- Esse traidor quase matou Selin. Hoje vamos expor essa rede, mesmo que o sistema inteiro trema.
Pablo, com a calma estratégica de quem conhecia os bastidores da justiça, assentiu.
- A operação precisa ser cirúrgica. E rápida. Selin será o fio solto que eles acham que ainda podem puxar.
Selin respirou fundo.
- E vocês têm certeza de que querem me colocar como isca?
- Não queremos - respondeu Isacc, olhando nos olhos dela. - Mas sabemos que é a única forma de tirá-los da toca.
Ela assentiu.
- Então vamos fazer do meu nome o último erro deles.
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Plano traçado. Armadilha montada.
Selin foi vista saindo da promotoria com uma pasta falsa, contendo supostas provas novas. O documento, intencionalmente registrado no sistema por um canal monitorado, fazia parecer que ela seguiria sozinha para um encontro com uma suposta testemunha anônima.
Na verdade, ela estava sendo acompanhada o tempo todo - por Pablo, à distância, e por agentes disfarçados sob comando de Eric.
Isacc, por mais que quisesse estar ao lado dela, permaneceu na base, monitorando cada movimento.
Cada segundo parecia uma eternidade.
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No prédio abandonado onde o "encontro" aconteceria, Selin entrou, segurando firme a pasta falsa.
- Estou aqui. Tenho o que vocês querem - disse, com voz firme, apesar do coração acelerado.
Dois homens saíram das sombras. Um deles tinha a mesma estatura de um segurança da clínica. O outro... usava paletó. E então Selin reconheceu - um servidor administrativo da promotoria. O mesmo que tantas vezes lhe oferecera café. Sorridente. Cordial. Educado demais.
- Murat? - sussurrou, incrédula.
Ele sorriu, agora sombrio.
- Você nunca soube jogar, doutora Yılmaz. Se meteu onde não devia. Achou mesmo que o promotor Cayer podia te proteger?
Selin manteve a calma.
- E você? Achou mesmo que eu viria sozinha?
No mesmo instante, uma explosão de movimentos tomou conta do local. Gritos. Correria. Agentes da inteligência judicial, coordenados por Eric e Pablo, entraram em ação. Em segundos, os dois homens estavam imobilizados no chão.
Do lado de fora, Isacc chegou com o carro em alta velocidade. Quando viu Selin sendo retirada em segurança, correu até ela.
- Você está bem? - perguntou, ofegante, segurando o rosto dela entre as mãos.
- Estou. Mas só porque confiei em você. E porque não estou mais sozinha.
Isacc a puxou para um abraço forte, sem se importar com quem via.
Pablo se aproximou com um sorriso satisfeito.
- Temos tudo gravado. A confissão, a tentativa de coação, o acesso à pasta falsa. O traidor vai passar o resto da vida explicando por que se vendeu tão barato.
Eric complementou:
- E com Murat preso, os outros vão cair como dominós. A rede foi exposta. Agora é só derrubar os últimos pilares.
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Naquela noite, já a sós, Isacc e Selin estavam em seu apartamento. O caos do dia parecia distante, como um pesadelo vencido.
- Eu quase enlouqueci quando soube que o infiltrado era alguém da nossa própria equipe - disse ele, com o olhar perdido na vista noturna da cidade.
- E eu quase desmoronei quando vi que era alguém tão... comum. Tão próximo.
Ele se virou para ela.
- Ainda quer continuar nisso? Na justiça... no meio dessa guerra invisível?
Selin se aproximou, tocando o rosto dele com ternura.
- Quero. Mas só se for ao seu lado. Porque agora eu entendo que lutar por justiça não é só aplicar leis. É também proteger quem a representa.
Isacc a beijou suavemente.
- Então, doutora Yılmaz, prepare-se. Porque essa foi só a primeira batalha. Ainda temos um sistema inteiro pra desafiar.
- E um ao outro pra amar - completou ela.
