O médico entregou-me o relatório do teste de ADN, os seus olhos cheios de pena.
"Sinto muito, Sr. Alves. A compatibilidade da medula óssea entre si e o seu filho, Leo, é de zero."
Eu fiquei ali parado, o papel a tremer na minha mão.
Zero.
Como era possível?
O médico continuou, a sua voz suave. "Normalmente, a compatibilidade entre pai e filho é de cerca de 50%. Zero é... estatisticamente improvável, a menos que não haja relação biológica."
As suas palavras pairaram no ar. Eu não era o pai do Leo.
O meu filho, o meu Leo, estava deitado numa cama de hospital com leucemia, e o seu pai biológico não era eu.
Senti o meu mundo a desmoronar-se.
Peguei no telemóvel e liguei à minha mulher, a Sofia.
Ela atendeu ao segundo toque, a sua voz soava apressada e um pouco irritada.
"O que foi, Miguel? Estou ocupada. O chefe do Tiago está aqui, e estou a fazer o jantar para eles. Não me ligues por coisas sem importância."
A voz do Tiago, o meu cunhado, soou ao fundo, cheia de risos. "Cunhado, a Sofia está a fazer o seu famoso bacalhau com natas. Estamos a celebrar o meu novo contrato!"
A celebração deles pareceu-me um eco distante e oco.
"Sofia," a minha voz saiu rouca. "O Leo... a compatibilidade da medula óssea não correspondeu."
Houve um silêncio do outro lado da linha. Durou apenas um segundo, mas pareceu uma eternidade.
"O que queres dizer com não correspondeu?" A voz dela tornou-se aguda. "Os médicos não disseram que havia 50% de probabilidade? Talvez tenham cometido um erro. Pede-lhes para fazerem o teste outra vez!"
"Sofia, o resultado foi zero," eu disse, cada palavra a pesar uma tonelada. "O médico disse que isso significa que eu não sou o pai biológico do Leo."
Silêncio novamente. Desta vez, um silêncio pesado, carregado de culpa.
"Miguel, do que estás a falar?" ela finalmente disse, a sua voz a tremer. "Como te atreves a dizer uma coisa dessas numa altura como esta? O nosso filho está doente, e tu estás a inventar estas mentiras loucas? Estás a tentar fugir às tuas responsabilidades?"
A raiva dela era como um escudo, a desviar a verdade.
"Não estou a mentir," eu disse calmamente. "Tenho o relatório aqui mesmo. O Leo precisa de um transplante. Precisamos de encontrar o pai biológico dele. Agora."
"És um monstro!" ela gritou. "O meu filho está a sofrer, e tu estás a acusar-me de o trair! Acabou, Miguel! Quero o divórcio!"
Ela desligou.
Fiquei a olhar para o telemóvel, incrédulo.
Divórcio. Ela queria o divórcio porque eu descobri a verdade. A verdade que poderia salvar a vida do nosso filho.
O meu filho. Ele ainda era o meu filho. Eu criei-o. Eu amava-o.
A biologia não podia mudar isso.
Olhei pela janela do corredor do hospital para a cidade movimentada lá em baixo. As pessoas viviam as suas vidas, inconscientes do meu mundo a implodir.
O Leo precisava de mim. Ele precisava que eu fosse forte.
A Sofia podia tentar fugir, mas eu não a ia deixar. Não até o Leo estar a salvo.
Liguei-lhe novamente. O número estava ocupado. Tentei de novo. Ocupado.
Ela tinha-me bloqueado.
Uma raiva fria começou a borbulhar dentro de mim.
Ela estava a celebrar com o irmão enquanto o nosso filho lutava pela vida. Ela estava a esconder o homem que poderia ser a única esperança do Leo.
Não, eu não ia deixar isto assim.