Ela veio ao meu encontro, elegante em seu vestido de seda escura, portando aquele olhar de águia que nenhum dos meus rivais jamais conseguiu superar. Atrás dela, minhas irmãs, Bianca e Sofia, trocavam risos cúmplices enquanto folheavam catálogos que eu sabia, por experiência, que traziam problemas.
- Mamma - cumprimentei, beijando-lhe as mãos. - Onde está o pai?
- No escritório, com seu irmão - respondeu, arrastando-me em direção à sala de jantar. - Mas esqueça os negócios. Bianca e Sofia estão organizando os detalhes para o baile de outono.
Observei a mesa imensa, coberta de amostras de convites, rendas e listas de nomes das linhagens mais ricas da Europa. Uma náusea leve subiu pela minha garganta.
- Outra festa, Mamma? - perguntei, sem esconder o exaurimento.
- Não é apenas um evento, Vincenzo - Bianca interveio, com um brilho malicioso. - É uma vitrine. Nossa mãe quer que todas as "opções" estejam sob o mesmo teto.
Aquilo era uma forma ridícula de atrair noivas. Isabella estava obcecada em me ver casado, acreditando que uma esposa consolidaria o poder dos Moretti. Para ela, eu era um monarca que precisava de sucessão. Para mim, o matrimônio era uma corrente que eu não pretendia carregar.
- Eu não vou me casar, Bianca. Minha vida não é um leilão - disparei, ríspido.
- Todos os homens da nossa estirpe dizem isso até encontrarem a aliança certa - a voz grave do velho Don surgiu à porta.
Ao lado dele estava Matteo, meu irmão caçula. Ele era o meu oposto: leve e sorridente, mas com uma imprudência no olhar que me inquietava.
- Deixe o rapaz, Isabella - meu pai disse, embora houvesse um desafio em seu semblante. - O sistema foi restaurado.
- Graças àquela garota, não? - Matteo aproximou-se com um interesse que me fez retesar os músculos. - Ouvi dizer que a nova secretária é uma pequena gênia. Onde a encontrou, fratello? Na contabilidade ou em um sonho?
O comentário me enfureceu. A imagem de Clarice, com seu terno simples e olhar desafiador, brilhou em minha mente. Ela era o avesso das mulheres listadas naquela mesa. Não possuía joias, mas tinha uma mente que eu desejava dominar.
- Ela é uma funcionária, Matteo. Nada mais. Mantenha-se longe dos meus assuntos.
- Vincenzo, caro - minha mãe insistiu. - Apenas olhe a herdeira do Conde de Luca...
- Chega, Mamma. Tenho trabalho a fazer. Organizem o circo que quiserem, mas não escolherei uma esposa como quem avalia um cavalo de raça.
Subi as escadas sob o olhar desapontado deles. No quarto, o silêncio finalmente me envolveu. Olhei pela janela, sentindo que o que eu nutria por Clarice era perigoso. O desejo de trancá-la em uma gaiola de ouro e descartar a chave.
Eu ainda estava na sacada, o ar frio de Milão tentando esfriar o meu sangue, quando o meu celular pessoal vibrou. O nome de Dante Malvic brilhou na tela. Atendi imediatamente, esperando o relatório da vigilância.
- Dite, Malvic. Qual é o status? - perguntei, minha voz ainda dura pela discussão com minha família.
- Don... fomos... fomos emboscados - a voz de Dante veio falha, entrecortada por um gemido de dor e o som de metal batendo contra metal. - No bairro dela... os russos, eu acho... tentaram pegá-la. Eu lutei, Vincenzo... mas são muitos... eu fui atingido...
Meu coração parou por um milésimo de segundo. Dante Malvic, o homem que eu vi derrubar dez soldados sozinho sem despentear o cabelo, estava ferido? O homem que nunca havia sangrado ao meu lado em uma década de guerras?
- Onde ela está?! - rugi, já correndo em direção à porta e sacando minha arma.
- Ela correu... para os becos... estou tentando... - a ligação caiu em um chiado estático.
O pânico, uma emoção que eu desaprendi a sentir aos dez anos, inundou minhas veias. Desci as escadas da vila como um demônio. Ignorei os gritos da minha mãe e a confusão de Matteo. Eu só pensava naquelas ruas estreitas de Navigli, naqueles becos onde o brilho de Clarice seria extinto.
Eu já estava no carro, rasgando o asfalto a duzentos por hora, quando uma segunda chamada entrou. Era o número desconhecido.
- Clarice! - gritei no viva-voz. - Onde você está? Eu estou chegando!
- Vincenzo! - A voz dela veio num sussurro desesperado, entrecortado por uma respiração ofegante. - Vincenzo, escute... não confie nele! Não confie no Dante!
Eu freei o carro bruscamente, os pneus queimando contra o asfalto.
- Do que você está falando? Ele me ligou, disse que foi ferido tentando te proteger!
- É mentira! - Ela soluçou, e eu ouvi passos rápidos sobre paralelepípedos ao fundo. - Ele me abordou na rua... ele tentou me colocar à força naquele carro preto. Ele disse que eu era a "chave" dele para o trono. Eu consegui bater nele com a bolsa e correr quando ele se distraiu, eu acho que o machuquei no rosto, mas... Vincenzo, tem inúmeros homens atrás de mim! Estou escondida em um depósito de tecidos velho perto do canal, mas eles estão cercando o quarteirão! Eles têm armas... não são da empresa, são mercenários!
O sangue gelou. A traição de Dante era um golpe pior do que qualquer bala. Ele usou a própria mentira de estar "ferido" para me atrasar ou me levar para uma armadilha enquanto ele mesmo a sequestrava. Ele sabia da memória dela.
Ele sabia que ela era o backup vivo do meu poder.
- Clarice, escute bem - eu disse, minha voz agora num tom de calma mortal que precedia o massacre. - Fique onde você está. Não faça barulho. Eu vou queimar Milão inteira se for preciso, mas eu vou chegar até você.
- Eles estão entrando, Vincenzo! - ela gritou, e o som de uma porta de metal sendo arrombada ecoou pelo telefone. - Vincenzo, per favo...
A ligação caiu.
Pisei no acelerador com toda a fúria da linhagem Moretti. A simplicidade do bairro dela agora era o cenário de uma caçada. Dante Malvic achava que podia roubar o que era meu? Ele achava que podia tocar no meu tesouro e sair vivo?
Ele estava certo sobre uma coisa: Clarice não precisava de mim para ser um alvo. Mas ele cometeu o erro de esquecer que, para chegar até ela, ele teria que passar pelo homem que transformou a impiedade em arte.
Milão iria sangrar esta noite. E eu começaria por Dante.