A Sofia olhou para o diário na minha mão, o seu rosto uma máscara de pânico.
"Não é o que parece," ela gaguejou, dando um passo para trás.
"Não é o que parece?" repeti, incrédulo. "Está tudo aqui, Sofia. Preto no branco. As tuas mentiras, o teu caso, a tua decisão de me enganar."
Levantei-me, o diário ainda na minha mão. "O nosso filho está a morrer, e tu sabias disto o tempo todo. Sabias que havia outra pessoa que podia salvá-lo."
"Eu não sabia que ele ia ficar doente!" ela gritou, as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto. "Eu era jovem! Eu estava assustada! O David não o queria! Eu queria dar ao Leo um bom pai, alguém que o amasse!"
"Então usaste-me," disse eu calmamente. "Usaste o meu amor como uma rede de segurança."
"Eu amo-te, Miguel!" ela soluçou. "Eu amo-te!"
"Amor?" ri-me, um som amargo e vazio. "Tu não sabes o que é o amor. O amor não mente. O amor não engana. O amor não arrisca a vida do próprio filho para salvar a sua pele."
Aproximei-me dela, a minha raiva a ferver por baixo da minha calma exterior. "Vais ligar ao David Andrade. Agora. Vais dizer-lhe que ele tem um filho e que o filho dele precisa dele."
"Não posso," ela choramingou, abanando a cabeça. "Ele vai arruinar-me. Ele é poderoso. Ele vai tirar-me tudo."
"Ele já te tirou tudo," eu disse, a minha voz dura. "Tirou-te a dignidade, a honestidade. E agora, as tuas mentiras podem tirar-nos o Leo."
Ela olhou para mim, os seus olhos suplicantes. "Por favor, Miguel. Podemos encontrar outra maneira. Outro dador."
"Não há outra maneira!" gritei, a minha calma finalmente a quebrar-se. "O tempo está a esgotar-se! Vais ligar-lhe, ou eu ligo."
Peguei no meu telemóvel.
"Não!" ela gritou, tentando agarrá-lo. "Não faças isso!"
Afastei-a. "Já chega de mentiras, Sofia. Acabou."
Encontrei o número do David Andrade online. O número do seu escritório.
O meu dedo pairou sobre o botão de chamada.
A Sofia observava-me, o seu rosto contorcido de terror.
"Não te atrevas, Miguel," ela sibilou, a sua voz cheia de veneno. "Se o fizeres, juro que nunca mais verás o Leo. Vou dizer a toda a gente que me abandonaste. Vou certificar-me de que não tens nada."
As ameaças dela eram vazias. Ela não tinha poder sobre mim. Não mais.
"Vê-me," disse eu.
E carreguei no botão.