Voltei para o quarto do Leo. Ele estava a dormir, a sua respiração superficial. A sua pele estava pálida contra os lençóis brancos do hospital.
Ele parecia tão pequeno, tão frágil.
Sentei-me ao lado dele, pegando na sua mãozinha. Estava fria.
O amor que senti por ele era avassalador, uma dor no meu peito. Ele era a minha vida inteira.
A enfermeira entrou para verificar os seus sinais vitais. Ela sorriu-me com tristeza. "Ele é um lutador."
"Eu sei," sussurrei.
Quando ela saiu, peguei no meu telemóvel e comecei a procurar. O chefe do Tiago. Sofia tinha mencionado que ele estava lá.
O Tiago trabalhava numa empresa de marketing chamada "InovaCresce". Uma pesquisa rápida no LinkedIn revelou o nome do CEO: David Andrade.
As fotos dele mostravam um homem alto, de cabelo escuro e confiante. Havia algo de familiar nos seus olhos.
Os olhos do Leo.
O meu coração parou por um segundo.
Continuei a procurar. Encontrei o perfil do David no Instagram. Estava cheio de fotos de festas, viagens de negócios e jantares de luxo.
E depois encontrei-a. Uma foto de há seis anos.
Era uma festa de empresa da InovaCresce. No meio da multidão, a rir, estava a Sofia. Ao lado dela, com o braço à volta da sua cintura, estava o David Andrade.
A data da foto era de cerca de nove meses antes do Leo nascer.
A prova estava ali, a brilhar no ecrã do meu telemóvel.
A minha respiração ficou presa na minha garganta. A traição era tão descarada, tão óbvia agora.
Todos os anos de dúvidas subtis, de pequenas inconsistências, vieram à tona. As horas extras da Sofia que nunca faziam sentido. O dinheiro que desaparecia da nossa conta conjunta. A sua distância emocional.
Eu tinha sido um tolo. Um tolo cego e apaixonado.
Nesse momento, o meu telemóvel tocou. Era a minha sogra, a Clara.
Atendi, a minha voz tensa.
"Miguel? A Sofia ligou-me, a chorar. O que lhe fizeste?" a sua voz era acusadora.
"Clara, não lhe fiz nada," respondi, a minha paciência a esgotar-se. "Descobri que não sou o pai biológico do Leo. Precisamos de encontrar o verdadeiro pai para um transplante de medula óssea."
"Que disparate!" ela retorquiu. "A minha filha nunca faria uma coisa dessas! És tu que estás a ser cruel e sem coração! Como te atreves a abandoná-la e ao teu filho doente?"
"Eu não os estou a abandonar! Estou a tentar salvar a vida do Leo!" a minha voz elevou-se. "A Sofia sabe quem é o pai. Ela precisa de nos dizer!"
"Ela não sabe de nada porque não há nada para saber!" gritou a Clara. "Tu és o pai! Para de inventar desculpas para fugir! És igual a todos os outros homens!"
Ela desligou-me na cara.
A família dela. Eles estavam todos a proteger-se uns aos outros, a tecer uma teia de mentiras.
E no centro de tudo, estava o meu filho a definhar.
Não. Eu não ia jogar o jogo deles.
Se eles não me iam dizer a verdade, eu ia encontrá-la sozinho.