PRECISÃO img
Capítulo 7 O ARQUITETO DO CAOS img
Capítulo 8 O SANGUE SOB A SEDA img
Capítulo 9 O PREÇO DA EFETIVAÇÃO img
Capítulo 10 A ANATOMIA DO ESCRUTÍNIO img
Capítulo 11 O ALTAR DA RESISTÊNCIA img
Capítulo 12 A LITURGIA DA ORDEM img
Capítulo 13 Narrado por Miguel Satamini img
Capítulo 14 Narrado por Miguel Satamini img
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Capítulo 16 Clara img
Capítulo 17 Continuação img
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Capítulo 4 Clara

O Cálice de Aço e a Promessa de Ouro

Narrado por Clara

- Porque ele oferece um salário que poucos conseguem sequer sonhar, Clara. - Helena soltou uma risada curta, desprovida de humor, mas carregada de realismo. - Estamos falando de quase o triplo do que você recebe aqui na Vértice. Benefícios que fariam até o sindicato mais combativo se emocionar. Uma estrutura sólida, equipe de apoio de elite e ferramentas de ponta. E, além disso, um selo no currículo que vale por toda uma vida. Trabalhar três meses com Miguel Satamini abre portas que a maioria das pessoas nem imagina que existam.

Eu fiz uma pausa proposital. O silêncio não era por deslumbramento com o glamour, mas por um cálculo frio e necessário que rodava na minha mente como uma planilha de alta performance. Eu processei os números: o custo exorbitante dos meus imunossupressores, os exames de sangue quinzenais que eu muitas vezes pagava do próprio bolso para não enfrentar as filas do SUS, as consultas particulares com especialistas quando minha pele decidia entrar em colapso. O aluguel do meu apartamento na capital subia como se tivesse vida própria, devorando minhas economias.

Mas, mais do que o dinheiro para a minha sobrevivência, um pensamento persistente e doloroso martelava meu peito: meus pais. Lembrei-me do sorriso incompleto do meu pai, adiando o conserto dos dentes há anos porque "o dinheiro não dava"; lembrei-me da geladeira da minha mãe, um eletrodoméstico antigo e ruidoso que parecia um motor cansado implorando por descanso. Eu poderia resolver tudo isso. Em seis meses com Satamini, eu mudaria o destino da minha linhagem.

- A Beatriz Prado perguntou especificamente por você, Clara - acrescentou Helena, interrompendo meus pensamentos. - Eu a indiquei sem um milímetro de hesitação. Sei exatamente do que você é capaz quando tem um cronograma e um império nas mãos. Você não gerencia apenas agendas; você gerencia o caos.

Um sorriso pequeno, quase imperceptível, apareceu em meu rosto. Eu não era do tipo que ficava corada com facilidade; a vida me ensinou a controlar o fluxo sanguíneo sob a pele tanto quanto controlo meus e-mails.

- Obrigada pela confiança, Helena. O que a Beatriz deseja exatamente?

- Uma entrevista. Amanhã, às 7h30, na Satamini Corp., 42º andar. - Helena inclinou-se para frente, a expressão endurecendo. - Dress code discreto, sapato confortável e mente afiada. E, Clara... - Ela hesitou, o que era um sinal de alerta vermelho. - Blindagem emocional absoluta. Ele testa as pessoas. Ele provoca, ele avalia a resistência, ele procura a rachadura no vidro. Se ele sentir que você é frágil, ele te quebra antes mesmo de você assinar o contrato.

- Eu me adapto - afirmei, com a simplicidade de quem anuncia que vai chover. - Eu sempre consigo.

O Encerramento do Ciclo

Saí da sala da Helena com o convite ressoando em minha mente como uma nota de piano grave e persistente. Havia um respeito instintivo pelo medo, mas uma vontade ainda mais intensa de provar que eu era a peça que faltava naquele tabuleiro de xadrez de bilhões de dólares. No corredor, encontrei Rafa, nosso gênio do TI, desmontando uma impressora industrial como se fosse um brinquedo de Lego.

- Vai se tornar astronauta, Rafa? Ou está tentando construir um acelerador de partículas?

Ele riu, limpando a graxa na calça jeans.

- Apenas se a NASA aceitar toner reciclado, Clara. Mas e você? Está com aquela expressão de quem acabou de receber a chave de um cofre.

- Quase isso - respondi com um piscar de olhos. - Amanhã te conto os detalhes.

Voltei para a minha mesa e iniciei minha própria operação de guerra. Eu não deixaria a Vértice na mão; minha ética profissional era minha segunda pele. Enviei e-mails de acompanhamento, deixei memorandos detalhados e preparei uma lista de pendências para a Júlia. Ela tinha apenas vinte e dois anos, mas possuía a centelha da inteligência. Chamei-a para uma "mini-aula" de trinta minutos que, para qualquer outra pessoa, pareceria um treinamento de inteligência estratégica.

- Prioridade um, Júlia: UrbanAxis. Se eles ligarem tentando renegociar, não prometa nada. Escute, anote e consulte o jurídico. Prioridade dois: logística. O Jonas é nosso plano B, mas se São Paulo decidir ter um daqueles dias caóticos, ligue para o Marcelo. Ele conhece atalhos na Radial que não estão no GPS. Prioridade três: Helena. Ela odeia surpresas. Mande atualizações a cada duas horas, mesmo que seja apenas para dizer que o sol ainda está brilhando.

- Checklist? - Júlia já conhecia meu mantra.

