Capítulo 2

Na manhã seguinte, o aperto na minha barriga havia sumido, substituído por uma dor surda que espelhava o vazio no meu peito. Sentei-me em frente ao Dr. Jonas, meu advogado, em seu escritório estéril com paredes de vidro. Ele me olhou com preocupação, suas feições geralmente compostas marcadas pela apreensão. Eu o havia chamado no meio da noite, minha voz firme, minhas instruções claras.

"Elisa", disse ele, com a voz gentil. "Você tem certeza disso? Isso é... extremo. Falsificar sua morte, desaparecer completamente? As ramificações legais..."

Eu o interrompi, meu olhar inabalável. "As ramificações legais de quê, Dr. Jonas? Do meu marido pegar meu filho para ser criado pela amante dele? De eu ser apagada da vida do meu próprio filho? Que outra escolha eu tenho?"

Ele suspirou, passando a mão pelos cabelos grisalhos. "Poderíamos lutar contra ele, Elisa. Poderíamos expor sua infidelidade, seu engano. Você tem base para o divórcio, uma pensão substancial, uma parte de seus bens..."

Eu zombei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "E quanto tempo isso levaria? Quanta humilhação pública eu teria que suportar? Quantos anos eu passaria no tribunal, lutando contra um homem com recursos ilimitados, enquanto ele mancha meu nome e tenta me provar uma mãe inadequada? E que garantia eu tenho de que sequer venceria? Heitor sempre dá um jeito. Ele sempre vence."

Lembrei-me do acordo pré-nupcial, da maneira casual como ele descartou minhas preocupações. Ele havia se certificado de que eu não tinha nenhuma vantagem financeira. Eu não tinha nada além do meu coração, e ele o havia pisoteado.

"Ele quer meu filho, Dr. Jonas. Não para ele, mas para ela. Ana Clara. Ele não me vê como uma pessoa, apenas como um receptáculo. Ele fará qualquer coisa para conseguir o que quer." Minha voz estava baixa, mas a convicção por trás dela era absoluta. "Eu preciso desaparecer. Para sempre. Pelo meu filho."

Dr. Jonas recostou-se, seus olhos perscrutando os meus. Ele viu o desespero ali, a determinação inflexível. Ele conhecia Heitor. Ele conhecia a eficiência implacável com que ele operava.

"Tudo bem", disse ele, finalmente. "Se esta é realmente sua decisão, eu vou te ajudar. Mas será difícil. Você não terá histórico, nem passado. Você será um fantasma. E terá que cortar todos os laços."

"Esse é o ponto", respondi, as palavras de aço. "Ele não vai parar de procurar. Não pelo filho dele. Então, eu tenho que me certificar de que não haja nada para ele encontrar. Nada que nos ligue a ele. Nunca."

"Precisamos começar a planejar imediatamente. Uma nova identidade, um lugar seguro, fundos, uma rede. Não será fácil, especialmente com sua condição." Ele gesticulou sutilmente para minha barriga.

"Eu entendo", eu disse. "Apenas me diga o que fazer."

Passei o dia fazendo arranjos. Dr. Jonas me colocou em contato com uma organização discreta especializada em ajudar mulheres a escapar de situações perigosas. Eles se chamavam "A Rede", uma rede de advogados, ex-agentes e indivíduos compassivos dedicados a proteger os vulneráveis. Eles prometeram anonimato e uma nova vida. Tudo o que eu tinha que fazer era me comprometer.

Naquela noite, voltei para a mansão. Os vastos e vazios cômodos ecoavam com um silêncio oco. A gaiola dourada nunca pareceu tão sufocante. Meu corpo doía, um cansaço profundo se instalando em meus ossos. O hábito, essa amante cruel, guiou minhas mãos para a cozinha. Comecei a preparar o prato favorito de Heitor, uma receita italiana complexa que ele raramente deixava alguém fazer. Meus movimentos eram automáticos, uma dança que eu havia executado milhares de vezes.

