Sua família, no entanto, já estava toda lá, bebendo e comendo como se não houvesse amanhã, tudo pago com o meu dinheiro, o dinheiro que juntei com tanto sacrifício.
O pai dela, a quem eu chamava de sogro, já estava com o rosto vermelho pelo álcool, rindo alto de alguma piada sem graça.
Ele me viu e acenou com a garrafa na mão, um gesto que antes eu via como afeto, mas que hoje me pareceu estranho, quase zombeteiro.
A ansiedade começou a tomar conta de mim.
Onde estava Mariana?
Então, a porta do salão se abriu.
Não era Mariana, mas sim um carro de luxo, um modelo importado que eu só via em revistas, parando bem na entrada.
Todos os convidados, a família de Mariana, pararam o que estavam fazendo e olharam para a porta com uma expectativa que não demonstraram por mim.
A porta do carro se abriu e um homem alto e bem-vestido desceu.
Ele usava um terno caro, que provavelmente custava mais do que tudo que eu possuía.
Seu cabelo era perfeitamente penteado e ele tinha um sorriso arrogante no rosto.
Eu não o conhecia.
Atrás dele, Mariana desceu do carro.
Ela estava deslumbrante, usando um vestido branco que eu nunca tinha visto, um vestido que eu não paguei.
Meu coração afundou.
Ela não olhou para mim.
Seus olhos estavam fixos no homem rico ao seu lado, e ela segurava seu braço com uma intimidade que me gelou o sangue.
Eles caminharam juntos para o centro do salão.
O pai de Mariana correu para cumprimentá-los, não a mim, o noivo, mas o estranho.
"Fernando, meu genro! Que bom que chegou!", ele gritou, a voz embargada pela bebida.
Genro?
A palavra ecoou na minha cabeça, um barulho surdo e doloroso.
O mundo pareceu girar.
Mariana finalmente olhou para mim.
Não havia amor em seus olhos, nem mesmo culpa. Havia apenas frieza e um pouco de pena, como se olha para um inseto no chão.
Ela se aproximou, com Fernando ainda em seu braço.
"João", ela disse, a voz suave, mas as palavras cortantes. "Quero te apresentar o Fernando. Meu noivo."
A palavra "noivo" saiu da boca dela como um veneno.
O salão inteiro ficou em silêncio por um segundo, e então as risadas começaram.
Tios, primos, amigos da família de Mariana, todos que eu ajudei, todos para quem eu dei dinheiro, consertei coisas em suas casas, que levei ao médico.
Todos eles estavam rindo de mim.
A humilhação foi como uma onda, me engolindo por inteiro.
Eu era o palhaço no centro do circo.
"Noivo?", eu consegui sussurrar, a voz falhando. "Mas... e a gente, Mariana? Nosso casamento?"
Fernando riu, um som alto e desagradável.
"Casamento? Você achou mesmo que a Mariana ia casar com um pobre coitado como você?", ele disse, olhando para mim de cima a baixo com desprezo. "Ela só te usou, otário. Usou seu dinheirinho para pagar os estudos e sustentar essa família de encostados. Agora que ela se formou, encontrou alguém do nível dela."
Cada palavra era um soco no meu estômago.
Olhei para a família de Mariana, esperando que alguém me defendesse, que dissesse que era uma piada de mau gosto.
Mas eles apenas concordavam com a cabeça, sorrindo para Fernando.
Eles sabiam o tempo todo.
Eles eram cúmplices.
Meu mundo, construído sobre a base de um amor que eu acreditava ser real, desmoronou em segundos.
Eu não sentia raiva, não ainda.
Eu sentia um vazio imenso, uma dor que me paralisava.
Com as mãos trêmulas, retirei a flor da minha lapela, a pequena rosa branca que Mariana tinha dito que simbolizava nosso amor puro.
Estendi a mão para ela, a flor balançando entre meus dedos.
"Isso... acho que isso pertence a ele", eu disse, a voz não passando de um murmúrio.
Mariana nem se dignou a pegar.
Fernando arrancou a flor da minha mão e a jogou no chão, pisando em cima dela com seu sapato caro de couro.
"Não precisamos do seu lixo", ele cuspiu.
O pai de Mariana se aproximou, cambaleando um pouco.
Ele colocou um braço pesado sobre meus ombros.
"Olha, João... não fica assim. A gente gosta de você", ele disse, o hálito de cachaça batendo no meu rosto. "Seja um bom menino. Fica aí, come um bolo, bebe uma cerveja. É por nossa conta. Considere um pagamento por seus serviços."
Pagamento por meus serviços.
Como um empregado sendo dispensado.
Um servo.
Naquele momento, algo dentro de mim se quebrou.
A ingenuidade, a crença na bondade das pessoas, tudo isso se transformou em pó.
Eu olhei para os rostos sorridentes e cruéis ao meu redor e entendi.
Eu não era o noivo.
Eu era a piada.
E a piada tinha acabado.