Encarei Emilly com curiosidade, e estranhamente ela não manteve os seus olhos nos meus, preferindo olhar para qualquer lugar, menos para mim.
- Sente-se, querido - Mamãe pediu, indicando o lugar ao seu lado.
Olhei para a disposição dos assentos e percebi que a cadeira indicada pela minha mãe me deixaria entre ela e Rochelle, uma antiga amiga por quem sinto um enorme carinho, porém, optei por mudar a cadeira de lugar e ficar ao lado da minha namorada. Estava com saudades de Emilly, mesmo que nós tivéssemos nos visto ainda naquela manhã.
- Não é de bom tom mudar a cadeira de lugar dessa forma, Douglas - Mamãe chamou a minha atenção de maneira incisiva.
- Sabe bem que eu realmente não me importo com essas regras de vocês - falei com pouco caso, mesmo sabendo que isso iria deixar a minha mãe bastante irritada.
- Está errado em agir dessa forma, Douglas. É um homem riquíssimo e sabe do nosso papel na alta sociedade - Minha irmã se meteu na conversa.
Eu apenas sorri diante das besteiras que a minha família tem o hábito de tentar me impor. Eu realmente não iria me estender nesse assunto e enquanto elas aguardavam por alguma resposta, eu encarei a minha namorada com satisfação.
- Está tudo bem? - A expressão tensa de Emilly dizia que não.
- Sim, claro - Emilly mentiu de maneira vergonhosa.
Olhei para a minha mãe e irmã, que também fugiram ao meu olhar e compreendi tudo. A ideia do chá da tarde partiu da minha mãe e eu, acreditando que ela desejava se aproximar de Emilly, conhecer melhor a pessoa que eu amo, insisti para que a minha namorada comparecesse ao encontro. Pelo visto, tinha sido mais uma provação e está bastante claro o quanto Emilly está desconfortável naquele local.
Ainda assim, pedi um expresso quando o garçom chegou para me atender e olhei em torno da mesa novamente, tentando entender aquela energia pesada e evidente entre as mulheres.
- E você, Douglas? Como está? - Rochelle perguntou com animação.
Acredito que a minha amiga percebeu o clima tenso que se formou à mesa e está tentando descontrair, trazendo um assunto mais leve.
- Estou ótimo, Rochelle - E não era uma mentira - Acredito que já tenha conhecido a Emilly, minha namorada?
Rochelle olhou para Emily e eu, como sempre, atento a qualquer coisa relacionada a minha namorada, percebi um certo desprazer em sua expressão, que logo ela tentou disfarçar. Bem, aquilo realmente não estava dando certo.
- Sim, fomos apresentadas - Rochelle concordou rapidamente - O que tem feito? Se divertindo muito? Eu estava ansiosa para voltar a Nova York, com saudades das nossas baladas.
- Tenho certeza que vai encontrar muita coisa para fazer, como sempre.
- E quando podemos sair juntos, então?
Não precisei olhar para Emily para saber que aquele "convite" de Rochelle não foi nada agradável para ela e, mais uma vez, tentei contornar a situação. É sempre assim quando estamos com a minha família e isso está me cansando.
- Claro - Concordei, e nos poucos segundos que levei para completar a resposta, percebi os olhos da minha mãe e de Nora brilharem - Emily e eu saímos sempre que possível e tenho certeza que será muito divertido tê-la conosco na próxima vez.
O brilho no olhar das mulheres se apagou, deixando no lugar uma expressão de descontentamento nítida, e aproveitei para esmagar ainda mais qualquer tentativa de causar qualquer tipo de desentendimento entre Emily e eu.
- Amor, podemos levá-la para conhecer aquele novo rooftop na quinta avenida, o que você acha?
Meu olhar estava totalmente concentrado em Emilly e ignorei todos os outros que estavam conosco.
- Precisamos ver como faremos com as crianças - Foi a resposta baixa e incerta de Emily.
