Selin ouviu o relato com atenção, gravou as conversas, reuniu documentos, convocou especialistas - e montou um processo tão robusto que em poucos dias a ação virou manchete.
> "Advogada desafia gigante da indústria: 'A saúde pública não é laboratório de lucro'" - dizia a manchete do jornal.
E foi nesse mesmo dia que ela recebeu a notícia:
- O Ministério Público acaba de designar o promotor responsável pelo caso - informou Mete, entrando na sala com o celular na mão. - É... o Isacc.
O silêncio caiu como um golpe seco.
Selin engoliu em seco.
- Eles querem nos expor - disse Ayla, cruzando os braços. - Colocar vocês dois um contra o outro, em público.
- Ou querem obrigar um dos dois a errar - completou Mete. - Isso é jogo político. Estão tentando desestabilizar o nome de vocês.
Mas Selin apenas respirou fundo, ergueu o queixo e respondeu:
- Que tentem.
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O tribunal estava lotado. Câmeras na entrada. Manchetes em tempo real.
Quando Selin cruzou o saguão principal, usando um blazer azul-escuro e o cabelo preso com firmeza, os flashes a seguiram como holofotes. Ela não hesitou. Seus passos eram firmes. Seus olhos, retos.
Na outra extremidade, Isacc se aproximava, cercado por repórteres e assessores. Estava sério, contido. Mas quando a viu, tudo pareceu silenciar por um segundo.
- Vai mesmo ser duro comigo lá dentro? - ela perguntou, ao se encontrarem no hall reservado.
- O suficiente pra te fazer lutar como nunca - respondeu ele, com um leve sorriso no canto dos lábios. - Mas sem deixar de admirar cada palavra que sair da sua boca.
Ela deu um meio sorriso.
- Ótimo. Porque eu pretendo ganhar esse caso. Não por mim. Pelas vítimas.
- Então nos vemos diante da corte.
- E depois dela.
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A audiência se iniciou. Selin fez sua sustentação com clareza e indignação calculada. Mostrou fotos, apresentou testemunhos, exibiu laudos que comprovavam o uso de substâncias proibidas. O público - e até o juiz - se mostravam impactados.
Isacc, por sua vez, conduziu a promotoria com rigor. Questionou provas com lógica, exigiu prazos, pediu análise imparcial. Seus olhos, porém, voltavam a Selin sempre que ela falava com firmeza. Era como vê-la em sua essência.
Pela primeira vez, estavam em lados opostos. Mas também, pela primeira vez, compreendiam exatamente o que era lutar pelo mesmo fim, mesmo por caminhos diferentes.
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Ao fim da sessão, no final da tarde, Selin saiu pela porta lateral do tribunal. O vento frio da noite já se erguia sobre Istambul.
Isacc a esperava encostado no carro, as mãos nos bolsos.
- Achei que ia fugir de mim - ele disse, ao vê-la se aproximar.
- Achei que você estaria no meio da coletiva com os procuradores.
- Eles não entendem o que aconteceu hoje. Mas eu entendo.
Selin parou diante dele. Os olhos cansados, mas vivos.
- Entende o quê?
- Que mesmo quando estamos frente a frente, em lados opostos, eu nunca estive tão certo de que você é... o lado certo.
Ela sorriu, cansada, mas com ternura.
- Vamos terminar esse caso com justiça. Depois disso, você escolhe: tribunal ou chalé?
- Posso ter os dois?
- Pode - respondeu ela. - Desde que saiba que, no tribunal, eu não vou aliviar.
Ele se aproximou, beijando sua testa.
- E é exatamente por isso que eu te amo.
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O caso estava apenas começando.
Mas agora, com Selin à frente de sua própria força...
E Isacc resistindo às pressões do poder...
Eles sabiam que não havia mais como voltar atrás.
A guerra era deles.
E o amor, também.
Três dias após a audiência, Selin chegou ao escritório e encontrou um envelope pardo sobre sua mesa. Nenhum nome, nenhum remetente. Apenas seu nome escrito à mão, com caligrafia fria.
Ela hesitou antes de abrir.
Dentro, um único papel.
> "Você está se expondo demais. Justiça não salva ninguém. Cem mil agora. Um milhão se desistir. E se não calar... será tarde demais."
