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Capítulo 6 Os terríveis Dois

Dizem que o primeiro ano de casamento é o pior e o mais decisivo para todo recém-casado. Porém, o nosso primeiro ano foi maravilhoso. Decidi que só começaria a faculdade no ano seguinte e o Carlos recebeu um aumento , então conseguimos comprar o nosso próprio carro. Passei a fazer um curso de alemão para ocupar o tempo. A parte boa é que nós dois sempre tínhamos tempo para ficar juntos,fazíamos todas as refeições em casa e parecíamos dois coelhos , agora com um pouco mais de moderação , apesar de ter sido difícil para mim desgrudar minhas mãos dele,mas foi como eu disse...

o nosso primeiro ano foi maravilhoso... Pelo menos até aquele jantar de aniversário de casamento.

- Feliz dois anos - diz Carlos me beijando enquanto o garçom serve o vinho tinto em minha taça.

-Feliz dois anos- respondo erguendo a minha taça. Saboreio o jantar curiosa para saber o que ele está tramando, pois tínhamos combinado de passar todos os aniversários de casamento em casa com uma comemoração intimista- O jantar está maravilhoso.

- Fico feliz que esteja gostando - responde Carlos,enigmático. Eu o encaro tentando imaginar o que o jantar significa: Ou foi uma cagada muito grande,pois assim explica o fato de estarmos em um lugar público , me impossibilitando de matá-lo. E até mesmo fazer um escândalo digno de Dália Penedo & Salazar. Ou ele tem uma notícia maravilhosa digna desse jantar - O que foi Dália?

-Estou me perguntando o que esse jantar de casamento significa- respondo tranquilamente- Eu sei que não me trouxe aqui só pelo aniversário. Então o que é?

- Certo... não consigo te enganar- conclui Carlos. Ele toca em minha mão e a leva aos lábios enquanto me encara , docemente.- Estou concorrendo para ser sócio da empresa.

- Não brinca?!- digo ,surpresa. Há meses Carlos só fala dessa oportunidade , mas o dono nunca deu muita certeza, apesar do meu marido ter revolucionado aquele lugar e impulsionado as vendas. Sei que sou suspeita para falar , mas sem o meu marido,aquele lugar não é nada - E agora? O que precisa fazer?

-Agora eu preciso criar um projeto e depois implantado . Estou pensando em ampliar a rede para outros países ... tenho várias ideias e ... estou com medo de escolher a errada - confessa Carlos , preocupado - Sem contar que isso vai aumentar minha rotina de trabalho, ou seja, vai reduzir o nosso tempo juntos. E eu trouxe você aqui, pois isso quero tomar essa decisão com você, já que o nosso casamento será o mais afetado com essa decisão.

- Obrigada por pensar em nós - confesso segurando as lágrimas. O fato de Carlos ter colocado a nossa relação como prioridade me fez enxergar o quanto ele me ama - Mas acho que deve aceitar. É uma oportunidade única e não quero que a perca. O nosso casamento ficará bem , pois eu vou fazer de tudo para que nada nos afete.

-Eu também farei de tudo para que nada nos afete - promete Carlos.

Assim que chegamos em casa, Carlos me ergue em seus braços e carrega até o quarto. Aos beijos me coloca na cama e abre o zíper do meu vestido preto. Beija meus ombros devagar, enquanto eu desabotou sua camisa, toco seu peitoral. Ele pressiona seu corpo contra o meu em direção à cama. Seu toque me explora cheio de desejo. Penetra meu corpo com cuidado, enquanto toca meus lábios como se fosse uma jóia descoberta.

-Nada irá nos afetar- sussurra Carlos me admirando à promessa feita no jantar- Nada...

-Eu te amo - respondo o beijando logo em seguida.

Fazemos amor essa noite bem devagar, como se fosse a nossa última noite juntos...

***

A teoria não funciona na prática... e foi o que aconteceu com a nossa promessa. Com a oportunidade de se tornar sócio , Carlos aumentou sua jornada de trabalho a ponto de não conseguir vê-lo durante a semana. Ele saía para trabalhar as sete da manhã , quando eu estava dormindo e voltava as onze ou meia noite, quando eu estava dormindo novamente. Só conversava com meu marido aos domingos, se é que eu posso chamar de conversar falar sobre o projeto dele. Mas já que é importante para Carlos , é importante para mim.

