Enquanto eu me questionava sobre o rumo que estava tomando, sabia que precisava sair de casa, mas o medo de que tudo desse errado sempre me assombrava.
Minha solidão era palpável, e meus únicos companheiros eram meus gatos, que pareciam entender minha necessidade de isolamento. Minha irmã mais velha constantemente questionava minha escolha de viver assim.
Com um esforço, levantei-me da cadeira e fui em direção à cozinha, mas fui interrompida pelo som da campainha. Meu apartamento próprio não era muito grande, mas estava decorado com quadros e pôsteres que refletiam meu amor pelo mundo do cinema moderno.
Intrigada e curiosa, dirigi-me à porta, imaginando quem poderia ser aquela visita inesperada que quebraria minha rotina solitária.
Ao abrir a porta, claramente exausta, a figura da minha irmã me deixou ainda mais cansada. Não falei uma palavra. Apenas deixei os ombros caírem e permiti sua passagem.
Se bem conheço a minha irmã, sei que Agatha irá encher meu saco, dando aqueles conselhos inúteis e que me fazia querer matá-la.
A mulher, baixinha, de cabelos pintados de vermelho intenso, não disse uma palavra, antes de pôr sua bolsa na bancada de mármore. Sabendo que eu iria ouvir um sermão, passei por ela, abri a geladeira e peguei a garrafa com água.
- Hanna, eu amo você, mas assim não dá. – Minha irmã, dramática como sempre, cruzou os braços, ao me observar. Assim que me hidratei, busquei pela ração dos meus gatos enquanto ela me fitava com certa raiva. – Sabe que isso é... difícil de presenciar.
Revirei os olhos e respirei fundo.
- Agatha, eu não sei o porquê está tão decepcionada. – Me chateei. Pus o potinho de ração no chão, e me afastei, pondo o recipiente de volta ao seu lugar. – Essa é a minha vida, e estou bem como estou.
Na verdade, eu não estava, mas não iria admitir na frente dela.
Geralmente sou mais elétrica e determinada, contudo, o dia foi cheio e meu corpo e mente, estavam cansados.
- Mentira, você se sente sozinha e solitária.
- Tenho os meus dois companheiros, a única que se incomoda com a minha vida é você.
Eu queria muito a mandar embora. Tudo o que eu não queria era ouvir o que Agatha tinha para falar.
- Porque eu te amo – Fez um drama. Ela projetou seu corpo em cima do mármore e me observou, quanto lava a as mãos. – É minha irmã casula. Só pensa em trabalho, nunca nem saiu com ninguém.
Nunca é muito exagero. Não sou uma virgem de vinte sete anos. Eu só estou cansada e ocupada demais.
- Você não tem certeza disso. – Fiquei chateada.
- Então me diz, com quem saiu nesses últimos oito anos?
Ela me pegou. Claro que não sai com ninguém nesse tempo. Minha vagina nem sabe mais o que é sexo. Isso é vergonhoso.
- Isso não é da sua conta.
- Significa que a resposta é negativa. – Enchi meu peito de ar, pensando em dizer algo, mas nada saiu pela boca. – Olha, eu sei que você se dedicou ao trabalho.
- E não me arrependo. – Apontei.
- Mas agora tem uma estabilidade, um bom salário, e ainda vive sozinha.
Achei uma falta de noção.
- Por opção.
Isso já estava me irritando. Bufei, sentindo o sangue ferver.
- Certo, porém, você realmente gosta dessa vida?
Eu poderia dizer, rápido e com determinação, que sim, contudo, estaria mentindo. Mesmo sendo difícil fazer amigos, eu odiava viver no silencio.
Meus únicos ouvintes são meus gatos, e, em alguns momentos, os acho melhor que muita gente.
- Quando eu quiser alguém, vou buscar. Não preciso me desesperar.
Mas não significava que minha irmã mais velha, com duas crianças, não fizesse esse favor para mim.
