Ela fixou seus olhos nos meus e foi como eu tivesse sido arrebatado para outra dimensão, onde existia apenas eu e ela.
E porra! Que conexão inexplicável era aquela?
Assim que tive sua prova em mãos, reparei em seu nome: Maria West.
Em meus sonhos, ela veio e me atormentou. Sonhei tendo ela debruçada sobre aquela mesa de sala de aula, sem me importar que outros estivessem ali e nos vissem. No sonho pude euvir seus gemidos enquanto ela gozava, mas em um certo momento em que ela olhou sobre o ombro, não era mais a jovem, mas sim a porra da minha ex, Aurora.
A irritação por ter sonhado com aquela vagabunda me tirou toda a probabilidade de ter um bom dia, então decidi evitar mais uma discussão sem fim com meu pai e ir direto para o escritório.
- Senhor Ricci, bom dia! - Martha saudou assim que me viu saindo do elevador.
- Buongiorno, Martha.
- Vou preparar o seu café, senhor. - Martha sabe que quando chegou bem antes do meu horário é porque provavelmente não tomei café em casa.
- Obrigado! - Desabotoei meu paletó assim que entrei em minha sala, me jogando na poltrona que ficava no canto da sala.
A voz de meu pai nunca está silenciada em minha cabeça, reiterando o tamanho da responsabilidade que tenho que assumir. Ser a porra do chefe. Cresci sendo treinado pra isso, houve um tempo em que eu estava excitado com essa ideia, mas agora, quando enfim a realidade está caindo sobre mim, eu só queria me enfiar em um buraco e sumir.
- As pastas com os dados das candidatas estão em sua mesa. - A doce voz de Martha me trouxe de volta a realidade, juntamente com o cheiro do café que me fez sentir água na boca.
- Certo!
Martha se sentou ao meu lado para passar minha agenda do dia. Essa deveria ser a função da nova secretária, já que Martha trabalha mais na parte empresarial e o que estou precisando urgentemente era de uma secretária pessoal.
- O senhor tem reunião às quatro com o comitê trabalhista para discutir os novos projetos selecionados aos novos empregadores.
- Remarque essa para a próxima sexta, por gentileza. Preciso ler mais uma vez o contrato, há algumas cláusulas que são infundadas e que tem que ser refutadas.
- Ok! Às seis o senhor terá uma reunião para remanejar o quadro de funcionários da Gossip, a nova empresa que o senhor comprou.
- Certo.
- Aqui estão os currículos. - Estendi o braço e peguei a pasta parda, abrindo para olhar os currículos.
- Alguma indicação? - Sinalizei para a pasta em minhas mãos com o queixo e Martha estreitou os olhos para lembrar. Isso é quase um tique seu.
- Tem uma candidata que gostei do perfil dela, não sei, senti uma boa aura. O Senhor sabe que sou mais ligada com esse negócio de energia. - Assenti- Candidata número quatorze.
Fui direto para o número e praticamente tive uma síncope, porque bem ali estava o currículo de nada mais nada menos que Maria West, a aluna de Romeo que fodeu com a minha mente desde que a vi.
- Martha, a senhorita Maria West
- Achou ela muito jovem e sem experiência para a vaga? - pergunta se retraindo.
- Não. Ligue para ela e peça que venha o quanto antes.
- Claro, senhor.
- Desmarque com as outras candidatas, por favor.
- Mas...
- A vaga é da West - sentencio e ela não questiona mais nada.
Martha concordou e se levantou em seguida, me deixando sozinho na sala.
Caminhei até minha mesa e abri o notebook, precisava revisar alguns processos de alguns milionários envolvidos em nosso comércio ilegal. Esses casos são pré-selecionados por mim e repassados a Romeo.
Tentei manter o foco no trabalho nas duas horas que se seguiram, mas a universitária tomou conta de meus pensamentos. Algumas vezes cheguei a ler três vezes o mesmo parágrafo para conseguir compreender o texto, de tanto que estava disperso após lembrar dela.
Fiquei concentrado em um processo até que o Romeo entrou na minha sala.
- Não te ensinaram a bater antes de entrar? - resmunguei.
Romeo deu de ombros.
- Semana que vem vai ter um leilão, vamos?
- Não, tenho outros planos.
- Qual?
Nesse momento, Martha bateu na porta e assim que a abriu, me avisou que a senhorita West me aguardava.
Um sorriso surge nos meus lábios.
- É sério? - Romeo perguntou. - Vai sair com uma ragazza?
- É uma entrevista. Preciso de uma secretária, não é mesmo?!
- Até que enfim. Martha anda meio irritada e aquela mulher de mau-humor é um saco. - Bufou - Ontem pedi para ela pedir meu almoço e ela perguntou se meu celular estava carregado. - Não aguentei ver a cara de derrota de Romeo e gargalhei.
- Ela é a secretária responsável por assuntos da empresa, não particulares.
