Era o terceiro aniversário de casamento deles.
O Bife Wellington, o favorito de Barro, estava preparado e pronto para o forno. A treliça de massa folhada era uma obra de arte, tecida com o tipo de paciência que apenas uma mulher desesperada possuía.
O celular no balcão vibrou.
O som foi agressivo contra o mármore. A tela acendeu, iluminando a cozinha escura com um brilho artificial e severo.
Maridinho.
Um reflexo, enraizado ao longo de três anos de condicionamento, fez seu coração saltar. Um pequeno e patético a esmo de esperança surgiu em seu peito. Talvez ele estivesse a caminho. Talvez ele tivesse se lembrado.
Ela limpou as mãos úmidas no avental. Deslizou o dedo para desbloquear a tela.
A esperança morreu instantaneamente, substituída por um golpe físico em seu estômago.
Safira desmaiou de novo. Hemoglobina baixa. Vá para o Hospital São Lucas. Agora.
Sem "olá". Sem "feliz aniversário". Apenas uma ordem.
Ametista encarou as palavras. As letras pareciam borrar, nadando em uma piscina de umidade súbita e quente que encheu seus olhos. Sua respiração falhou, presa nas costelas como uma pedra irregular.
Outra vibração.
Safira: Sinto muito, Ametista. Barro está tão preocupado comigo. Precisamos do seu sangue Rh-negativo de novo. Ele não vai se acalmar até que você esteja aqui.
Uma imagem carregou abaixo do texto.
Era uma foto tirada de um ângulo baixo, provavelmente de uma cama de hospital. Mostrava a mão de um homem - a mão de Barro, com o relógio de platina que ela lhe comprara de aniversário - segurando uma mão feminina pálida e esbelta contra os lençóis brancos do hospital.
A intimidade do aperto era nauseante. Era terno. Protetor.
Tudo o que ele nunca foi com ela.
Ametista largou o telefone com a tela para baixo. O estalo ecoou na cozinha silenciosa.
Uma onda de náusea a percorreu. Ela agarrou a borda do balcão, os nós dos dedos ficando brancos. Não era mais apenas dor emocional. Era fisiológico. Seu corpo estava rejeitando aquela realidade.
A porta da frente no andar de baixo se abriu com um estrondo.
Saltos altos clicaram bruscamente no chão do saguão. O som era distinto, agressivo.
- Deus, que cheiro é esse?
Avelã entrou na cozinha, com o nariz enrugado como se tivesse pisado em um esgoto. Ela carregava uma bolsa Hermès laranja, balançando-a descuidadamente.
Ela examinou a cozinha, seus olhos pousando na bandeja de comida preparada.
- Vamos comer esse lixo pesado hoje à noite? - perguntou Avelã, jogando as chaves no balcão, perigosamente perto das trufas. - Cheira a terra molhada. Eu te disse que queria saladas leves esta semana, Ametista. Você é surda ou apenas estúpida?
Ametista ergueu os olhos. Sua voz parecia enferrujada, como se não a usasse há dias.
- É Bife Wellington. Para o aniversário.
- Aniversário? - Avelã riu. Foi um som seco, como um latido. - Ah, querida. Você ainda está contando? Barro não virá para casa comer essa comida de camponês. Ele está com alguém que realmente importa.
Avelã caminhou até a geladeira, abriu-a e franziu a testa.
- A empregada faltou hoje - disse Avelã, sem olhar para Ametista. - O tapete da sala de estar tem fiapos. Vá aspirar antes de ir para a cama. E livre-se desse cheiro.
Ametista olhou para a sogra. Olhou para o cabelo perfeitamente penteado, as joias caras, o puro desprezo gravado em cada linha do rosto da mulher mais velha.
Por três anos, Ametista havia baixado a cabeça. Ela cozinhara, limpara e oferecera o braço para agulhas até quase desmaiar, tudo para comprar uma migalha de afeto daquela família.
Algo dentro de seu peito fez um som. Foi um estalo silencioso, como um galho seco quebrando em uma floresta de inverno.
A amarra havia sumido.
Ametista não se moveu em direção ao aspirador de pó.
Em vez disso, suas mãos foram para o nó atrás das costas. Ela desamarrou as tiras do avental. O tecido caiu de seu corpo, aterrissando em uma pilha no chão.
Ela o pegou.
Caminhou até o compactador de lixo, pisou no pedal e jogou o avental lá dentro.
Avelã se virou, com uma garrafa de água na mão. Seus olhos se arregalaram.
