Eu não era mais a "menina da contabilidade" que contava moedas para o bilhete do bonde. Eu daria conta. Minha mente já estava organizando as pastas, os horários e as pendências de Vincenzo Moretti com a mesma facilidade com que eu decorava o cardápio da trattoria na esquina de casa.
- Eu consegui, tia... - sussurrei para mim mesma, um sorriso involuntário rasgando meu rosto.
Como a equipe antiga havia sido dispensada e o sistema estava em transição, fui liberada mais cedo.
Eu mal podia esperar para chegar em casa, abraçar a única família que me restava e comemorar com uma garrafa de vinho e uma massa decente. Pela primeira vez em anos, o peso da pobreza parecia ter sido erguido dos meus ombros.
Eu estava quase chegando aos elevadores quando uma figura se desprendeu das sombras das colunas de mármore.
- Complimenti, senhorita Lima. Ou devo dizer... braço direito do Don?
Parei abruptamente. Dante Malvic estava encostado na parede, brincando com um isqueiro de prata. Ele tinha um sorriso que não alcançava os olhos, uma expressão que me fez sentir um calafrio repentino, como se o ar condicionado do prédio tivesse ficado dez graus mais frio.
- Obrigada, senhor Malvic - respondi, tentando manter a voz firme e a confiança que sentia há poucos segundos. - Se me der licença, meu turno acabou.
Tentei passar por ele, mas ele se moveu com uma agilidade predatória, bloqueando sutilmente o meu caminho.
- Você é maravilhosa, Clarice. Realmente - ele disse, inclinando a cabeça, analisando-me como se eu fosse um código difícil de quebrar. - Mas precisa tomar cuidado. Milão é uma cidade linda, mas cheia de fendas. Quem Vincenzo Moretti chama para perto de si... geralmente acaba virando um alvo.
Meu coração falhou uma batida. Mantive o rosto inexpressivo, usando minha memória para buscar qualquer menção a "alvos" nos manuais da empresa, mas eu sabia que ele não falava de negócios legais.
- Não entendo o que o senhor quer dizer, senhor Malvic. Sou apenas uma secretária promovida - menti, sustentando o olhar.
Dante soltou uma risada curta, um som seco que ecoou pelo corredor vazio.
- Ah, si? Você entende perfeitamente. Vi o jeito que ele olha para você agora. Vincenzo acha que pode esconder um tesouro apenas o cobrindo com um pano.
Ele se aproximou um pouco mais, e o cheiro de tabaco e couro caro me sufocou por um instante.
- Mas escute bem, piccola: a verdade é que você não precisa de Vincenzo Moretti para ser um alvo. Algumas pessoas brilham tanto que atraem a escuridão por conta própria.
- Eu realmente preciso ir - cortei, desviando dele e apertando o botão do elevador com urgência.
As portas se abriram e eu entrei, sem olhar para trás até que o metal se fechasse. Mas, antes que a fresta sumisse, eu o vi. Dante ainda estava lá, parado, sorrindo de um jeito que dizia que ele sabia exatamente o que eu estava tentando esconder.
A euforia de minutos atrás tinha evaporado.
No trajeto para casa, as luzes de Milão já não pareciam tão brilhantes.
Pela primeira vez, senti que minha memória fotográfica não era apenas uma benção para me tirar da pobreza, mas um farol que tinha acabado de acender para todos os predadores da Itália.
Cheguei ao bairro simples, subi as escadas do nosso prédio antigo no bairro de Navigli quase sem fôlego, não pelo cansaço, mas pela pressa de descarregar a novidade. O corrimão de ferro batido e o cheiro de manjericão vindo dos vizinhos sempre foram o meu porto seguro, mas hoje, aquele cenário parecia pequeno demais para o tamanho do meu futuro.
- Tia! Tia Maria, cheguei! - gritei, abrindo a porta de madeira que rangeu como se reclamasse da minha euforia.
Minha tia apareceu na cozinha, limpando as mãos no avental. Seus olhos, cansados de anos de trabalho em uma lavanderia industrial, brilharam ao me ver.
- Clarice, cara mia, por que chegou tão cedo? Aconteceu algo na contabilidade?
- Aconteceu tudo! - Joguei minha bolsa no sofá gasto e a abracei com tanta força que ela riu.
- Eu fui promovida, tia. Não sou mais estagiária. Vou ser a Secretária Executiva do Signor Moretti. Vou ganhar dez vezes mais!
Tia Maria deu um grito abafado, levando as mãos ao rosto. Para ela, Vincenzo Moretti era apenas um nome nos jornais, um grande empresário que dava empregos e mantinha a economia da Itália girando. Ela não sabia nada sobre a L'Ombra, sobre os códigos apagados ou sobre o olhar gélido de Dante Malvic. E eu faria de tudo para que ela continuasse sem saber.
- Dez vezes mais? Dio mio! - Ela me benzeu rapidamente. - Eu sabia que seu dom, essa sua cabeça maravilhosa, ainda ia nos salvar. O Signor Moretti deve ser um homem muito sábio para reconhecer o seu valor.
- Ele é... decidido - respondi, tentando afastar a imagem do rosto de Vincenzo tão perto do meu.
- Chega de conversa! - Tia Maria disse, tirando o avental com uma energia que eu não via nela há tempos. - Hoje não vamos comer sobras de polenta. Tenho uma reserva guardada para uma emergência, e essa é a melhor emergência da minha vida. Vamos jantar fora, Clarice. Naquela trattoria que você sempre olha pela vitrine.
- Tia, não precisa usar suas economias, eu vou ganhar...
- Shh! - Ela me calou com um gesto. - Hoje é por minha conta. Amanhã, quando o primeiro salário cair, você me devolve.
Enquanto eu me arrumava, olhando para o meu único vestido um pouco mais elegante, uma promessa se firmava na minha mente.
Eu olhava para os móveis descascados e para as contas de luz empilhadas na mesa da cozinha e jurava a mim mesma: devolveria cada centavo para aquela mulher. Daria a ela uma casa onde o teto não vazasse, roupas de seda e todo o descanso que ela nunca teve.
Saímos de braços dados pelas ruas de paralelepípedos. O jantar foi mágico. O gosto do vinho tinto, o risoto de açafrão perfeito, o riso da minha tia... Por algumas horas, eu esqueci o aviso de Malvic.
Esqueci que era um "alvo". Era apenas uma jovem de vinte e três anos celebrando o mérito que tanto persegui.
Mas, ao voltarmos para casa, notei um carro preto estacionado na esquina. Um sedã escuro, com vidros fumê, que parecia deslocado naquela rua simples. Meus olhos, condicionados a não esquecer nada, registraram a placa: MN 042 DX.
- Algum problema, querida? - perguntou minha tia, percebendo que parei por um segundo.
- Nenhum, tia. Só o cansaço. - Sorri, mas um calafrio percorreu minha espinha.
Vincenzo tinha dito que eu estaria segura. Mas aquele carro não parecia proteção. Parecia uma vigília. Eu tinha subido ao topo do mundo em um único dia, e agora, o mundo estava começando a olhar de volta para mim.