Fiquei estagnada, agradecendo internamente quando ele finalmente saiu de casa. Com um esforço sobre-humano, consegui me levantar, encarei o espelho no guarda-roupa e vi as marcas visíveis em meu rosto e pescoço, lembranças cruéis de uma violência que nunca deveria ter sido infligida. Sentindo as terríveis dores abdominais, tentei, com dificuldade, caminhar até a casa de uma vizinha em quem, de alguma forma, confiava mais do que em qualquer outra pessoa naquele momento.
Nunca havíamos tido uma conversa profunda antes; nossa interação se limitava a cumprimentos trocados quando nos encontrávamos na rua. Mas naquele dia, quando ela me viu em estado de desespero e agonia, seu choque foi notável. Sem hesitar, ela agiu rapidamente, chamando uma ambulância e permanecendo ao meu lado enquanto éramos conduzidas até o hospital. A equipe médica nos recebeu com prontidão, e os paramédicos correram comigo em direção ao centro cirúrgico, pois eu estava enfrentando uma hemorragia interna que ameaçava minha vida a cada segundo que passava.
As luzes intensas do hospital foram as últimas imagens claras que pude ver enquanto era levada sobre a maca pelos corredores. O tempo parecia uma névoa confusa quando finalmente acordei. Descobri, através das palavras gentis da enfermeira ao meu lado, que haviam realizado uma curetagem, um procedimento crucial após um aborto para remover qualquer material biológico retido no útero, evitando complicações futuras.
Ao olhar para frente, vi minha vizinha sentada ali, um suporte emocional silencioso que permaneceu ao meu lado durante todo o processo. Aquele gesto simples, de uma estranha que se tornou um anjo da guarda em meio ao caos, trazia um calor reconfortante mesmo nas sombras mais sombrias daqueles dias dolorosos.
- Oi, você está bem? - Ela murmurou, encarando-me com olhos piedosos.
- Estou péssima, eu perdi meu bebê, não foi? - Perguntei, e ela concordou sutilmente com a cabeça.
- Você precisa denunciá-lo, o que ele fez foi muito grave! - Ela disparou a falar, com uma mistura de indignação e preocupação em sua voz.
- Eu nunca o vi tão descontrolado quanto estava hoje! - Engoli em seco, as lembranças da violência ainda frescas em minha mente.
- Você tem onde ficar? Eu até poderia deixar você ficar na minha casa, mas tenho receio de que ele te veja lá e termine arrumando confusão comigo.
- Não se preocupe, vou ficar na minha casa, ele não voltará pra lá, pelo menos não hoje! - Respirei profundamente, tentando reunir forças para o que viria a seguir.
- Você não tem nenhum familiar por aqui? - Ela arregalou os olhos, preocupada com minha segurança.
- Tenho uma prima, meus pais moram em outro estado, nem imaginam o que tenho passado, mas vou criar coragem e dar um basta nisso! Acho que consigo pagar um aluguel para mim mesma; aliás, sou eu quem está mantendo a casa há um bom tempo. - Suspirei, sentindo o peso das responsabilidades que recaíam sobre mim.
- Se eu fosse você, iria embora e deixaria esse homem, ele não te merece. Olha o que ele fez com você! Quem ama não faz esse tipo de coisa. Não estou aqui para te julgar, mas você poderia estar morta agora, pense bem nisso! Tenho que ir para casa, se precisar de qualquer coisa, pode me chamar lá! A propósito, qual é o seu nome? A gente sempre se cumprimenta, mas nunca paramos para nos apresentar. - Ela me encarou com curiosidade, desejando que nossas vidas tivessem se cruzado em circunstâncias diferentes.
- Sou a Alana e você?
- Me chamo Estela, queria que tivéssemos nos conhecido em outras circunstâncias, mas enfim, espero que fique bem! - Ela foi embora, deixando para trás um rastro de preocupação e apoio.
Eu permaneci em observação por algumas horas, refletindo sobre as palavras de Estela. Ela tinha razão, eu precisava dar um basta naquela situação e recomeçar minha vida longe daquele homem que não me merecia. A direção do hospital agiu prontamente ao acionar a polícia, consciente dos sinais visíveis de que eu havia sido vítima de violência brutal.
Entretanto, mesmo diante das evidências, decidi não revelar a identidade de John, mantendo uma frágil esperança de que ele pudesse se redimir. "Foi apenas um surto, uma consequência dos entorpecentes que usou. Ele não agiria assim em plena consciência!" Pensei, buscando desesperadamente justificativas para o comportamento monstruoso que presenciei.