Selin sentiu o estômago revirar. Não era só um aviso. Era um recado direto de alguém que sabia exatamente onde ela estava, o que estava fazendo - e com quem.
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Mais tarde, na sala de reuniões, ela compartilhou a carta com Ayla, Mete e os demais da equipe.
- Eles estão tentando desestabilizar - disse Ayla, indignada. - Mas se acham que você vai recuar por causa de dinheiro ou ameaça...
- Não é só sobre mim - respondeu Selin, séria. - É sobre todos nós. Eles podem mirar em qualquer um aqui. Precisamos reforçar nossa segurança. E... descobrir quem entregou esse envelope dentro do escritório.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Mete franziu a testa.
- Você está dizendo que há alguém infiltrado aqui?
- Estou dizendo que alguém facilitou isso. E até que tenhamos certeza, não podemos confiar cegamente em ninguém.
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Naquela noite, Isacc apareceu em seu apartamento com o rosto sombrio.
- Eu soube da carta. Recebi uma cópia também. Estão jogando sujo, Selin.
- Eles estão desesperados - disse ela, com firmeza.
- Estão perigosos - corrigiu ele. - Eu já pedi a Eric que mantenha vigilância extra no escritório. E também abri uma investigação paralela sobre a conduta da Orbepharma. Mas... tem outra coisa.
Ele estendeu o celular. Havia prints de e-mails - com cópias de documentos sigilosos do processo sendo enviados anonimamente.
- Alguém do seu time está vazando informações. E é coisa recente. Esses arquivos só vocês tinham.
Selin fechou os olhos por um momento. O coração apertado.
- Eu sempre fui cuidadosa. Eu escolhi cada membro com base em princípios, não só currículos.
- Eu sei. Mas alguém... mentiu.
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Nos dias seguintes, a tensão pairava no ar. No escritório, a confiança antes espontânea agora era medida em olhares e silêncio.
Selin começou a revisar os acessos digitais de todos. Cada login, cada envio de e-mail, cada entrada e saída de documentos.
Foi então que um padrão surgiu.
Um nome. Uma ação suspeita. Um envio não autorizado para uma conta criptografada.
Selin não queria acreditar. Mas os dados estavam ali.
- Elif.
A mais jovem da equipe. Estagiária recém-chegada, sempre sorridente, sempre disposta.
Selin a chamou para conversar, sozinha.
- Eu sempre gostei do seu empenho, Elif. E é por isso que quero ouvir a verdade da sua boca, antes que qualquer medida legal seja tomada.
A jovem empalideceu.
- Doutora Selin... eu...
- Você acessou arquivos restritos. Os dados de clientes. Os documentos sigilosos do processo contra a Orbepharma. E enviou para fora. Por quê?
- Eles... me ofereceram dinheiro. Disseram que ninguém saberia. Que era só para "análise jurídica paralela"...
- Você entendeu o que colocou em risco? A vida das pessoas. A integridade de um caso que pode mudar a justiça do país!
Elif chorava agora, desesperada.
- Eu precisava do dinheiro. Minha mãe está doente. Eu... me arrependi logo depois. Mas já tinha ido longe demais...
Selin se levantou. Os olhos firmes, mas sem arrogância.
- Você será desligada e denunciada. E se quiser mesmo se redimir, vai ajudar a polícia a identificar quem está por trás de você.
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Naquela noite, sozinha no escritório, Selin observava a cidade pela janela. As luzes lá fora pareciam tão distantes quanto a tranquilidade que sentia antes.
Isacc apareceu pouco depois, como se soubesse que ela precisava dele.
- A verdade veio à tona. Mas... doeu - disse ela, sem virar o rosto.
- A verdade dói mesmo. Mas te fortalece também.
Ele se aproximou, colocando a mão sobre a dela.
- Eles pensam que enfraqueceram sua equipe. Mas tudo o que fizeram foi provar que você não se curva. E que sabe se levantar.
Ela o olhou, cansada, mas determinada.
- Vamos até o fim, Isacc. Custe o que custar.
- Eu sei. E agora... eles sabem também.
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O julgamento estava se aproximando. E a Orbepharma começava a se retrair, percebendo que o poder que tinha já não era mais absoluto.
Selin, agora mais atenta e impenetrável, sabia que o preço da justiça era alto - mas que valia cada cicatriz.
Porque agora... não havia mais volta.