Camila estava experimentando um colar de diamantes deslumbrante, enquanto Lucas a observava com um sorriso bajulador.
"Ficou perfeito em você, meu amor," dizia Lucas. "Digno da futura patroa da Fazenda Alvorada."
O gerente da loja, Sr. Abreu, um homem que conhecia Sofia desde criança, estava visivelmente desconfortável.
"É uma peça magnífica, realmente," disse ele, com uma formalidade tensa.
Camila viu Sofia pelo reflexo do espelho e seu sorriso se alargou.
"Sofia, querida! Que bom que você veio. Estava justamente escolhendo um pequeno presente para celebrar nosso noivado. O que acha deste?"
Ela se virou, exibindo o colar.
"É lindo, não é? Pode mandar embrulhar, Sr. Abreu. Coloque na conta da família Viana, como sempre."
Lucas deu uma risadinha.
"Não se preocupe, Sofia. Camila tem bom gosto, mas ela sabe ser contida."
Sofia caminhou lentamente até o balcão, seu olhar frio passando de Camila para Lucas e, finalmente, pousando no gerente.
"Sr. Abreu," disse ela, com a voz clara e calma. "Por favor, poderia me trazer o livro de registros de contas da Senhorita Camila?"
O gerente piscou, surpreso.
"Mas, Senhorita Sofia..."
"Agora, por favor," insistiu Sofia, com uma autoridade que não admitia recusa.
Sr. Abreu, engolindo em seco, foi até o fundo da loja e voltou com um grande livro de capa de couro.
Camila e Lucas se entreolharam, uma sombra de incerteza passando por seus rostos.
"O que é isso, Sofia? Que brincadeira é essa?" , perguntou Camila, a irritação começando a aparecer em sua voz.
Sofia ignorou-a.
Ela abriu o livro e começou a folhear as páginas, seus dedos passando por uma longa lista de anotações.
"Vejamos... um par de brincos de esmeralda em janeiro... uma pulseira de ouro em março... um relógio de grife em maio... Ah, e aqui está, do mês passado, um anel de rubi."
Ela ergueu o olhar para Camila, que agora estava pálida.
"É curioso, Camila. Nos últimos dois anos, você acumulou uma conta considerável em várias de nossas lojas. Roupas, joias, jantares... tudo colocado na 'conta da família Viana' . Uma conta que era paga pela minha mãe, por pena de você."
Sofia fechou o livro com um baque seco.
"Mas minha mãe não está mais aqui para pagar por seus caprichos."
Ela se virou para o gerente.
"Sr. Abreu, por favor, prepare a conta do colar para a Senhorita Camila. E, já que estamos aqui, some a ela o valor total de todas as suas dívidas pendentes em nossos estabelecimentos. Ela pode pagar tudo hoje."
O queixo de Camila caiu. Lucas ficou boquiaberto.
"O quê?!" , exclamou Camila, incrédula e furiosa. "Você ficou louca, Sofia? Nós vamos nos casar! Isso é meu por direito!"
"Nós não vamos nos casar," disse Sofia, cada palavra caindo como uma pedra. "E nada aqui é seu por direito. Você é uma cliente como qualquer outra. E clientes pagam por suas compras."
A humilhação era pública. Alguns outros clientes na loja observavam a cena com interesse.
A raiva tomou conta do rosto de Camila.
"Você está fazendo isso por ciúmes! Só porque eu amo o Lucas! Você não pode fazer isso comigo, Sofia! Depois de tudo que eu representei pra você!"
Ela tentou a chantagem emocional, a velha tática que sempre funcionara.
"Você tem razão," disse Sofia, com uma frieza cortante. "Você representou muita coisa pra mim. Representou minha ingenuidade, minha cegueira. E por isso, sou grata. Você me ensinou uma lição valiosa."
Ela se virou para sair, mas parou na porta.
"Ah, e mais uma coisa," disse ela, olhando por cima do ombro para o gerente. "A partir de hoje, a Senhorita Camila e o Senhor Lucas Mendes estão proibidos de colocar qualquer coisa na conta da família Viana. Todas as compras devem ser pagas à vista."
A declaração foi final, uma sentença.
Sofia saiu da joalheria, deixando para trás o silêncio chocado e a fúria impotente de Camila e Lucas.
Pela primeira vez em semanas, ela respirou fundo e sentiu o ar puro encher seus pulmões.
A justiça tinha um gosto doce. E ela estava apenas começando.
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