No começo estava tudo bem , pois eu tinha o curso de alemão três vezes por semana e a faculdade preenchia uma boa parte do meu tempo. Lá eu conheci a Filomena, fomos unidas por um vício em comun: jogos virtuais. Sempre conversávamos sobre o jogo, dicas e com o tempo passamos a conversar sobre as nossas vidas. Assim como eu , Filomena também casou cedo, o que a tornou minha amiga e confidente. Com ela desabafo sobre a ausência de Carlos.

- Isso se chama rotina - diz Filomena enquanto o garçom a serve seu suco de melancia- Quando eu e o Antônio completamos dois anos também foi assim: o fogo se apaga , o olho no olho deixa de existir e quando você percebe está dormindo com aquela camiseta velha , cabelo desarrumado enquanto ele está com aquela barriga enorme de preguiçoso. Aí nos transformamos em nossos pais.

-Credo , Filomena - digo batendo na mesa- Vira essa boca para lá.

- Quanto tempo vocês estão sem transar?- pergunta Filomena sem rodeios.

- Muito mais tempo , nós nunca ficamos assim... eu não acredito que vamos nos transformar assim.- digo triste.- Eu não me importo com isso, mas sim com o fato de estarmos tão distantes... antes ficávamos horas e horas conversando. Agora o único assunto que temos é... trabalho e sociedade...

- Pensa positivo: pelo menos você tem tempo de jogar comigo- diz Filomena tentando me animar.

- Sim- respondo desanimada- É só isso que eu tenho feito que me motiva.

- A menos que você tenha interesse em algo mais... intrigante.- sugere Filomena me encarando maliciosa.

- O que sugere?- pergunto, curiosa.

-Há alguns meses comecei a jogar red light center que é um jogo quase igual ao nosso- explica Filomena.

-Que legal , por que não me falou desse jogo? - pergunto.

-Então , é bem aí que entra o "quase"- responde Filomena- ele é um jogo bem parecido , só que nele rola sexo virtual. Você pode transar explicitamente com o outro jogador. E como eu te conheço , sei que não vê muita graça nesse tipo de coisa.

-Acertou. Qual a graça de transar com alguém virtualmente? - questiono. Eu sempre gostei de pele , contato e não via a muita graça em sexo virtual , no máximo trocava mensagens eróticas com meu marido.

- Saiba que muita gente faz e participa desse jogo. Até mesmo lá da faculdade - confessa Filomena - Eu transei com nosso professor de direito penal por lá.

-Não creio! Como pode saber que era ele? - pergunto, surpresa.

- professordireitop.madrid22cm , um nick bem óbvio, diga-se de passagem - responde Filomena rindo.

- Qual é o seu? - pergunto comendo meu croassant.

- Por que não entra no jogo e descobre - responde Filomena tentando me instigar.

- Não , obrigada.- respondo balançando a cabeça - Estou muito satisfeita com os de sempre.

-Como quiser -responde Filomena - Fico aguardando seu telefonema atrás do site.

-Acho bom deitar, pois vai demorar. - retruco rindo.

***

Chego em casa e para variar nem sinal do Carlos. Entro em meu quarto e ligo meu computador, deixando o jogo logar enquanto tomo banho. Enquanto me afundo na banheira fico pensando se essa situação seria assim para sempre.Aquela situação é exatamente a que eu não queria em meu casamento. Termino meu banho e colo meu roupão , indo para frente do computador, que para minha surpresa, não logou o jogo.

Respiro fundo e tento mais duas vezes aparecendo a mesma mensagem. Se a Filomena estivesse aqui ela estaria dizendo que era um sinal para eu procurar o jogo. Abro o navegador procurando alguma notícia a respeito daquele problema no the sims e não encontro nenhuma nota. Estou para fechar o navegador quando a minha curiosidade toma conta: o tem dar uma olhada no site? Com certeza só irá provar que eu estou certa.

-Red light center...- digo enquanto digito o nome na busca. Não demora muito e surgem vários resultados e o primeiro é o site do jogo. Fico encarando a tela sentindo um misto de curiosidade e receio, como se eu estivesse fazendo algo errado. Respiro fundo e clico duas vezes no link do jogo- Okay , Dália, vamos lá.

Escuto a porta da frente se abrir... molho de chaves é colocado no pote... passos até a cozinha...a geladeira é aberta... porta do armário aberta...um barulho do copo sendo espatifado no chão...

- Merda!- xinga Carlos baixinho.

Fecho a janela sem ao menos olhar o site e vou até a cozinha , onde encontro Carlos recolhendo os cacos do copo. Ele levanta a cabeça e sorri sem graça.

- Oi , estranho - cumprimento meu marido parada na porta.

-Oi, Dália- responde Carlos jogando os cacos no saco de lixo - Desculpa, não quis te acordar.

