"Não faça isso de novo", disse ele, sua voz áspera enquanto enfaixava meu tornozelo. Mas seu toque, surpreendentemente, foi gentil.
Era a história do nosso casamento. O áspero e o gentil. O empurra e o puxa. Um ciclo de controle projetado para me manter desequilibrada, sempre ansiando pelos breves momentos de calor.
Mas eu não sentia nada agora. Apenas uma calma estranha e vazia. A parte de mim que costumava ansiar por sua aprovação havia ficado dormente.
"Obrigada", eu disse, minha voz educada e vazia.
Ele terminou e permaneceu ajoelhado, olhando para mim, claramente esperando lágrimas ou um pedido de desculpas. "Você não quer perguntar sobre ela?"
Eu balancei a cabeça. Eu não precisava perguntar. Eu já sabia. Tinha visto o perfil público dela. Ela estava de volta à cidade há duas semanas.
"Vou dormir no quarto de hóspedes esta noite."
Comecei a me levantar, mas sua mão disparou, seus dedos se fechando em volta do meu braço. "Caterina."
Houve um lampejo de algo novo em seus olhos - não raiva, mas uma lasca de incerteza. A percepção de que desta vez era diferente. Que suas táticas usuais estavam falhando.
"Ela precisava de um cargo", disse ele, a voz tensa. "Havia uma vaga na fundação. É apenas negócio."
"Ok", eu disse, minha voz neutra. "Não importa."
Ele me alcançou novamente, seu toque quase hesitante desta vez. "Não seja assim."
Eu me afastei de sua mão como se tivesse sido queimada. "Não me toque", eu disse, as palavras afiadas como vidro.
O choque em seu rosto foi absoluto. Eu nunca, nem uma vez, o neguei.
Seus olhos se estreitaram. "Não me provoque, Caterina."
Eu não respondi. Dei as costas para ele, manquei para fora da sala de estar e pelo corredor até o quarto de hóspedes. Fechei a porta atrás de mim, o clique da trava soando tão final quanto o selar de um túmulo.
Na manhã seguinte, acordei em uma casa vazia. Alessandro tinha saído.
Peguei um carro para a Fundação De Luca, a instituição de caridade na qual eu havia derramado meu coração e minha alma nos últimos quatro anos. Era a única parte da minha vida que era verdadeiramente minha.
Entrei direto no escritório da diretora. Maria, uma mulher gentil de sessenta e poucos anos, ergueu os olhos de sua mesa, seu rosto se abrindo em um sorriso caloroso.
"Caterina! Não estava esperando você."
Coloquei um envelope branco em sua mesa. "Maria, estou aqui para apresentar minha demissão."
Seu sorriso desapareceu. "O quê? Por quê? Está tudo bem?" Ela parecia genuinamente chocada. "Mas... o Projeto de Revitalização da Orla. É o seu bebê."
"Eu sei", eu disse suavemente. "Mas está na hora de eu seguir em frente."
Maria parecia totalmente confusa. "Eu não entendo. Alessandro reatribuiu seu papel de liderança no projeto ontem. Pensei que você soubesse."
O chão pareceu sumir debaixo dos meus pés. Meu projeto. Aquele que eu concebi, apresentei e lutei por ele. Ele o havia tirado de mim.
Minha voz era pouco mais que um sussurro. "Para quem ele deu?"
Os olhos de Maria estavam cheios de pena. "Uma nova contratada. O nome dela é Isabella Rossi."