- Se eu não empurrar você, não vai perceber que precisa sair de casa e se divertir.
Cruzei os braços, respirei fundo e a olhai, séria.
- Você iria embora da minha casa e esqueceria essa história, se eu dissesse que iria sair e tentar socializar?
- Sim. – Deu um sorriso.
Eu sabia que era mentira.
- Eu vou sair e, quem sabe, posso encontrar alguém.
- Ótimo.
Nós duas sabemos que ela não vai me deixar em paz, até aparecer com um cara na festa de aniversário da mamãe.
Se eu não aceitar seus termos, acredito que passarei a noite inteira sem paz. Ao dar um sorriso sarcástico, ela se contenta, pegando a sua bolsa e saindo do apartamento.
Eu não queria fazer isso, mesmo achando que ela estava certa. Seria dar plenos poderes a Agatha, admitir isso na frente dela.
A questão era complexa para mim. Eu vivia presa no meu mundo, criando histórias e não vivendo nenhuma delas.
Sempre que ligo a TV e vejo meu trabalho em ação, sinto que sou eu ali, na televisão, contudo, estou sentada no sofá, comendo pipoca, junto com os meus gatos.
Olhar-me no espelho me desagrada, não por não gostar da minha aparência, mas por ver que a mulher que sonho em ser, não passa de um projeto no papel.
- Talvez ela esteja certa.
***
Deitada em minha cama macia, meus gatos me cercavam como sempre, criando uma espécie de muralha de pelagem fofa ao meu redor. Eu estava exausta, meu corpo ansiava por descanso, mas sabia que minha irmã, Agatha, não me deixaria em paz.
O celular vibrava incessantemente na mobília de madeira aos pés da cama, um lembrete constante de que não poderia escapar das mensagens.
Com um esforço considerável, estendi a mão para alcançar o aparelho. A tela iluminou meu rosto, e eu sabia que não havia escapatória. Era Agatha, como eu esperava. Ela podia ser tão insistente que provavelmente ligaria várias vezes, perturbando meu sono. Suspirei e desbloqueei o telefone, lendo as mensagens que aguardavam pacientemente para serem lidas.
Agatha: "Sei que você não saiu de casa." Há! Isso só pode ser brincadeira. "Abre o link e se inscreve." Desejei jogar o celular na parede. Minha irmã me mandou um link suspeito e continuou digitando. "Acha que gosto de fazer isso?"
- Aposto que ama me irritar, é a sua função.
Agatha: "Só quero que conhece alguém. Mas você e sedentária demais. Acha que tudo vai dar errado, então nem tente."
- Isso não é verdade – Falar sozinha até parece reforçar o que minha irmã acha sobre mim. – Fiz faculdade, tenho uma ou duas amigas, me formei e falei na gente de todo mundo, mesmo que meu coração estivesse na boca por falar em público. – Parei e pensei em tudo o que estava acontecendo, naquele momento. – Ai meu Deus, ela está certa. Eu sou deprimente. – Até me senti mal.
Agatha: "É só um teste. Já que odeia conversar cara a cara, talvez possa digitar."
- Por que você parece me conhecer mais do que eu mesma? – Cruzei os braços irritada. Olhei para Stoltz, meu gato, e ele parecia me julgar. – O que é? – Me irritei. – Não sou tão antissocial assim. – Pensei. – Só odeio sair da rotina. Não gosto de fingir gostar de algo. Odeio lugares cheio de pessoas, não preciso ser depressiva.
"Agatha: Vou saber se você se inscreveu ou não, pois tenho um perfil e vou te vigiar."
Resolvi responder as mensagens:
Hanna: "Olha aqui, eu não preciso de monitora. Se eu resolver fazer isso, será por vontade própria, não sua pressão."
Agatha: "Você vai fazer isso, ou não vou sair do seu pe. É isso que quer?"
Se ela estivesse aqui, esganaria a minha irmã.
Hanna: "Odeio você"
Agatha: "Também te amo, boa noite."