Decidi também não compartilhar o ocorrido com Daniela, pois, de certa forma, ela estava certa em relação ao pressentimento inicial que teve em relação a ele. Afinal, eu mesma havia negligenciado os sinais, tentando acreditar em uma versão idealizada de quem ele era. A verdade começava a se revelar de forma cruel, mas eu ainda hesitava em encará-la completamente.
Oito meses mais tarde...
O tempo havia passado e, finalmente, Jonathan parecia inclinado a mudar. Ingressou em grupos de Narcóticos Anônimos e, pouco depois, conseguiu um emprego em uma empresa. Embora guardasse ressentimentos por suas ações passadas, ele nunca pediu desculpas pelos danos causados, especialmente por ter tirado a vida do próprio filho.
No entanto, decidi deixar esse assunto no esquecimento, na esperança de que o tempo pudesse curar as feridas mais profundas. Cerca de três meses depois, nossa vida parecia estar tomando um rumo positivo. Jonathan mantinha-se estável no trabalho e afastado das drogas. Porém, a tranquilidade foi abalada quando fui demitida do trabalho devido à diminuição da demanda de clientes.
Apesar da contrariedade, tentei manter a calma, confiando que Jonathan continuaria a sustentar a casa com seu emprego. Enquanto recebia o seguro-desemprego por quatro meses, tive a ideia de investir parte do acerto da empresa em cosméticos e joias para revenda. O restante do dinheiro foi dado a Jonathan, que sonhava em comprar um carro.
Ele deu uma pequena entrada e financiou o restante em meu nome, um gesto que misturava esperança e um certo temor, pois o passado ainda assombrava. Durante esse período, eu vendia meus produtos de porta em porta, e as coisas estavam indo bem. Conseguia sentir uma leve brisa de normalidade em nossas vidas, algo que parecia impossível há algum tempo. No entanto, essa paz foi abruptamente interrompida em um dia que parecia comum.
Ao chegar em casa, deparei-me com Jonathan sentado na pequena cozinha. Seu olhar não era amigável, deixando-me apreensiva diante do que poderia estar por vir. Ele parecia uma sombra do homem que estava tentando ser, e meu coração acelerou com a possibilidade de que os demônios do passado estivessem voltando.
- O que aconteceu? - Perguntei, tentando manter a voz calma, apesar da ansiedade crescente.
- Quem é Fernando? - Ele perguntou, e levei um tempo para responder, tentando recordar quem correspondia ao nome que ele mencionava. - Você está surda? - Ele levantou-se rapidamente, agarrando firmemente meu maxilar.
- John, eu não lembro quem é. Você está me machucando! - Tentei afastá-lo, empurrando sua mão com esforço.
- Não minta para mim! Cheguei mais cedo hoje, e havia um rapaz no portão. Disse que veio buscar o perfume da mãe dele, mas ficou desconfiado ao me ver! Tenho certeza de que você está me traindo com ele, sua vagabunda! - Ele estapeou meu rosto, e o impacto me lançou para trás. Toquei o local atingido, que ardia intensamente.
- A única pessoa que mencionou pegar um perfume hoje foi a dona Maria. Talvez ele seja filho dela! - Murmurei, completamente derrotada e desapontada. Não podia acreditar que ele estava me agredindo novamente.
- Ah, é? Então vamos até a casa dela. Quero esclarecer essa história! E você, reze para que seja verdade; do contrário, hoje você sairá daqui direto para um cemitério! - Ele agarrou meu braço com força, suas palavras causando arrepios.
Meu coração disparou enquanto ele me puxava para fora de casa. A dor no rosto era nada comparada ao medo crescente em meu peito. Fui colocada dentro do carro com brutalidade, a tensão aumentando a cada metro percorrido. A mente girava em mil pensamentos: "por que ele não acredita em mim? Será que ele seria capaz de me matar?"
Aquela era a verdadeira face dele, uma faceta que eu havia erroneamente justificado anteriormente, atribuindo suas ações ao uso de entorpecentes. Contudo, a crua realidade se revelava: ele sentia-se no direito de me maltratar. Eu me permiti perdoá-lo em ocasiões passadas, mas agora compreendia que eu mesma era a culpada, ao permitir que ele repetisse esse padrão, uma vez após a outra. Não havia denunciado por compaixão, solidão, amor excessivo ou dependência da presença dele.
Naquele momento, através das palavras maldosas proferidas, percebi que, impulsionado pelo ódio, pela fúria e por desconfianças infundadas, ele poderia a qualquer instante estar disposto a tirar minha vida. O trajeto parecia interminável. Cada curva, cada rua deserta aumentava meu desespero. Ao estacionar o carro, adquirido com o restante do dinheiro do meu acerto, permaneci em silêncio, um medo constante me dominando a cada segundo. Minha maior preocupação recaía sobre dona Maria; eu mal conhecia seu filho, se é que ela tinha filhos.
