Ela abriu o envelope e tirou um documento, colocando-o sobre a mesa na frente de Ana Lúcia. Era um laudo médico. Seu laudo médico. Detalhando um diagnóstico de insuficiência ovariana prematura que ela havia recebido meses atrás, em sigilo, e compartilhado apenas com Pedro, em um momento de vulnerabilidade e tristeza. Ele havia prometido apoiá-la, que eles encontrariam uma solução juntos.
"Como... como você conseguiu isso?", Ana Lúcia gaguejou, sentindo uma violação profunda, como se sua alma tivesse sido exposta e dissecada para todos verem.
"Pedro me contou, é claro," a mãe dele respondeu com naturalidade. "Ele é meu filho. Ele não me esconde segredos, especialmente segredos que afetam o futuro da nossa família. Você nos enganou, Ana Lúcia. Você sabia da sua... condição... e escondeu de nós, enquanto nos deixava acreditar que você nos daria um herdeiro."
"Eu não enganei ninguém!", ela gritou, a raiva finalmente superando o choque. "Era um assunto nosso, meu e do seu filho! Ele disse que não se importava!"
Pedro riu, um som oco e cruel.
"O que você queria que eu dissesse? Que ia te largar na mesma hora? Eu tive que ser estratégico. Tive que encontrar uma solução. E felizmente, a Carla", ele disse, apontando para a amante, "foi a solução perfeita."
"E o seu projeto?", um dos acionistas, que até então parecia neutro, falou. "Pedro mencionou que grande parte da base teórica foi desenvolvida por um antigo colega seu da universidade. Um tal de Dr. Almeida. Ele alega que você se apropriou indevidamente do trabalho dele."
A acusação era tão absurda, tão inesperada, que Ana Lúcia ficou sem palavras por um momento. Dr. Almeida era um rival acadêmico, um homem medíocre que sempre a invejou. A ideia de que Pedro o havia procurado para forjar uma acusação de plágio era a prova final de que ele havia planejado sua destruição meticulosamente.
"Isso é uma mentira deslavada! Eu tenho todos os meus rascunhos, todos os meus dados...!"
Sua voz morreu quando viu o que Pedro estava fazendo. Ele havia caminhado até a mesa dela, onde estava sua pasta de trabalho, a que continha todas as impressões, anotações e cálculos do projeto. Com um movimento deliberado e violento, ele pegou a pasta e começou a rasgar os papéis, um por um, em pedaços pequenos, deixando-os cair no chão como confete em um funeral.
"Não!", ela gritou, tentando avançar, mas os seguranças a seguraram pelos braços, suas mãos como garras de ferro.
Ela assistiu, impotente, enquanto anos de seu trabalho, sua genialidade, sua dedicação, eram transformados em lixo aos seus pés. Aquele ato de destruição foi mais doloroso do que qualquer insulto. Era a aniquilação de sua identidade profissional.
Quando a última folha foi rasgada, o advogado da família se aproximou com outra pasta.
"Sra. Lúcia, aqui estão os papéis do divórcio e um acordo de confidencialidade," ele disse, a voz monótona e profissional. "Você abdicará de todos os direitos sobre os bens do casal e sobre qualquer propriedade intelectual desenvolvida durante seu tempo na PetroVargas. Em troca, a família Vargas concorda em não processá-la por fraude e plágio."
Era uma armadilha perfeita. Eles a estavam despojando de tudo: seu casamento, sua carreira, sua reputação e até mesmo de seu trabalho. Se ela não assinasse, eles a destruiriam publicamente com acusações falsas. Se ela assinasse, ela sairia dali sem nada, amordaçada por um contrato.
O advogado colocou os papéis e uma caneta na mesa à sua frente. Os seguranças afrouxaram o aperto em seus braços, mas permaneceram ao seu lado, garantindo que ela não fugiria. O silêncio na sala era pesado, todos os olhos fixos nela, esperando sua capitulação. Ela se sentia encurralada, exausta, quebrada. As lágrimas que ela segurou com tanta força finalmente começaram a escorrer por seu rosto, silenciosas e quentes. Ela pegou a caneta, a mão tremendo tanto que mal conseguia segurá-la.
Parecia o fim. A derrota absoluta.
E então, no meio daquele silêncio mortal, um som perfurou a atmosfera de desespero. Um som insistente, quase desafiador.
Era o toque do seu celular, que ainda estava sobre a mesa, esquecido em meio ao caos. Na tela, brilhava um nome: "Sr. Montenegro".