-Não me acordou , acabei de sair do banho- respondo sorrindo. Abraço Carlos, sentindo o cheiro do perfume que dei a ele em nosso aniversário. Sentindo ele assim , noto o quanto sinto falta dele aqui dentro da nossa casa- Fico feliz que tenha vindo mais cedo para casa.

- Pois é...- diz Carlos me afastando. Ele pega um outro copo no armário e serve um pouco de água enquanto diz - Mas foi por conta do Elson que me ficou me enchendo o saco para ir à festa dos caras então só vim trocar de roupa e já estou saindo.- finaliza indo para o quarto

- Espera um minuto - pergunto, irritada, indo atrás dele - Que festa? Por que você não me avisou? Eu nem sei se tenho roupa para ir.

- Então... - diz Carlos abrindo o guarda roupa. Ele se vira para mim , nervoso, tentando encontrar as palavras certas - É uma festa... mas é só para os rapazes... você sabe... lembra daqueles encontros chatos entre os caras... vai ser desse jeito... você entendeu né?

- Não, eu não entendi- respondo, séria. Na verdade eu não entendi mesmo... É impressão minha ou o Carlos está me trocando para sair com os amigos dele? Sento na cama e cruzo meus braços fechando meu rosto enquanto digo - Quero que me explique melhor essa história de você ir à uma festa solteiro com seus amigos.

- Dália...- diz Carlos passando a mão no rosto - Que solteiro? Todo mundo sabe que eu sou casado com você.

- Então se TODO mundo sabe que é casado comigo , deve saber que precisa me convidar também - retruco, brava.

- Dália, qual é o problema? Quando a gente namorava você nunca se importou com o fato de eu sair com eles e agora está aí, fazendo caso.

- Quer saber qual é o problema? - indago me levantando, irritada - Primeiro, eu não me importo que saia com eles . Só que você sempre diz que não pode sair cedo para sair comigo , e eu até entendo, mas agora para eles , você pode. Eu fico aqui em casa todos os dias esperando por você... eu remarquei aquela reserva no restaurante que você adora tantas vezes, pois nunca dava, sempre era o trabalho... agora o Elson te liga e você vai. Acha isso justo?

- Então o problema é o Elson? - pergunta Carlos,irritado.

-Não é possível que de tudo o que eu falei para você, a única coisa que escutou foi a parte do Elson- digo, brava - Carlos , o problema é que nós estamos cada vez mais distantes! E você não faz o maior esforço para ficarmos juntos!

- E você faz? - pergunta Carlos, ríspido- Você faz, Dália?

- Eu estou sempre aqui, Carlos... todos os dias... de segunda a segunda... eu espero por você... faço almoço que você não vai comer... a janta que você come sozinho de madrugada... Eu me arrumo à noite esperando o amor da minha vida que deita ao me lado e dorme ,me ignorando completamente. Desmarco todas as reservas, os jantares nas casas de amigos e dos meus pais... escuto sua conversa do trabalho , exaustivamente...

- Eu também estou tentando... eu estou trabalhando para termos uma vida melhor , a vida que eu prometi dar a você - dispara Carlos - Essa discussão na verdade só me revelou uma coisa: Que você precisa de uma distração... um filho talvez.

-Carlos , um filho não vai resolver nada! Eu quero você, entendeu! Você!- esbravejo erguendo meus braços. Respiro fundo e então digo - Você está certo, brigar não resolve nada. Você precisa se distrair ... vá à festa.

- Dália... - chama Carlos o meu nome. Ele se aproxima me puxando para perto dele e me abraçando - Desculpe-me , eu te amo. - toca em meus cabelos e beija minha testa - Prometo que eu ficarei mais presente em casa, tá bem?

-Tudo bem - respondo , mordendo os lábios - Divirta-se.

- Você vai ficar bem? - pergunta Carlos , preocupado.

- Sim, eu só preciso de uma boa noite de sono- respondo tocando em sua camisa.

- Tudo bem - responde Carlos se afastando. Ele pega uma muda de roupa e diz - Vou me arrumar no outro quarto. Prometo não chegar muito tarde.

-Tudo bem.

- Eu te amo - diz Carlos roubando um selinho e indo para o outro quarto.

Olho para o meu computador com a nossa foto de Paris de protetor de tela. Encosto a porta do meu quarto e caminho em direção à mesa do meu computador e abro mais uma vez o navegador que restaura minha última janela. Surge em letras vermelhas e douradas iluminando todo o meu quarto o site com os dizeres:

Red Light Center

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