"Ele não foi para o trabalho? Tadinho, ficou tão preocupado comigo." Suspiro e amarro o meu cabelo em um coque, deixando alguns fios soltos. O seu corpo se mexe ao meu lado, abrindo os olhos verdes cintilantes e se senta preocupado, pegando em minhas mãos. O toque era gelado, parecia que o Mateus estava dentro de um freezer.
Mateus: - Você está bem, Estela? - toca o meu rosto buscando vestígios e assinto, afastando sua mão da minha face. Era tentador, tê-lo tão perto, mesmo ele não se referindo a mim na escola e fingir que eu não existia, mas tudo o que me disse, sobre os meus olhares, prova o contrário da minha percepção.
Estela: - Estou, só tive um sonho estranho...
Mateus: - O que você sonhou? - faz outra pergunta curioso e alisa minhas mãos, esperando uma resposta. Molho os meus lábios e os mordo antes de responde-lo.
Estela: - Sonhei que uma vila estava sendo atacada, mas uma mulher estranha conseguiu detê-los. E-e ela se parecia com você. - olha para dentro dos meus olhos e seu sorriso era encantador, como se pudesse dissolver qualquer resistência, enquanto tocava o meu rosto outra vez.
Mateus: - Deve ter sido só um sonho, Estela, e nada mais. - tento dissipar as suas dúvidas. Eu não pensaria neles agora, porque tudo indica que souberam lidar com a situação.
Estela: - Pode ser... - concordo, mesmo hesitando em fazer isso. Para mim era tão real, as emoções, palavras e ações, assim como a dor das pessoas. - Você poderia me levar para casa? Ainda tenho que avisar a minha chefe por não ter ido ao trabalho. -- toco a minha testa cansada e preocupada em ser despejada. Essa era a única fonte de sustento para mim e o meu pai, e não poderia ser demitida.
Mateus: - Eu já avisei a ela, não se preocupe. - afirma me pegando de surpresa. - Ela me disse para você tirar dois dias de folga. Você não descansa e trabalha sem parar! - reclama comigo e aceno com a cabeça sorrindo para ele. Algumas horas de descanso atrasariam as minhas tarefas, por isso não paro.
Estela: - Muito obrigada, Mateus.
Mateus: - Não tem porque agradecer, Estela. Agora, vamos. Vou preparar algo para você comer. - levantamos da cama, e eu a puxo pela mão enquanto saímos do quarto.
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Mateus
Quando meus pais, meu tio e a Dulce voltam do outro mundo, percebo que estão diferentes. Ramon está todo feliz com a Dulce, parece que ele finalmente deixou ser lavado pela atração que tinha com a garota. Pedro e Jeremias começam a invadir a mente deles, aqueles dois sem-vergonhas. Conversa vai e vem até que Pedro faz um comentário que não me agrada nem um pouco.
Pedro: - Eu estou de olho é na Estela. - olho com um sorriso provocativo para o Mateus que me faz ficar com dor. "Maldito gene de bruxo!" Me contorço de dor no sofá e ele aponta o dedo na minha cara irritado.
Mateus: - Não mexa com a minha namorada, ou eu te mato, Pedro! - paro de tortura-lo e ouço o suspirar de alivio.
Samuel: - E como vão as coisas por lá Ramon?... - pergunta mexendo no anel em seu dedo.
Ramon: - De boa... - eram as únicas palavras que vieram na minha cabeça.
Jeremias: - Esse daí está lambendo os pés da Dulce. - o Jeremias e o Pedro começam a falar por ele.
Pedro: - Nem parece o Ramon que conhecíamos...
Ramon: - Esse daí não existe mais, pelo menos eu não sou gay igual vocês dois! - revido, sem conseguir ficar com a boca calada. Eu gosto de um bom jogo e quando jogo com eles, não cedo facilmente.
Miguel: - Nossa, essa doeu... - levo a minha mão na boca sem conseguir conter a risada alta.
Mateus: - Vocês deviam arrumar uma namorada logo, logo, se não vão morrer sem amar alguém!
Pedro: - Eu prefiro estar morto do que ter uma mulher grudada a mim igual a um carrapato! - o Mateus ri abaixando a sua cabeça. É, eu sei que eu já estou morto.
Samuel: - Nós quatro pensávamos assim até encontrarmos as mulheres da nossa vida. - Samuel, aponta para os 4 cavalheiros do Zodíaco e pega uma bebida da mesa no meio da sala, e nós fazemos o mesmo.
Jeremias: - E onde eu encontro uma? - Jeremias, pergunta debochando.