Ali, entre promessas e silêncios, começava não só uma nova fase da operação - mas o início de algo mais forte e mais verdadeiro do que qualquer sentença: o amor que resistiu às sombras da justiça.
A manhã seguinte trouxe consigo uma calmaria estranha, como se o caos dos últimos dias tivesse se dissolvido num silêncio que finalmente permitia respirar.
Selin caminhava pelo corredor da promotoria com os passos mais leves. Mas antes de entrar na sala, encontrou Isacc encostado na parede, esperando por ela.
- Precisamos conversar - disse ele, sério, mas com suavidade.
Ela assentiu, e os dois seguiram até a sala dele. Assim que fecharam a porta, ele falou, direto:
- Estive pensando. Esse tribunal não é mais um lugar seguro pra você.
- Não vou fugir, Isacc. Já falamos sobre isso.
- Não estou pedindo pra fugir. Estou propondo liberdade.
Ela o encarou com o cenho franzido.
- Como assim?
Ele caminhou até a janela, depois se virou de volta para ela.
- Você é brilhante. Corajosa. Não precisa mais se curvar às ordens de chefes políticos nem aos jogos sujos do sistema. O que você fez nesse caso... mostrou que está pronta para algo maior. Para andar com as próprias pernas.
Selin respirou fundo. A ideia parecia distante, mas ao mesmo tempo... libertadora.
- Você está me sugerindo sair do tribunal?
- Estou sugerindo que você abra seu próprio escritório. Que escolha os casos que realmente valem a pena. Que lute por quem não tem voz - mas com as suas regras.
Ela sorriu devagar.
- E você? Vai vir comigo?
- Não como sócio. Mas como aliado. Como homem. E como alguém que vai proteger seu nome com o meu, se preciso.
Selin caminhou até ele. Tocou o peito dele com as pontas dos dedos.
- Sempre soube que havia algo maior me esperando. Mas nunca imaginei que fosse ao seu lado.
- E agora?
- Agora... vamos construir esse futuro.
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Dois meses depois
O letreiro prateado sobre a porta de vidro refletia a luz do fim de tarde:
Selin Yılmaz Advocacia – Direito com Propósito
O escritório era pequeno, mas elegante. Moderno. A recepção aconchegante, as salas organizadas com arquivos, livros e quadros com frases de juristas que Selin sempre admirou.
Ela sentia o coração vibrar ao entrar ali todos os dias.
Começou com dois casos civis simples. Depois vieram os trabalhistas, os de família, e, logo, alguns de alto impacto social - clientes invisíveis ao sistema, que agora encontravam nela a coragem que faltava.
Logo, outros advogados começaram a procurar o escritório. Jovens com a mesma sede de justiça. Ela selecionou com cuidado: gente ética, comprometida, empática.
Entre eles estava Ayla, especialista em direito da mulher, e Mete, com experiência em defesa ambiental. Selin criou um ambiente horizontal, onde todos opinavam, aprendiam, cresciam.
- Aqui, não queremos ser maiores que o sistema - dizia ela na primeira reunião com a nova equipe. - Queremos ser justos o suficiente pra obrigá-lo a se corrigir.
Aplaudiram. E naquele dia, nascia mais que um escritório. Nascia um movimento.
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Isacc continuava como promotor. Vez ou outra, os dois estavam em lados opostos no tribunal - ela, como defensora dos fracos; ele, como promotor da ordem. Mas fora das salas de audiência, havia apenas amor.
- Você está conquistando seu espaço, Selin Yılmaz - disse ele, ao vê-la conceder sua primeira entrevista a um jornal nacional.
Ela riu, cruzando os braços.
- E você ainda acha que sou só um furacão bonito?
- Não. Agora sei que você é o vento que muda o rumo de tudo o que toca.
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E enquanto o nome de Selin crescia nas colunas jurídicas, enquanto seu escritório ganhava respeito e seguidores, ela sabia, no fundo, que o mais importante já estava conquistado:
A liberdade de lutar como ela é.
E o amor de um homem que nunca tentou impedi-la - apenas protegeu suas asas.