Ponto de Vista: Helena
Meu pé prendeu em uma tira de metal solta no chão. O som agudo ecoou no pequeno apartamento, e eles se separaram num pulo.
Kael se virou, seus olhos se fixando em mim na porta. Por uma fração de segundo, vi um lampejo de algo - preocupação, talvez até culpa - antes de ser engolido por pura irritação.
"Helena? Que diabos você está fazendo aqui?"
Daiane saiu de trás dele, um sorriso doentiamente doce estampado no rosto. Sua voz era pura atuação.
"Ah, Helena. Eu sinto muito, muito mesmo por... você sabe. O colégio. Éramos apenas crianças."
"Não ouse", eu disparei, a única palavra cortando sua atuação como um caco de vidro.
O rosto dela se desfez instantaneamente. Ela se virou e se derreteu contra o peito de Kael, seus ombros tremendo com soluços teatrais.
"Eu só estava tentando ser legal."
Os braços de Kael a envolveram protetoramente, seu olhar endurecendo ao pousar em mim.
"Qual é o seu problema? Deixa isso pra lá."
Minha mente voltou ao vestiário do colégio. Daiane e suas amigas me seguraram, a ponta fria e afiada de um compasso cravando na pele macia do meu pulso enquanto ela gravava a palavra "Inútil" na minha carne. A cicatriz ainda estava lá, uma linha pálida e irregular que eu via todos os dias.
Lembrei-me de Kael me encontrando chorando na biblioteca depois. Ele pegou minha mão, seu polegar traçando a marca vermelha e irritada, e me prometeu, com a voz num rosnado baixo: "Um dia, eu vou acabar com ela por você, Helena. Eu juro."
Outra mentira linda e vazia.
"Entra no carro", Kael ordenou, sua voz não deixando espaço para discussão.
Daiane interveio, enxugando uma lágrima inexistente. "Sim, vamos todos juntos. Podemos ser amigos."
Ela estendeu a mão para o meu braço, suas unhas perfeitamente feitas cravando deliberadamente na pele sensível ao redor da minha antiga cicatriz.
A dor, aguda e familiar, disparou pelo meu braço. Eu recuei por instinto, puxando meu braço de seu toque.
Meu recuo a fez tropeçar para trás. Ela caiu com um suspiro dramático, desabando no chão em um monte, e para quem visse, parecia que eu a tinha empurrado.