- O que você está fazendo? - Avelã gritou. - Você acabou de jogar isso fora? Pegue agora!
Ametista a ignorou. Passou pela mulher, seus movimentos calmos, fluidos e assustadoramente silenciosos. Deixou a cozinha, o cheiro de trufas e o Wellington cru para trás.
Ela subiu as escadas.
Suas pernas não doíam mais. A adrenalina inundando seu sistema anestesiava tudo.
Dentro do quarto principal, o ar estava frio. O ar condicionado estava sempre ajustado para a preferência de Barro.
Ela caminhou até o cofre de parede escondido atrás de uma pintura genérica de paisagem. Seus dedos digitaram o código. 0-9-1-2. Doze de setembro. O aniversário de Safira. Barro era obcecado demais para mudar a configuração de fábrica para qualquer outra coisa. Até seus segredos eram dedicados a ela.
Lá dentro, aninhado entre pilhas de dinheiro que ela não tinha permissão para tocar, estava um envelope pardo.
Ela o puxou. Acordo de Divórcio.
Ela o havia redigido seis meses atrás, numa noite em que Barro chamara o nome de Safira enquanto dormia. Ela não tivera coragem de assiná-lo na época.
Caminhou até a mesa de cabeceira. Pegou uma caneta.
Não houve hesitação desta vez. Nenhum tremor. Ela pressionou a ponta no papel, gravando sua assinatura na linha. Ametista Barro.
Ela encarou o sobrenome. Parecia uma algema que ela concordava em usar por apenas mais algumas horas. Logo, desapareceria.
Olhou para a mão esquerda.
O diamante era modesto. Barro o comprara em uma loja de rede no shopping porque "não via sentido em desperdiçar capital com joias".
Ela o arrancou do dedo. Sua mão pareceu instantaneamente mais leve.
Colocou o anel em cima do papel.
Puxou sua mala de mão Louis Vuitton do armário. Não empacotou os vestidos de grife que Avelã comprara para "fazê-la parecer apresentável". Não empacotou as joias.
Empacotou dois pares de jeans, três camisetas, seu passaporte e um pequeno objeto embrulhado em veludo de sua gaveta de roupas íntimas - o medalhão de sua mãe.
Era só isso.
Ela fechou o zíper da mala. O som foi definitivo.
Avelã irrompeu no quarto, o rosto vermelho de raiva.
- Sua sanguessuga ingrata! - Avelã gritou, apontando um dedo manicurado. - Eu disse para você aspirar! Onde você pensa que vai?
Ametista se virou.
Olhou para Avelã. Realmente olhou para ela. Pela primeira vez, não viu uma matriarca a ser temida. Viu uma mulher triste e amarga com preenchimento demais nas bochechas.
- Estou indo embora, Avelã - disse Ametista. Sua voz era baixa, firme e fria como água gelada.
Avelã piscou, pega de surpresa. Recuou instintivamente.
- Indo embora? Hah! E vai para onde? Para a sarjeta de onde você rastejou? Você não vai durar um dia sem o dinheiro de Barro.
Ametista agarrou a alça de sua mala.
- Diga a Barro - disse Ametista, caminhando em direção à porta, forçando Avelã a sair do seu caminho -, que eu não devo à família Barro nem mais uma gota de sangue.
- Você está louca! - Avelã gritou atrás dela. - Você vai voltar rastejando de joelhos até amanhã!
Ametista desceu a grande escadaria. Não olhou para o lustre. Não olhou para os retratos dos ancestrais de Barro.
Saiu pela porta da frente para a noite fria.
O vento atingiu seu rosto, embaraçando seu cabelo. Parecia oxigênio. Parecia vida.
Seu bolso vibrou novamente.
Ela puxou o telefone. Barro ligando.
Ele provavelmente estava ligando para gritar com ela por estar atrasada para o hospital. Para perguntar por que ela não estava sangrando em uma bolsa para sua preciosa Safira naquele exato momento.
Ametista olhou para a tela por um segundo.
Tocou no botão vermelho. Depois, tocou em Bloquear Chamador.
Parada sob o poste de luz, a luz amarela lançando uma longa sombra atrás dela, discou um número para o qual não ligava há três anos. Era uma linha segura, uma que ela memorizara desde a infância, mas nunca ousara usar.
Tocou uma vez.
- Sou eu - sussurrou ela, sua voz finalmente falhando. - Inicie a extração. Eu cansei.