Eu gritei que estava grávida, mamãe sentou-se na cama com a mão em seu peito, incrédula e abismada, ficou muda por algum tempo.
- Mamãe, fala comigo! - falei entrando em desespero.
- Não me toque! - Vociferou. - Como você pôde? Eu te criei para ter um futuro, casar com alguém que você ame, casar pra depois pensar em filhos, como você... Quem é o pai? - perguntou, lágrimas brotavam dos seus olhos decepcionados enquanto me encarava com raiva.
- Eu não sei mãe! Por favor... Me perdoa, eu vou precisar de seu apoio. - falei com a cabeça baixa envergonhada e sem poder encarar minha própria mãe.
- Como assim você não sabe! Clara, quem é o pai? - ela direcionou o seu olhar para minha amiga que estava parada a porta inerte.
- Eu não faço ideia Tia Neide, mais eu vou me disponibilizar para correr atrás do homem. A gente estava na balada e... Perdi os dois de vista. - Clara falou nervosa.
- Não, não quero ouvir mais nada... - Ela falou saindo do quarto.
- Mãe... - Chamei implorando sua atenção.
- Não ouse... Eu te criei por 18 anos e é assim que você me agradece? Eu dei meu sangue por vocês, olha seu irmão, arrumou emprego e está bem de vida e você? Se tornou uma qualquer!!
Aquelas palavras da minha mãe foi como uma facada de dois gumes. Aquelas falas dela me doeu na alma.
- Mãe, eu não cometi um crime! - falei me ajoelhando na frente dela. - me ajude a passar por isso. Preciso da senhora, me ensine a ser igual a senhora. Por favor! - falei enquanto minha voz sumia entre sussurros de choro.
Naquele momento ela me olhou com ainda mais fúria nos olhos e sem piedade desferiu um tapa em meu rosto.
Clara que via tudo ficou perplexa com a cena, se jogou no chão ao meu lado colocou a sua mão em meu rosto e chorou comigo, me ajudou a levantar.
- Eu vou sair, e quando eu voltar, não quero ver você na minha casa. Pegue todas as suas roupas e saia!
- Como você tem coragem de renegar a mim? Sua própria filha? E também ao seu neto!? - Gritei com toda coragem.
Eu nunca levantei um dedo, muito menos a voz pra minha mãe, mais naquele momento depois daquele tapa, eu precisava revidar, não com a força, mais precisava falar, como ela pôde ser tão insensível a ponto de me renegar como filha? E ainda mais a uma criança que está se formando em meu ventre? Eu não ia aceitar.
- Escute aqui, eu nunca lhe desrespeitei, sempre acatei suas ordens, estudei, passei o ensino médio, estou lutando pra começar a faculdade, pra senhora me renegar por causa de um erro meu? Quando a senhora deveria estar do meu lado? - engoli o choro, limpei as lágrimas que corriam incessantes e continuei. - Eu vou embora, mais eu nunca vou te renegar como minha mãe, pelo contrário será sempre respeitada. Mas, nunca mais você vai me ver. Nem ao seu neto.
- Eu não faço a mínima questão! - Ela gritou e saiu, batendo a porta.
Clara me ajudou a arrumar minhas coisas, peguei tudo que eu pude e coloquei em uma mala.
- Vem, vamos pra minha casa, fique lá o tempo que precisar. Depois vocês conversam com calma. - ela tentava me acalmar.
- Acho que não terá um depois, ela nunca me tratou assim. Eu vou embora e nunca mais vou voltar. Falei enquanto um misto de raiva e decepção me consumia.
Clara me levou até sua casa, quando chegamos ela me ajudou a tomar um banho e fez um chá de camomila e me deu um comprimido para dor de cabeça, pediu que eu descansasse, e que amanhã iria comigo providenciar tudo para que eu comessasse o pré natal.
Quando acordei já era noite, a lua crescente brilhava lá fora e um céu estrelado embelezava a aura noturna, de repente tudo que havia acontecido naquela tarde veio a tona, não, não foi um pesadelo. Foi real, minha própria mãe me renegou por causa da gravidez.
O quarto estava na penumbra, então levantei, calcei os chinelos e sai a procura de Clara, passei pelo corredor e a porta do quarto da mãe dela estava entreaberta, as duas estavam discutindo.
- Mais mãe, ela não tem pra onde ir, Tia Neide expulsou ela de casa, foi horrível. - Clara falava chorando.
- Eu sinto muito Clara, mais aqui ela não pode ficar. Eu não tenho condições de sustentar sua amiga e ainda mais grávida. E quando a criança nascer? Ela que procure o pai dessa criança e vá morar com ele. Aqui ela não pode ficar!! Gosto muito dela, mais na nossa situação atual, não podemos.
- É só por um tempo, ela pode arrumar um emprego de meio período em algum lugar... - Clara defendeu, mas foi interrompida.
- Não Clara!!
Eu não queria ouvir mais nada, rapidamente voltei para o quarto, as lágrimas desciam ainda mais queimando meu rosto, não sei como ainda tinha forças pra chorar. Como que uma gravidez podia causar tantos transtornos e fúria?
Arrumei minha mochila e troquei de roupas, rapidamente escrevi um bilhete para Clara e deixei em cima de sua cama.
_Querida Amiga, não era minha intenção causar tantos transtornos. Eu vou embora, vou me virar por aí. Quem sabe_ _tenha a sorte de encontrar o homem com quem passei a noite. Não se preocupe_ _comigo, peguei algumas de suas economias, mais te devolvo quando tudo melhorar._
_Por favor não discuta mais com sua mãe por mim._
_Te amo para sempre Amiga!_
_Ass: Beatrice_
A discussão continuava no quarto, enquanto eu me afastava do corredor. Sai pela porta dos fundos, e fechei devagar, sair na noite brilhante rumo ao desconhecido.
Eu posso ter errado, mais eu não poderia encerrar essa gravidez, eu tenho medo da ira de Deus, e sei que futuramente, vai me doer a consciência. Meu nome é Beatrice Navarro, e se tem uma coisa que aprendi com meu falecido pai, "Um Navarro Nunca Desiste, Somos Fortes e Donos de Nossa Própria Sorte"
Em meu pescoço uso uma corrente dourada, com um pingente de coração, dentro dele continha essa frase e uma foto de nós quatro, minha mãe, meu pai, meu irmão Bernardo e eu. Desde que meu pai faleceu em um acidente de trabalho guardo comigo esse pingente.