Os tabloides me transformaram em um alvo constante. Qualquer deslize, qualquer escândalo, virava manchete no dia seguinte. E eu não me importava... até que as ações da empresa começaram a despencar. Meu comportamento não estava apenas arruinando minha reputação, mas também colocando em risco o legado que meus pais trabalharam tanto para construir.
E foi então que meus pais decidiram agir.
- Leonardo, nós não vamos mais tolerar essa irresponsabilidade – meu pai disse, sua voz dura como pedra. – Se você continuar assim, não terá mais a nossa confiança. E sem isso, você perderá o controle da empresa.
Minha mãe, sempre mais diplomática, tentou suavizar o golpe.
- Você precisa mostrar ao mundo que é um homem maduro, alguém digno de liderar. Um bom casamento poderia ajudar nisso, Leo.
Naquele momento, eu percebi o quão sério era o ultimato. Eles não estavam blefando. Meu primo Augusto, sempre à espreita, aproveitava cada erro meu para ganhar força dentro do conselho. Ele já tinha aliados suficientes para me tirar do jogo, e eu sabia que, se não fizesse algo rápido, perderia tudo.
Foi aí que surgiu a ideia de arrumar uma noiva.
Eu não sou o tipo de homem que acredita em casamento por conveniência. Mas, naquelas circunstâncias, parecia a solução mais rápida e eficiente. Meu plano era simples: encontrar alguém, assinar um contrato, manter as aparências por tempo suficiente para recuperar a confiança do conselho e, depois, seguir caminhos separados.
O problema era que eu não tinha tempo. Augusto estava ganhando terreno a cada dia, e eu precisava agir imediatamente. Foi assim que acabei em um lugar onde jurei nunca colocar os pés: um leilão.
Eu sabia muito bem o que esses eventos representavam. As mulheres que estavam ali não estavam porque queriam, mas porque foram forçadas por circunstâncias horríveis. Era cruel, desumano. Não era o tipo de coisa que eu apoiava, mas o desespero tem o poder de transformar até mesmo os valores mais sólidos.
Quando entrei no salão, o ambiente me causou repulsa. Homens rindo alto, comentando sobre as mulheres como se fossem mercadorias. Mulheres desfilando de calcinha e sutiã, seus rostos cheios de vergonha. Minha mandíbula se apertou, mas eu precisava me lembrar do motivo pelo qual estava ali.
Foi então que a vi.
Ela estava parada no centro de uma vitrine, tentando manter os braços ao longo do corpo enquanto lágrimas escorriam pelo rosto. Seus olhos estavam fixos no chão, mas mesmo assim eu consegui sentir o desespero e a indignação que emanavam dela. Não sei dizer o que exatamente me fez focar nela. Talvez fosse a forma como ela parecia estar lutando, mesmo em uma situação tão degradante.
- Senhores, vamos começar o leilão – anunciou o leiloeiro.
Eu sabia que era minha chance. Não podia hesitar.
- Cem mil reais – alguém gritou.
- Duzentos mil – veio outra voz.
Os lances começaram a subir, mas eu mantive a calma. Esperei até o momento certo.
- Quinhentos mil reais – minha voz cortou o salão como uma faca.
O burburinho cessou. Todos os olhares se voltaram para mim, e o leiloeiro hesitou por um momento antes de perguntar:
- Alguém dá mais?
O silêncio era ensurdecedor. Eu sabia que ninguém ousaria me desafiar. Meu nome, minha reputação, ainda tinham peso, mesmo que não fosse pelos melhores motivos.
- Vendida por quinhentos mil reais ao senhor Arantes.
Eu observei enquanto ela era retirada da vitrine e trazida até mim. Ela parecia tão frágil, tão vulnerável, que quase me senti culpado por tê-la comprado. Quase.
Quando finalmente a vi de perto, percebi que ela estava tentando manter a compostura, mas seus olhos denunciavam o pânico.
- Isabela, certo? – perguntei, tentando parecer o mais tranquilo possível.
Ela não respondeu, apenas desviou o olhar. Não a culpei por isso. Afinal, eu era só mais um homem em uma situação que ela não escolheu.
- Vamos sair daqui – disse, e acenei para que um dos seguranças nos conduzisse para fora.
O caminho até meu carro foi silencioso. Ela andava com os braços cruzados, como se quisesse se proteger, e eu respeitei o espaço dela. Quando entramos no carro, sentei no banco ao lado dela e pedi ao motorista que nos levasse para minha casa.
- Escuta, Isabela – comecei, depois de alguns minutos de silêncio. – Eu sei que isso é estranho e assustador, mas quero que saiba que não vou te machucar.
Ela finalmente me olhou, seus olhos cheios de desconfiança.
- Você me comprou. Como espera que eu acredite em qualquer coisa que você diga?
Aquelas palavras me atingiram como um soco. Ela tinha razão. Por mais boas que fossem minhas intenções, eu ainda era parte de algo horrível.
- Eu só... quero que você me ouça – continuei. – Eu comprei você porque preciso de ajuda. Preciso de alguém que finja ser minha noiva.
Ela arqueou as sobrancelhas, claramente confusa.
- O quê?
- É uma longa história – respondi. – Mas, basicamente, se eu não mostrar que sou um homem maduro e responsável, vou perder tudo.
Ela balançou a cabeça, incrédula.
- E o que eu ganho com isso?
Eu respirei fundo.
- Liberdade. Assim que tudo isso acabar, você estará livre para ir aonde quiser, fazer o que quiser. E eu posso te ajudar a recomeçar.
Ela ficou em silêncio, analisando minhas palavras. Não sabia se ela confiaria em mim, mas uma coisa era certa: essa situação estava longe de ser simples.
Quando chegamos à minha casa, abri a porta para ela e a conduzi para dentro.
- Você pode descansar aqui hoje. Amanhã, conversamos sobre o que fazer.
Ela me lançou um último olhar desconfiado antes de desaparecer entrando no quarto. Eu sabia que ganhar sua confiança seria um desafio, mas estava disposto a tentar. Afinal, minha vida – e meu futuro – dependiam disso.