- Eu vou à farmácia de plantão. Vou pegar aquele antiácido que o médico recomendou. Não discuta, tia Maria. Fique deitada.
Beijei sua testa, sentindo sua pele úmida de suor, e saí. Eu estava com pressa, mas assim que pisei na calçada, o ar frio da noite pareceu congelar meus pulmões. O silêncio do bairro de Navigli estava estranho, pesado demais. Foi então que o vi: o carro preto com a placa MN 042 DX.
Ele ainda estava lá, parado na esquina como um predador em repouso. Comecei a caminhar, tentando manter o passo normal, mas cada fibra do meu corpo gritava que eu estava sendo caçada. Ouvi o som do motor roncando baixo atrás de mim. Eu andava, e o carro andava. Eu acelerava, e os pneus esmagavam o paralelepípedo no mesmo ritmo.
Meu coração martelava contra as costelas. Minha mente, aquela maldita memória que registrava tudo, começou a projetar o mapa das ruas, as saídas e os becos.
Eu não era apenas uma secretária; eu era uma presa que sabia exatamente onde estavam as armadilhas.
Dobrei a esquina em direção ao canal, onde a iluminação era mais precária. O carro parou bruscamente e a porta se abriu.
- Senhorita Lima. Que coincidência encontrá-la tão tarde - a voz de Dante Malvic cortou a neblina, mansa e letal.
Ele saiu da sombra, caminhando em minha direção com uma calma que me aterrorizou. Não havia mais o isqueiro de prata ou o tom de brincadeira; ele parecia um lobo que finalmente tinha encurralado a ovelha.
- O que o senhor está fazendo aqui, Dante? Não é comum ver carros de luxo no bairro, algum problema comigo? Vincenzo disse que eu estava protegida.
- E você está, Clarice. Mas Vincenzo é um homem de visão limitada. Ele quer você em uma mesa; eu quero você no topo do mundo, ao meu lado. - Ele estendeu a mão, e o brilho da lua refletiu em seus olhos frios. - Entre no carro. Agora.
- Não. - Dei um passo atrás, sentindo o ferro frio de um poste nas minhas costas.
- Não me obrigue a ser indelicado - ele sussurrou, avançando rápido demais para que eu pudesse reagir.
Seus dedos se fecharam no meu braço como tenazes de aço. O pânico explodiu em mim. Eu não pensei, apenas agi. Usei minha bolsa de couro pesado e a acertei com toda a força diretamente no seu rosto. Ouvi o estalo da fivela contra a pele dele. Dante cambaleou para trás, levando a mão ao rosto que agora sangrava. Aquilo foi o suficiente.
- Solta! - Gritei, desferindo um chute na sua canela e girando para correr.
- Sua maldita! - Ele rugiu, e o som da sua voz não era mais humano.
Corri como se minha vida dependesse de cada centímetro de asfalto. Entrei no primeiro beco que vi, saltando sobre caixotes e latas de lixo. Eu ouvia os passos dele atrás de mim, pesados e furiosos.
- Peguem essa maldita! - O grito dele ecoou pelas paredes de tijolos, e logo ouvi o som de outras portas de carro se abrindo e pés correndo em sincronia.
Eram muitos. Eu estava sozinha em um labirinto de tecidos e depósitos velhos, armada apenas com meu celular e uma memória que me dizia que, se eu não encontrasse um lugar para me esconder nos próximos trinta segundos, nunca mais veria a luz do sol.
Tirei o celular do bolso com as mãos trêmulas e disquei o único número que poderia me salvar, enquanto me enfiava atrás de uma pilha de rolos de linho em um depósito entreaberto.
- Vincenzo! Por favor... - eu solucei quando ele atendeu, enquanto via as sombras dos homens de Dante passarem pela fresta da porta.
O som da porta de metal sendo esmagada ecoou pelo galpão como um trovão, fazendo meu corpo inteiro estremecer. Encolhida entre os rolos de tecido empoeirados, eu sentia o gosto metálico do medo. O celular queimava contra o meu ouvido.
- Vincenzo, per favore... - sussurrei, a voz embargada pelo choro, enquanto ouvia o ronco do motor dele pelo alto-falante. - Eles estão entrando! Não confie no Dante, ele tentou me levar, ele disse que eu era a chave...
- Clarice! Fique onde está! Eu estou che...
A voz dele foi cortada por um estrondo seco. A bateria do meu celular cedeu e a tela se apagou, deixando-me em um silêncio absoluto e aterrador. O único som era o da minha própria respiração, curta e desesperada.
- Piccola... onde você está escondendo esse tesouro? - A voz de Dante surgiu do fundo do galpão, arrastada, carregada de um ódio que me fez encolher ainda mais.
Tentei prender a respiração, mas minha memória me traiu, projetando a imagem do rosto dele sangrando por minha causa.
Ouvi o som de passos lentos sobre o cimento. Um, dois, três... Ele estava perto. O cheiro de tabaco e sangue começou a invadir o meu esconderijo. Com um movimento brusco, os rolos de tecido que me protegiam foram jogados para o lado.
A luz fraca da rua entrou no depósito, iluminando a figura de Dante. Ele estava com o rosto marcado, um corte profundo cruzando a bochecha. Seus olhos eram poços de fúria negra.
- Achou mesmo que podia fugir de mim? - Ele rosnou, entre dentes.
Eu tentei me levantar, tentei gritar, mas ele foi mais rápido. Antes que eu pudesse formular qualquer pensamento, a mão dele se fechou em um punho. O golpe veio como uma explosão. Senti o impacto seco contra a minha mandíbula, uma dor lancinante que pareceu desligar todos os meus sentidos de uma vez. Minha visão falhou.
O chão frio subiu para me encontrar. A última coisa que vi foi o sorriso cruel de Dante e o vulto de seus homens entrando no galpão.
- Peguem ela - foi o último comando que ouvi antes que a escuridão total me engolisse.