O aroma de alho e ervas encheu a cozinha. Arrumei a mesa para dois, como sempre fazia. Então, parei. Minhas mãos congelaram sobre os pratos. Ele não estava voltando para casa para mim. Ele não estava voltando para casa para nós. Ele estava voltando para um arranjo conveniente, uma esposa grávida para servir a seu propósito.

Uma risada amarga borbulhou, rapidamente sufocada por um soluço. Limpei a mesa, meus movimentos bruscos e ineficientes. A comida ficou no fogão, aquecendo e reaquecendo, assim como inúmeras vezes antes, esperando por um homem que muitas vezes não chegava até as primeiras horas da manhã.

Ele finalmente entrou pouco depois da meia-noite. O leve cheiro de perfume caro, não o meu, grudava em suas roupas. Ele não se deu ao trabalho de tirar a aliança. Isso havia parado anos atrás. Agora era apenas uma faixa fria de metal em seu dedo, um símbolo de um voto esquecido.

"O jantar está pronto", eu disse, minha voz plana.

Ele grunhiu, mal me reconhecendo. Passou pela cozinha, indo direto para seu escritório. "Eu comi fora", ele gritou por cima do ombro.

Meus dedos se fecharam em punhos. A comida, preparada com amor, estava intocada. Fui até a porta do escritório, meu coração batendo com uma mistura de raiva e desespero.

"Heitor", eu disse, minha voz mal acima de um sussurro. "Os papéis do divórcio estão prontos."

Ele se virou, seus olhos se estreitando. "Não discutimos isso? Não haverá divórcio."

"Você quer que Ana Clara crie seu filho", afirmei, minha voz ganhando força. "Você me quer fora do quadro. Tudo bem. Mas não enquanto eu ainda estiver viva para lutar pelo meu filho."

Seu rosto endureceu. "Você não entende, Elisa. Este casamento serve a um propósito. Minha imagem pública, a estabilidade para a Torres Inovações. Ana Clara precisa de proteção, e meu filho precisa de legitimidade."

"E quanto a mim, Heitor? E quanto ao nosso filho? Você acha que vou simplesmente entregá-lo a você e sua amante?" Minha voz estava mais fria do que eu pensava ser possível.

"Não seja dramática", ele zombou. "Você salvou minha vida uma vez. Eu te dei meu nome, meu estilo de vida luxuoso. O que mais você quer?"

"Minha vida de volta!", gritei, a última gota da minha compostura se quebrando. "Minha dignidade! Meu filho!"

Ele me encarou, seus olhos desprovidos de emoção. "Você está exaltada. Você está grávida." Ele se aproximou, sua voz baixando para um rosnado baixo e perigoso. "Não me pressione, Elisa. Você não quer saber do que sou capaz."

"Eu quero o divórcio", repeti, forçando as palavras a saírem por entre os dentes cerrados. "Eu assino qualquer coisa. Leve tudo. Apenas me dê minha liberdade e meu filho."

Ele riu então, um som desdenhoso e cruel que me atravessou. "Você acha que é tão simples? Você acha que vou simplesmente deixar você ir embora com meu legado? Esta criança é minha, Elisa. E ele será criado como um Torres, com Ana Clara ao seu lado."

Meu sangue gelou. Ele estava falando sério. Ele realmente acreditava que poderia simplesmente pegar meu bebê. A ideia de Ana Clara, com sua inocência frágil e manipulação venenosa, segurando meu filho, quebrou algo profundo dentro de mim.

"Você nunca vai tê-lo", sussurrei, as palavras um voto.

Ele sorriu com desdém. "Elisa, você não tem nada. Sem dinheiro, sem poder. Você é ingênua se acha que pode lutar contra mim."

"Você me subestima, Heitor", eu disse, minha voz plana. Virei-me e fui embora, deixando a refeição intocada, a ilusão despedaçada de nossa vida e o homem que amava um fantasma mais do que sua esposa viva. Quando cheguei à porta, ouvi seu rugido de frustração atrás de mim.

Eu não chorei. Já havia chorado o suficiente por ele. Agora, eu agiria. Eu desapareceria. E ele nunca me encontraria.

            
            

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