- A Anna pedia.
- Porque ela tinha uma quedinha por você.
- Ela é casada, Matteo.
- Sinônimo de casada não é morta. - Levantei, indo até meu primo, que fez o mesmo que eu e envolvi seu pescoço com meu braço - Agora, se você me dá licença, preciso entrevistar uma nova secretária.
- É solteira? Porque espero que seja gostosa.
Meu maxilar travou na mesma hora. Porra ele é seu professor, será que já aconteceu algumas coisas entre eles? Não. Romeo é muito sério com sua mentoria, ele jamais se envolveria com uma aluna.
- Cai fora! - O empurrei pela porta, fechando logo em seguida, escutando seus xingamentos abafados do outro lado.
***
Romeo me encarou e riu quando Maria saiu da minha sala.
- Você está interessado na minha aluna? - questionou.
- Não, ela não faz o meu tipo - menti.
- Ah! Matteo! Conta outra - debochou.
- Não seja idiota, Romeo - bufei, esfregando os olhos como desculpa para tentar disfarçar minha irritação por ele conseguir me enxergar tão bem. - Avaliei todas as candidatas, tá bem? Ela parece ser a mais apropriada nesse momento.
- Espero realmente que seja isso, porque Maria é uma aluna exemplar.
- Quando foi que eu envolvi prazer com trabalho, Romeo?
- Preciso listar a quantidade de idas aos puteiros da famiglia?
Dispensei ele com uma mão e me levantei, apoiando as mãos em minha cintura.
- Que boceta é essa sua com ela, que dá abracinhos e a chama pelo primeiro nome? Sei que somos italianos e nosso costume é mais "liberal" - Fiz aspas com os dedos, enquanto me apoio em minha mesa - , mas para os americanos isso é questão de ter bastante intimidade.
- Sou tutor de Maria a dois anos...
- E por que não a incorporou entre os estagiários na última chamada? Ela foi a única aluna a gabaritar sua prova. E até eu tive que pensar bastante tempo para resolver aquela simulação de caso.
Romeo abriu a boca para me responder, mas fomos interrompidos por três batidas em minha porta e autorizei a entrada.
- Desculpa interromper vocês, mas chegou essa encomenda para o Senhor Matteo.
Martha me passou uma pequena caixa, um pouco maior que um palmo.
- Quem me enviou?
- Não sei, Senhor, mas passamos pela inspeção antes de trazê-la para cá.
- E o que há dentro?
- Eu não sei dizer, mas depois da inspeção, Richard - o responsável pela segurança do prédio - , não quis me dizer o que tinha dentro, que era melhor o senhor descobrir por si só.
- Ok. Obrigado, Martha.
Depositei o objeto sob a mesa e dei a volta pra sentar na minha cadeira, mas antes que eu pudesse puxar o embrulho para mim, Romeo já o abriu.
- Che Cazzo è questo? - Se exaltou e colocou uma das mãos na boca, com os olhos levemente arregalados.
- O que foi?
- Parece que a Lisa vai se casar! - Meu queixo deve ter caído no chão e Romeo riu da minha cara,
Recolhi o embrulho, tirando dele o convite para o jantar de noivado em nome da Lisa e Noah. Porra. Ela não pode fazer isso.
Olhei mais uma vez o embrulho e retirei de dentro o Rolex e vi um bilhete escrito a mão cair sobre a mesa. Romeo se inclinou para frente, como bom fofoqueiro que é e lancei um olhar de advertência. Ele, sem falar nada, levantou as mãos em rendição, sacando do bolso do casaco o celular.
Reconheci os traçados da escrita da Lisa, em italiano:
"Olá, mio caro, você deve ter levado um susto agora. E sinto muito por isso. Na verdade, não sinto. Você deveria estar aqui, Matteo.
Mas a vida é como os ponteiros desse relógio. Para você o tempo parou, mas para mim não. Por isso, não posso mais esperar você.
Com amor, Lisa."
Romeo jogou-se na poltrona à minha frente.
- Merda! - Joguei o envelope em cima da mesa.
- O quê? Não vai dizer que você pretende reconquistá-la?
- Se eu não conseguir um casamento por contrato, ela seria minha primeira opção, por mais que ela seja vazia e eu não tenha sentimentos - afirmei.
- Matteo, vamos ao club, lá você consegue um contrato e a arrematada pode ser exclusiva por um período de um ano.
- Você acha que uma desconhecida vai querer me dar um herdeiro? - Massageei as têmporas.
- Com um bom acordo, quem não?
- Vou reconquistar a Lisa, ela é fácil de manusear.
- Tudo bem! Você é quem sabe. - Romeo deu de ombros.
O fato de usar a Lisa apenas como uma foda me fez perdê-la, talvez o meu pai tivesse razão e ela seja a opção perfeita, mas o fato dela ser vazia me incomoda.