Mas as mudanças não eram apenas externas. Internamente, Daisy sentia uma verdadeira revolução. Havia dias em que se olhava no espelho e mal se reconhecia. Via não apenas a mulher que havia sofrido uma desilusão amorosa, mas uma futura mãe. O reflexo que a olhava de volta parecia mais frágil, mas também, de alguma forma, mais determinada.
"Você está diferente, Daisy", comentou Lucas certa manhã, enquanto tomavam café da manhã. Ele não disse se era bom ou ruim, apenas observou com aquele seu olhar atento. "Tem uma luz nova no seu rosto."
Daisy tocou a própria barriga, um gesto que já começava a ser automático, quase um instinto de proteção. "É o peso da responsabilidade, talvez. Ou o medo de não dar conta."
"Você vai dar conta", respondeu Lucas com firmeza, servindo mais suco para ela. "Porque você tem coração. E isso conta mais do que qualquer outra coisa."
A convivência na casa de Lucas se tornava cada dia mais natural. Eles haviam criado uma rotina silenciosa, onde cada um sabia seu lugar e suas necessidades. Lucas continuava sendo o apoio perfeito: lembrava-a de tomar as vitaminas, preparava comidas que não lhe causassem enjoo e, principalmente, sabia a hora de falar e a hora de ficar em silêncio.
No entanto, havia momentos em que a solidão apertava o peito de Daisy. Mesmo com a presença calorosa de Lucas, ela sentia falta de ter alguém com quem dividisse exclusivamente aquela experiência. Via mulheres na rua acompanhadas de seus maridos ou namorados, tocando suas barrigas juntos, e sentia uma pontada de inveja e tristeza. O que deveria ter sido um momento de cumplicidade a dois, tornou-se uma jornada solitária, embora amparada.
Uma tarde, enquanto organizava algumas roupas que havia ganhado da amiga de Lucas, Sofia, Daisy deixou as lágrimas rolarem. Não era de dor física, mas de uma melancolia suave, uma saudade do futuro que imaginara e que agora não existiria mais.
Lucas entrou no quarto naquele exato momento. Vendo-a chorar, não perguntou nada de imediato. Apenas se aproximou devagar e sentou-se ao lado dela na cama, estendendo o braço para que ela pudesse se apoiar.
"É difícil, não é?" ele sussurrou. "Ter que ser forte o tempo todo."
"Às vezes eu só queria poder voltar no tempo e fazer tudo diferente", confessou ela, enxugando o rosto. "Eu sinto tanto medo, Lucas. Medo dele crescer sem pai, medo dele me perguntar um dia o porquê das coisas, medo de errar."
Lucas pegou a mão dela e a apertou com carinho. "Olha para mim, Daisy. Ninguém sabe tudo. Ninguém está pronto 100%. Você vai errar, claro, porque é humana. mas vai acertar muito mais porque ama esse bebê mais do que tudo. E sobre o pai... o que importa não é quem gerou, mas quem cria. Quem está aqui, no dia a dia, segurando a mão."
As palavras dele a acalmaram como um bálsamo. Naquele momento, Daisy percebeu o quanto Lucas havia se tornado essencial. Ele não estava tentando substituir ninguém, ele estava preenchendo os espaços vazios com sua própria essência, com sua bondade.
Nos dias seguintes, Daisy decidiu se permitir viver aquela fase com mais leveza. Começou a comprar pequenas coisas para o enxoval, não com tristeza, mas com a alegria de quem prepara um ninho. Lucas a acompanhava nas compras, dando opiniões sobre cores e tecidos, rindo quando ela se indecisava entre um modelo de sapatinho ou outro.
Ela também começou a sentir os primeiros movimentos do bebê. Eram leves, como borboletas batendo asas dentro de si. A sensação era mágica, indescritível. Na primeira vez que sentiu com clareza, Daisy chamou Lucas imediatamente.
"Coloca a mão aqui, rápido!" disse ela, animada.
Lucas aproximou-se, hesitante no início, e colocou a mão grande e quente sobre a barriga dela. Por alguns segundos nada aconteceu, e então, um pequeno chute fraco, mas perceptível. Os olhos de Lucas se encheram de lágrimas e ele sorriu, um sorriso largo e verdadeiro.
"Ele é forte...", disse ele, com a voz embargada. "Ele está vivo, Daisy."
"Está sim", respondeu ela, sentindo uma felicidade plena tomar conta de seu ser. "Está vivo e bem."
Naquele instante, o clima entre eles mudou de uma forma muito sutil, mas muito profunda. Havia uma cumplicidade que ia além da amizade, uma parceria que se solidificava a cada dia. Daisy olhou para Lucas e sentiu uma gratidão tão grande que doía no peito. Ele era o seu porto seguro, o irmão que a vida lhe deu, o amigo que se tornou família.
A cidade já não parecia mais um lugar estranho. As ruas, os parques, a livraria... tudo aquilo agora fazia parte da história que ela estava construindo. Daisy sabia que o caminho ainda seria longo, que haveria noites de choro e dias de cansaço extremo pela frente. Mas também sabia que não estava mais sozinha naquela barca.
Ela acariciou a barriga e depois olhou para Lucas, que ainda mantinha a mão ali, como se estivesse conectado àquela pequena vida.
"Obrigada", disse ela baixinho. "Por não ter me deixado afundar."
"Eu nunca iria", prometeu ele. "Nós vamos passar por isso juntos. Você, eu e ele."