As interações foram limitadas, e a incerteza me angustiava. Ao abrir a porta do veículo, ele não permitiu que eu o acompanhasse, dirigindo-se sozinho até a casa dela. O desespero só crescia, eu não sabia se ela tinha filhos, mas era a única que mencionava receber o perfume naquele dia. Após minutos de conversa, ele regressou ao carro. Enquanto se aproximava, meu coração palpitava e minhas mãos suavam frio. O medo dominava meus sentimentos; naquele instante, quase me faltava o ar, as incertezas sobre o meu destino tornavam o ambiente ainda mais angustiante.
- Você tem sorte, Alana! Ele é mesmo filho daquela senhora! Ela está esperando o perfume que comprou, entregue-o para ela! - Ele ordenou, e obedeci rapidamente, indo até a senhora que aguardava. Quando me aproximei, pude ver o cansaço nos olhos dela, misturado com uma pitada de preocupação.
- Filha, você está bem? Seu rosto está bastante machucado! Ele te agrediu? - Ela perguntou com piedade em seus olhos, tocando levemente meu rosto onde as marcas da violência ainda eram visíveis.
- Não se preocupe, eu vou ficar bem! - Engoli o choro que estava preso, gritando para poder sair. A dor física era suportável, mas a dor emocional era insuportável.
- Aqui está seu dinheiro! Você é uma moça bonita, jovem e batalhadora; não merece continuar passando por isso! Livre-se dele enquanto ainda pode! - Ela desabafou, suas palavras ecoando dentro de mim como um chamado para a liberdade, e entrou na casa.
Ao retornar para o carro, um desejo de fugir me consumiu. Dona Maria estava certa; eu não podia continuar vivendo assim, não me sentia mais segura ao lado dele. Era crucial dar um basta naquela situação antes que fosse tarde demais.
- Se livrou de morrer hoje, heim? - Ele comentou com uma naturalidade perturbadora assim que me sentei no banco do passageiro. O peso das palavras dele era como uma sentença de perigo constante.
A seriedade da situação instigou uma reflexão profunda sobre a urgência de tomar uma decisão drástica para garantir minha segurança e bem-estar. As lágrimas finalmente escaparam, rolando silenciosamente pelo meu rosto, testemunhas silenciosas do meu sofrimento. Olhei para fora da janela, as pessoas ao meu redor e as luzes da cidade passando como borrões, e uma determinação crescente tomou conta de mim.
"Não vou deixar que ele destrua minha vida!" - Refleti, a decisão estava tomada. Precisava de um plano. Precisava de coragem. E, acima de tudo, precisava de ajuda para escapar daquele inferno antes que fosse tarde demais. Coloquei minha mão sobre a nuca, sentindo a dor latejante que parecia sussurrar uma ameaça constante à minha saúde. Ao retornar para casa, aquela noite se revelou inquieta, as sombras dançando em cada canto, incapaz de encontrar o consolo do sono.
Cada batida do meu coração parecia um eco dos traumas que havia vivido. Sentia um medo profundo e uma espécie de trauma que me envolvia como um manto gélido. Em silêncio permaneci, enquanto Jonathan dormia alheio à intensidade dos meus sentimentos, seu sono tranquilo um contraste perturbador com o turbilhão que era minha mente. Chorei em silêncio para não o perturbar, desejando desaparecer, mas sem opções viáveis.
O que restou do meu dinheiro foi usado para comprar um carro para ele, uma escolha que agora me pesava como uma âncora arrastada pelos meus próprios erros. A primeira parcela do seguro-desemprego só viria no próximo mês, e cada dia que se estendia como uma sentença de prisão alimentava minha sensação de desespero. Tocar no assunto com Daniela gerava vergonha, e tinha receio de contar à minha prima, com medo de ela revelar aos meus pais e desencadear uma reação que eu não sabia se teria forças para enfrentar.
Estava sem saída, uma naufraga em um mar de angústia e desespero. Mesmo durante as ligações dos meus pais, eu simulava normalidade, ocultando a verdade por medo de decepcioná-los. Aos vinte e sete anos, eu me sentia destroçada, envelhecida prematuramente pelos traumas que me corroíam por dentro, sem ânimo para me cuidar. A cada dia, a vontade de morrer crescia como uma planta venenosa, alimentada pela escuridão emocional que envolvia cada pensamento.