Mateus: - Por isso que ninguém gosta de você, titio. - bebo um gole da bebida e passo a língua envolta dos meus lábios, vendo ele limpar a sua boca com as costas das mãos. - O Jeremias é muito debochado... - comento por fim e ele sorri cruelmente.
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Melissa: - Como você está Dulce? - pergunta se sentando no chão e acompanho-a.
Dulce: - Melhor do que nunca, Melissa.
Aurora: - E você Estela, como está sendo namorar o bonitão do meu irmão? - cutuco a sua costela, jogando para o lado.
Estela: - Ele fica no meu pé direto, ainda mais quando estamos na escola, ai que ele não se desgruda de mim em nenhum minuto! M-mas eu gosto dele...
Roberta: - O Samuel quer outro filho, garotas! - esconde o seu rosto bufando alto e a Dulce faz um biquinho de desagrado.
Dulce: - E você não quer me dar outro irmãozinho mãe?!
Roberta: - Claro que quero, mas eu quero aproveitar mais um pouquinho... - me defendo e elas começam a rir.
Aurora: - Vamos sair amanhã, só nós mulheres? - como sempre é típico da Aurora, ela é a dona das festas e sempre está em uma.
Estela: - Se os meninos deixarem, eles vão querer ir juntos... - corto o seu barato e a sua mãe concorda comigo.
Melissa: - Isso é com toda certeza, mas vocês podem usar a minha tática...
Dulce: - Que tática? - abre a boca para falar, mas a minha prima a interrompe.
Aurora: - A mamãe deixou o papai dormindo sozinho no quarto por um mês.
Dulce: - Isso é verdade? - mordo os meus lábios para controlar a vontade de rir.
Melissa: - Claro, quem mandou ele se engraçar com aquela mulher?!
Roberta: - Eita como ela é ciumenta! Tadinho do Miguel... - a Roberta sempre tem essa mania de chamá-lo assim e defendê-lo, como se o meu sugador de amor fosse santo.
Melissa: - Tadinho uma ova, Miguel é meu e de mais ninguém! - seus olhos trocam de cor, mostrando o quanto ela está irritada com o assunto.
Dulce: - E eu quase não deixei o Ramon mais dormir comigo, ele não queria ir no mercado comprar o meu chocolate e a beterraba...
Estela: - Eu não gosto de beterraba, mas eu adoro chocolate! - comento e a Aurora me puxa para fora do quarto, com as outras meninas logo atrás.
Elizabeth: - Até que enfim resolveram descer... - Elizabeth, a avó dos filhos da Melissa, comenta.
Cecília: - Estavam eram fofocando, não é? - Cecília toca o meu rosto de forma amorosa e sorriso diante do gesto.
- Sim. - as vozes saíram em uníssono e nos assentamos a mesa.
Estela
Depois do jantar, Ramon e Dulce compartilham uma ótima notícia: ela está grávida. Todos dão os parabéns, e as boas notícias não param por aí, pois o casal também planeja se casar.
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Finalmente chegou o grande dia da Dulce. Ela estava deslumbrante, e não parávamos de elogiá-la. Após o motorista nos levar para a igreja, a cerimônia se inicia. O casal é tão belo juntos, trocando seus votos com tanto amor. Um dia, quero estar nesse altar com Mateus, se estivermos juntos até lá...
Na festa, Dulce se prepara para jogar o buquê.
Dulce: - No três... Um... Dois... - no três ela joga e bem na hora que o Jeremias estava vindo do banheiro, o buquê caí em suas mãos. Encara a Dulce, perplexo, assim como as mulheres o olham com raiva. Não disse que ele era gay e o mesmo duvidou? Aí está a prova.
Jeremias: - Que merda!
Dulce: - Alguém vai casar muito cedo em. - as mulheres começam a rir de mim, após a sua fala amenizar a situação. Caminho até a minha família, que começa a me zoar.
Pedro: - A nova menininha na área, galera!
Jeremias: - Vai pra merda Pedro!
Miguel: - Quem é a sortuda? - olho para o meu irmão mais velho, não acreditando em sua pergunta.
Jeremias: - Ninguém! - grito e jogo o buquê para longe.
Mateus: - Como é a vida de ser uma mulher? Deve ser bom, não é? - Mateus me provoca e tiro o meu paletó para pegar ar ou vou acabar virando um dragão, de tanto fogo que irei cuspir. "Agora virei motivo de piada... Maldita hora que eu fui sair do banheiro!"
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Estela
Eu e o Mateus fomos juntos para a praia, mas ele não quis ficar muito, pois o sol o estava incomodando. Não entendi o porquê, mas deixei quieto. Há tantas coisas ainda que eu não sei sobre ele.