- Aqui está. - Entreguei o impresso com marcadores precisos. - E pegue isto: minha caneta reserva da sorte. Considere um empréstimo, não uma doação.

- Você vai precisar de muito mais do que sorte amanhã, Clara - Júlia sussurrou, cúmplice, enquanto guardava a caneta como se fosse um talismã.

No final do expediente, liguei para minha mãe. Minha voz estava firme, carregada de uma promessa que eu pretendia cumprir.

- Mãe, lembra daquele tratamento dentário do papai?

- Lembro, filha. Mas não se preocupe com isso agora. Vamos ver se mês que vem, quando entrar o décimo terceiro...

- Não precisa esperar, mãe. Eu vou resolver isso. Agora.

Houve um silêncio do outro lado da linha. O silêncio de quem conhece o peso do sacrifício.

- Você conseguiu um aumento, minha filha? - perguntou ela, entre a esperança e a cautela de quem já foi muito decepcionada pela vida.

- Ainda não. Mas estou buscando uma oportunidade monumental. Depois te conto os detalhes. Apenas saiba que as coisas vão mudar.

- Seja o que for, Clara... cuide-se. Não se perca nesse mundo de prédios altos.

O Ritual Diante do Espelho

Cheguei em casa e o ritual começou. Meu apartamento é meu santuário: pequeno, acolhedor, com janelas que deixam o vento circular e uma planta persistente que sobrevive contra todas as probabilidades. Retirei meus saltos e os deixei perto da porta - um som seco de couro contra o chão que marcava o fim de uma jornada e o início de outra. Coloquei minha camiseta de algodão mais macia. Minha pele deu um suspiro invisível de alívio.

Abri o guarda-roupa e iniciei a seleção da "armadura de gala". Saia lápis? Descartei imediatamente; a costura na cintura poderia atritar se a reunião se estendesse. Escolhi uma calça de alfaiataria em lã fria com forro de seda suave, uma blusa de cetim de seda (que não irrita os poros) e um blazer estruturado que me conferia a silhueta de uma mulher que não pede permissão para existir. Testei cada movimento diante do espelho: sentar com elegância, levantar sem esforço, erguer os braços para alcançar pastas imaginárias, girar o corpo. Nada apertava. Nada arranhava. Nada denunciava meu segredo.

No celular, criei a nota mental que era meu plano de vôo:

07h10: Chegada (tempo para cadastro e elevadores lentos).

Logística: Currículo em papel especial, referências assinadas por Helena.

Tópicos: Fluxo de assinatura digital, gestão de conselho, protocolo de crise internacional.

Mantra: Eu não encolho. Eu sou o vidro temperado.

Tomei meu banho morno, cuidei de cada centímetro da minha pele com a devoção de quem apaga incêndios silenciosos e deitei. Encarei o teto. Eu sou uma guerreira em minha própria derme. Se amanhã tudo desse certo, eu entraria no covil de um homem que acredita controlar o mundo. Eu o deixaria acreditar. O poder dele era baseado em números; o meu, em sobrevivência.

O Covil do Rei do Vidro

O despertador tocou às 5h20. Café preto forte, pão macio para não ferir a mucosa da boca, kit de sobrevivência completo na bolsa. O metrô estava em sua calma pré-caos. Olhei meu reflexo na janela escura: eu via uma mulher que se forjou sozinha, que não romantiza a dor, mas a utiliza como combustível.

Desci duas estações antes da Faria Lima. Precisava caminhar, sentir o asfalto, focar minha energia. A Torre Satamini erguia-se diante de mim como um obelisco de arrogância: vidro azul profundo e aço polido que refletia o céu de São Paulo com desdém. O lobby era silencioso como um mausoléu de luxo. Apresentei meu documento e recebi um crachá preto com um "S" gravado em dourado. O metal do crachá era frio contra meus dedos.

O elevador subiu em um silêncio absoluto. No espelho, ajustei uma mecha rebelde do meu cabelo ruivo. Postura ereta. Queixo no ângulo de quem conhece seu valor.

42º andar.

As portas se abriram para um ambiente que exalava o aroma de dinheiro antigo e café de grãos selecionados. Atrás da recepção, uma parede de vidro de dez metros exibia a cidade em submissão. Caminhei até a mesa, o som dos meus saltos abafado pelo carpete de alta densidade.

- Clara Albuquerque. Entrevista com o senhor Satamini às 07h30.

A recepcionista, uma mulher impecável que parecia ter sido esculpida em mármore, sorriu profissionalmente.

- Seja bem-vinda, senhorita Albuquerque. Ele a aguarda.

Sentei-me e cruzei as pernas com um movimento econômico. Pego a caneta que levei como reserva - a da sorte ficou com a Júlia. Respirei fundo, sentindo o ar condicionado gelado contra meu rosto. Eu não estava ali apenas pelo salário ou pelo currículo. Eu estava ali porque eu era a única pessoa capaz de organizar o mundo de um homem que se achava um deus, enquanto eu lidava com demônios celulares todos os dias.

A porta da sala de reuniões acendeu um discreto sinal verde. A recepcionista fez um gesto com a mão: "É agora".

Levantei-me, ajustei o blazer com as pontas dos dedos e caminhei. A luz branca do escritório era implacável, mas ela não me definiria. Eu era Clara Lemos. E eu era mais do que suficiente para qualquer tempestade que Miguel Satamini estivesse planejando desencadear.

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