Ela falou exatamente aquilo que eu imaginei que diria e a próxima pergunta de Rochelle foi como eu também já esperava. Mamãe está muito enganada se pensa que vai conseguir me afastar de Emily. Ela é importante demais para que eu a deixe escapar.
- Crianças? De quais crianças vocês estão falando?
Sorri com satisfação mais uma vez e estava prestes a responder a pergunta de Rochelle, quando a minha irmã se adiantou a mim, falando em um tom que eu não gostei nenhum pouco.
- Emily já tem duas crianças, você acredita Rochelle? E o meu irmão praticamente adotou essas crianças!
- Isso te incomoda, irmã? - Não perdi tempo a fazer a pergunta.
- Não, claro que não - Nora negou de maneira alarmada - Estou apenas colocando a minha amiga a par das coisas que aconteceram no tempo em que ela esteve fora do país.
- Então, você está namorando uma garota que já é mãe - Rochelle apontou - E onde está o pai das crianças? Ou não tem?
Fiquei de pé de imediato. A pergunta de Rochelle foi a gota d'água, afinal Emily não deve satisfação alguma para alguém como Rochelle.
- Ele... - Emily começou a responder.
- Você não precisa responder, meu amor - interrompi Emily de imediato - A sua vida e a sua história não dizem respeito a ninguém, nem mesmo a minha família, quanto mais a alguém que um dia foi uma grande amiga.
- O que está querendo dizer com isso, Douglas? - Rochelle levou a mão ao peito de maneira dramática - Sempre fomos bons amigos.
Eu realmente não iria continuar expondo Emily aquela situação tão desagrádabel. Mais uma vez a minha família me decepciona, ao tentar menosprezar a mulher que eu amo. Mas agora foi ainda pior, eu realmente gostava de Rochelle, a tinha como uma amiga. Eu não conhecia aquele seu lado esnobe e arrogante.
- Éramos amigos - apontei com desdém - Não somos mais. Vamos embora, meu amor.
Emily já estava ficando de pé quando a chamei e logo nós dois estávamos saindo do lugar, e foi impossível não pisar duro enquanto caminhava em direção ao meu carro. Até quando a minha família vai tentar de todas as formas me afastar de Emily? Eles nunca vão desistir? Não está claro que eu a amo e que vou ficar com ela, independente do que eles pensam ou acham certo para a minha vida? Essas perguntas giravam na minha cabeça e Emily deve ter percebido que eu estava muito irritado, pois se manteve em silêncio durante todo o caminho até o meu apartamento.
Suspirei tentando conter a raiva e segurei em sua mão. Precisava deixar claro que ela não tem culpa alguma das coisas que aconteceram desde o primeiro momento em que a apresentei para a minha família, há um ano atrás. Tempo suficiente para que todos entendessem como os nossos sentimentos são profundos e verdadeiros.
- Eu estou bem, Douglas - Emily tentou me convencer quando entramos na sala do meu apartamento - Não precisa ficar tão chateado dessa forma.
- Claro que eu preciso e vou ficar chateado todas as vezes que a minha família me aprontar uma armadilha como essa, Emily. O que eles achavam? Que eu iria cair de quatro pela Rochelle? E não me diga que você não percebeu que era essa a intenção de Ramona e Nora.
Emily preferiu ficar em silêncio do que contrariar as minhas palavras e aquilo me levou a tentar controlar o meu temperamento. Estamos sozinhos naquele apartamento e eu não vou perder mais tempo falando de coisas desagradáveis.
- Eu te amo e ninguém vai mudar isso, entende?
Ela apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça e eu me aproximei, enlaçando a sua cintura e a apertando de encontro ao meu corpo.
- Faltou você dizer que me ama e que ninguém vai mudar isso... - Eu a provoquei.
- Eu te amo, seu bobo - Ela atendeu ao meu pedido com um sorriso.
- Amo o seu sorriso, sabia?
- Você falou isso algumas vezes... Umas mil, talvez.
A encarei fingindo estar chateado com a piada, mas não resisti por muito tempo e logo a beijei. E estar junto com Emily é tudo o que importa realmente.