Mateus me leva para casa. Meu pai deve estar bebendo como sempre, mas hoje não. O dia está diferente, tudo parece diferente. Entramos em casa, e vejo tudo arrumado, sem nada quebrado. Meu olhar vai para o meu pai, que está encostado na porta do quarto dele, todo arrumado e sem bebida na mão. Os meus olhos se enchem de lágrimas, pois é a primeira vez que não vejo ele todo bêbado e fedendo.
Estela: - O que é isso?!
Paulo: - Não me reconhece mais, minha filha?
Estela: - Não é isso, é que... - não me deixa terminar de falar e se aproxima de mim.
Paulo: - Eu chegava todos os dias com bebida na mão, mas o velho Paulo está morto daqui pra frente. O seu namorado, que você disse que era amigo, me fez mudar de ideia e me deu um ótimo conselho: seguir em frente. A sua mãe pode não estar mais aqui, mas eu tenho você, e não posso te deixar sozinha, a única pessoa que sobrou na família e a única que nunca saiu do meu lado. Estou mudando por nós, minha filha. Eu quero ser um pai melhor e não te envergonhar na frente dos seus amigos. - ouvir meu pai falar assim foi como um raio de esperança cortando a escuridão que se instalou em nossa casa por tanto tempo. Ele reconheceu a necessidade de mudança, deixando para trás o velho Paulo, marcado pela bebida e pela tristeza. O conselho do Mateus, que eu considerava apenas um amigo, teve um impacto surpreendente em meu pai, incentivando-o a seguir adiante.
Ele mencionou a falta da minha mãe, reconhecendo que somos a única família que resta um para o outro. As palavras dele, expressando o desejo sincero de ser um pai melhor, tocaram meu coração. Eu estava emocionada e grata por essa reviravolta. Meu querido pai estava disposto a lutar contra os demônios do passado para construir um futuro melhor para nós dois.
Estela: - Você está me fazendo chorar, papai... - ele me abraça apertado e me deixo ser levada pelas lágrimas. Meu querido pai está de volta, resgatado da escuridão em que se encontrava. Não sei ao certo como o Mateus o persuadiu, mas estou sinceramente agradecida por ter trazido de volta o homem que meu pai costumava ser.
Paulo: - Vamos jantar!
Estela: - Você cozinhando, pai? Eu duvido!
Paulo: - Pois não duvide do mestre aqui, mocinha! - aperta o meu nariz de forma carinhosa. - Vamos, se não a comida vai esfriar. - ele vai na frente, e eu pego a mão do Mateus, entrelaçando-a com a minha. Ele se aproxima, colando nossos corpos. Apesar da proximidade, ainda não tive coragem de me entregar completamente a ele. Suas investidas eram perigosas e para mim ainda mais.
Estela: - Obrigada por ajudar o meu pai, isso é muito importante pra mim.
Mateus: - Não chore. Eu não gosto de te ver chorando. Eu faço tudo isso por você, Estela. - limpo suas lágrimas. - O seu pai não precisou de mim para mudá-lo, foi ele mesmo que quis. Eu só dei um empurrãozinho a mais.. - ela sorri para mim, um sorriso que poderia derreter o meu coração, se eu tivesse um.
Estela: - Mas obrigada mesmo assim. Vamos comer! - ela me puxa em direção à cozinha. Paulo arruma a mesa e coloca a comida nos pratos. Sinto o cheiro de alho vindo dos pratos, minha avó me ensinou a reconhecer, pois ela usa outros tipos de temperos para preparar a comida.
Mateus: - Eu não estou com fome. Antes de virmos pra cá, eu comi um cachorro-quente. Desculpe, Paulo, mas estou cheio.
Paulo: - Não tem problema, meu filho.
Estela: - Você pode sentar no sofá da sala. Está passando mal? Eu posso pegar os remédios... - quando vou levantar, ele me para e me faz sentar de novo de forma brusca.
Mateus: - Não precisa, eu estou bem. Quando você acabar, vá direto pro seu quarto. Eu tenho uma surpresa pra você... - ela me olha com os olhos brilhando, a cor dos olhos da Estela parece chamas de brasa, mas são essas chamas que queimam o meu corpo.
Estela: - Surpresa? Você sabia disso, papai? - me viro para ele.
Paulo: - Sabia. Eu até o ajudei. - ele diz rindo da minha cara. Fiquei curiosa agora.
Estela: - Me diz do que se trata essa surpresa?
Mateus: - Não posso contar. - sai nos deixando sozinhos e eu começo a comer rapidamente. Quando dizem que a ansiedade mata, mata mesmo.