Contemplo meu reflexo na imensa vidraça do quadragésimo segundo andar. O terno claro, de um corte tão milimétrico que parece fundido ao meu corpo, destaca a largura dos meus ombros - 1,88 metro de uma estrutura forjada para carregar fardos que esmagariam homens comuns. Aos 35 anos, não sou apenas o herdeiro de um sobrenome que exala respeito; sou o arquiteto de um domínio que se estende por continentes e molda o horizonte das metrópoles. Meus olhos cinzentos, da cor do aço temperado, não buscam aprovação ou empatia; eles buscam falhas, fissuras, pontos de ruptura. As rugas discretas nos cantos são as medalhas de uma insônia implacável, de quem prefere a vigília estratégica ao descanso dos irrelevantes.
Arrogante? Sim, eu aceito o rótulo com a mesma naturalidade com que assino contratos de bilhões. A arrogância é a armadura necessária para quem não tem tempo a perder com a incompetência alheia. No topo da pirâmide, o ar é rarefeito e a paciência é um luxo que eu decidi não financiar. Prefiro ser detestado por ser implacável do que ser ignorado por ser comum. No mercado, a hesitação é um pecado capital que não admite confissão, e eu sou o carrasco impiedoso de quem hesita.
As secretárias sempre foram o meu calcanhar de Aquiles, a única engrenagem que insiste em apresentar atrito. A última delas, uma mulher que se dizia poliglota e mestra em logística, cometeu o erro crasso de confundir Tóquio com Toronto em um despacho internacional. O resultado? Uma reunião estratégica comprometida e um prejuízo de milhões em uma obra de infraestrutura no Canadá. Eu não precisei elevar a voz ou gesticular; eu apenas a apaguei do meu cronograma como se deleta um arquivo corrompido. Ela saiu chorando, uma reação emocional que apenas confirmou sua inadequação. Antes dela, outra vazou informações confidenciais para um jornalista desonesto. Custou caro silenciá-la, mas o resultado foi cirúrgico. Eu pago pela lealdade e pelo silêncio, mas entendi cedo que essas são as mercadorias mais raras do setor.
Abro meu caderno de couro costurado à mão sobre a mesa de ébano. O relógio de areia de quinze minutos está posicionado exatamente ao centro. A areia é negra, fina, implacável. Gosto de ver o tempo escorrer fisicamente diante de mim; é um lembrete visual de que o tempo se rende apenas àqueles que não hesitam em domá-lo.
7h29.
O interfone corta o silêncio da sala com a precisão de um disparo de sniper.
- Senhor Satamini, a candidata Clara Albuquerque chegou.
Um minuto de antecipação. Pontualidade não é uma virtude para mim, é o requisito mínimo para que eu não mande alguém embora antes mesmo de ver o rosto. Mas chegar sessenta segundos antes demonstra uma percepção tática de território que eu respeito.
- Traga-a às 7h30 - ordeno, minha voz saindo baixa, densa e cortante como uma lâmina de vidro. - Nem um segundo antes, nem um segundo depois.
Ajusto o punho da camisa branca, impecável como uma tela em branco aguardando o caos. Beatriz Prado e Helena Lobo, duas mulheres que desprezam o elogio fácil, apostaram suas reputações nesta candidata. "Um relógio suíço", foi a descrição de Helena. Veremos se ela é feita de engrenagens de precisão ou se é apenas mais um vidro comum que racha sob a primeira onda de pressão que eu costumo emanar. Eu não contrato funcionários para preencher vagas; eu contrato extensões da minha própria vontade, mentes que compreendam que, entre o meu comando e a execução final, não pode existir o menor espaço para o improviso ou para a falha.
Examinei cada linha do seu dossiê, escutei as gravações de suas chamadas na Vértice Engenharia com a atenção de um predador e analisei os relatórios que ela assinou. O que percebi foi uma precisão cirúrgica; o que ouvi foi uma serenidade que beira o perigo. E serenidade absoluta em meio à tempestade é o verdadeiro poder. Contudo, currículos são apenas papéis decorados, teatros corporativos bem ensaiados. Eu não contrato discursos ou sorrisos de recepção. Eu contrato reações sob fogo cruzado.
O relógio marca exatamente 7h30. O primeiro grão de areia negra cai no bulbo inferior, iniciando oficialmente a contagem regressiva da sua vida profissional. Ouço o clique seco da maçaneta de bronze. Minha porta de carvalho maciço é propositalmente pesada, um teste físico de intenção; ela exige decisão, força e postura para ser aberta sem hesitação.
Alinho o terno com um toque leve, um gesto instintivo de quem ocupa o espaço e domina o ambiente sem o menor esforço. Retiro os óculos de leitura e os coloco no topo da cabeça, permitindo que meus olhos cinzentos tenham uma visão total, sem filtros, pronta para dissecar a alma da mulher que se atreve a entrar no meu campo de visão.
A porta cede ao peso da autoridade.
- Entre.