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O Preço da Humilhação
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Capítulo 3

A lógica distorcida deles começou a fazer um sentido doentio na minha cabeça.

Cada ato de "bondade" que me mostraram no passado agora se revelava como uma manipulação.

Quando a mãe de Mariana me pedia para fazer as compras do mês, não era porque confiava em mim, era porque eu pagava a conta.

Quando o pai dela me chamava de "filho", não era por afeto, era para garantir que eu continuasse consertando o carro velho dele e pagando suas dívidas de bar.

E Mariana... cada "eu te amo", cada promessa de um futuro juntos, era apenas o preço que ela pagava para me manter preso, para continuar financiando seus sonhos, que, no final, não me incluíam.

Eu era um investimento.

Um investimento que tinha chegado ao fim de sua utilidade.

Um sorriso amargo e triste curvou meus lábios.

Eu era um idiota.

Um idiota completo e cego.

Olhei para Mariana, agora rindo de algo que Fernando sussurrava em seu ouvido.

Seu rosto estava radiante, uma felicidade que eu nunca consegui proporcionar a ela, porque a felicidade dela tinha um preço que meu salário de operário não podia cobrir.

Notei algo que não tinha visto antes.

O anel de noivado em seu dedo.

Era uma pedra enorme, um diamante que brilhava sob as luzes fracas do salão, zombando da aliança fina e de prata que eu havia comprado para ela, a aliança que estava no meu bolso, esperando o momento certo que nunca chegaria.

Minha ingenuidade era tão grande que, mesmo quando ela apareceu com o anel há algumas semanas, eu acreditei na história dela.

"É uma bijuteria, amor. Uma amiga me deu de presente, achei bonito", ela disse.

E eu acreditei.

Como um tolo, eu acreditei.

A dor no meu peito se intensificou, tornando-se uma raiva fria e cortante.

Eu não ia sair dali como um cão escorraçado.

Eu precisava de respostas.

Eu precisava que eles olhassem nos meus olhos e admitissem a monstruosidade que fizeram.

Caminhei em direção a ela, ignorando os olhares de desprezo e os cochichos.

"Mariana", eu disse, minha voz mais firme desta vez. "Por dez anos. Dez anos da minha vida. Eu te dei tudo o que eu tinha. Eu trabalhei em dois empregos para pagar sua faculdade. Eu vendi a moto que meu pai me deixou para pagar a cirurgia da sua mãe. E é assim que você me retribui?"

Ela parou de sorrir.

Sua expressão se tornou dura.

"Não jogue na minha cara o que você fez por mim, João. Você fez porque quis. Ninguém te obrigou", ela disse, a voz afiada.

Fernando colocou um braço protetor ao redor dela.

"Ouviu ela, cara? Vaza daqui. Você está estragando a festa."

"Eu não vou a lugar nenhum antes de falar com seu pai", eu disse, virando-me para o homem que agora tentava se esconder atrás de outros convidados.

Fui até ele, abrindo caminho entre as pessoas.

Ele estava visivelmente bêbado, os olhos vidrados.

"Sogro...", comecei, mas me corrigi. "Senhor Antônio. Eu preciso entender. Você sabia disso o tempo todo?"

Ele me olhou, os olhos tentando focar.

Por um momento, vi um lampejo de algo que parecia vergonha, mas desapareceu tão rápido quanto veio.

Ele deu um gole longo na sua garrafa de cachaça.

"Saber do quê, rapaz?", ele disse, arrastando as palavras. "Saber que minha filha é uma mulher inteligente que sabe escolher um bom partido? Sim, eu sabia. E tenho muito orgulho dela."

A traição dele era a mais dolorosa.

Ele era a figura paterna que eu nunca tive.

Eu era órfão, cresci em um lar para crianças. A família de Mariana foi a única família que eu conheci.

Eles me acolheram, ou assim eu pensava.

"Mas e tudo o que eu fiz por você? Pela sua família? Não significou nada?", minha voz tremeu, a mágoa transbordando.

Ele deu uma risada rouca.

"Significou, claro. Significou que a gente não passou fome enquanto a Mariana estudava. A gente é muito grato, João. De verdade."

A forma como ele disse "grato" soava como um insulto.

"Agora, se me dá licença", ele continuou, "meu novo genro me prometeu um uísque importado. Coisa fina, sabe? Não essa porcaria que você costumava trazer."

Ele me deu as costas, caminhando em direção a Fernando com um sorriso subserviente no rosto.

A última gota de esperança que eu tinha de que houvesse algum resquício de decência naquela família se evaporou.

Eles não eram apenas interesseiros.

Eram cruéis.

Eles não só me usaram, como sentiram prazer em esfregar minha insignificância na minha cara.

Eu estava completamente sozinho, cercado por lobos que se disfarçaram de ovelhas por uma década.

A dor era tão intensa que parecia física, um nó na garganta que me sufocava, um peso no coração que me esmagava.

Eu queria gritar, quebrar tudo, mas meu corpo não respondia.

Eu estava paralisado pela enormidade da traição.

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