Era um silêncio carregado de expectativa e, em alguns cantos, de um medo indisfarçável.
Ela subiu para o mezanino, onde a equipe de desenvolvimento e o conselho administrativo já a aguardavam. O ambiente era aberto, longe das salas de carvalho e mármore do império de Caio Moretti. Aqui, a transparência não era uma palavra em um folheto institucional; era a arquitetura do lugar. Helena parou diante de sua equipe, sentindo os olhos de profissionais que haviam abandonado cargos estáveis em gigantes multinacionais para acreditar na sua visão de uma tecnologia mais humana e ética.
- Eu sei o que vocês leram nos portais de notícias desde ontem - começou Helena, sua voz firme ecoando sem a necessidade de microfone. - E sei que muitos aqui estão fazendo cálculos mentais sobre o que aquela oferta do Grupo Moretti significaria para suas carreiras e contas bancárias. Caio Moretti não tentou apenas comprar uma empresa; ele tentou comprar a nossa alma operacional.
Um dos investidores minoritários, um homem chamado Alberto, que sempre tivera os olhos mais voltados para os dividendos do que para os algoritmos, limpou a garganta.
- Helena, precisamos ser realistas. A proposta dele cobre o nosso valuation de cinco anos em apenas um pagamento. É uma saída estratégica que a maioria dos CEOs mataria para ter. Recusar publicamente daquela forma... não foi apenas arriscado, foi um convite para uma guerra que talvez não consigamos financiar.
Helena caminhou até a mesa de conferências, apoiando as mãos no encosto de uma cadeira. Ela olhou para Alberto, mas seu discurso era para todos.
- Uma guerra de desgaste é exatamente o que ele espera, Alberto. Caio Moretti enxerga o mercado como um território a ser ocupado. Se aceitássemos, a DuarteTech se tornaria um departamento de manutenção dentro de um conglomerado que não entende nada sobre a nossa arquitetura de proteção de dados. Em seis meses, nossos melhores talentos seriam substituídos por processos automatizados e nossa ética seria diluída em busca de margens de lucro imediatas. Eu não fundei esta empresa para ser uma subsidiária de luxo de um homem que acha que o mundo é seu playground pessoal.
- Mas ele vai nos cercar - interveio uma jovem desenvolvedora, a voz trêmula. - Eu ouvi que ele já está entrando em contato com nossos fornecedores de nuvem.
- Deixem que ele tente - respondeu Helena, com um sorriso que não era de arrogância, mas de absoluta confiança técnica. - Nós não somos dependentes de uma única infraestrutura. O que nos torna valiosos não é o hardware que usamos, mas a inteligência que criamos. Se ele fechar uma porta, nós já temos o código para abrir três janelas. A DuarteTech nasceu da minha recusa em aceitar que a tecnologia deve ser fria e predatória. Dignidade não se negocia, e a independência deste projeto é o que garante que nenhum de vocês precise baixar a cabeça para um ego inflado que nunca escreveu uma linha de código na vida.
A reunião fluiu para ajustes técnicos e planos de contingência, mas o recado estava dado. Helena passou o restante da manhã mergulhado em planilhas de fluxo de caixa e revisões de contratos. Ela sabia que a retaliação de Moretti seria cirúrgica. Ele usaria o sistema bancário, a influência política e o peso de sua marca para tentar sufocá-la. No entanto, enquanto revisava as linhas de defesa do seu software principal, ela sentia uma clareza que só o conflito real traz. Ela se lembrava de cada degrau que subiu, desde os primeiros dias em uma garagem mal ventilada até o prédio na Vila Olímpia. Cada oferta de "venda sua ideia e venha trabalhar para nós" que ela recusara ao longo dos anos a havia preparado para este momento.
À tarde, Helena reuniu-se com seu diretor financeiro, um homem de confiança chamado Ricardo. O semblante dele estava pesado.
- Helena, os grandes bancos já estão retirando algumas linhas de crédito pré-aprovadas. O dedo de Moretti está em todo lugar. Ele está movendo o mercado como se fosse um tabuleiro particular.
- Eu esperava por isso, Ricardo. Use as reservas que acumulamos no semestre passado. Vamos operar de forma enxuta, mas absoluta. Se ele quer nos testar pela fome, ele vai descobrir que sabemos jejuar melhor do que ele imagina. Prepare os investidores que estão conosco pelo propósito. Quem estiver aqui apenas pelo dinheiro de Moretti, pode sair agora. Eu prefiro uma equipe pequena e leal a um exército de mercenários prontos para desertar no primeiro tremor.
Quando o sol começou a se pôr, tingindo o céu de São Paulo de um laranja metálico, Helena finalmente permitiu-se um momento de solitude em sua sala. Ela olhou para a vista, a mesma cidade que Caio Moretti acreditava ter aos seus pés. O telefone brilhou sobre a mesa com uma mensagem de um número desconhecido. Ela não precisou abrir para saber de quem era, mas ao ver o conteúdo, sentiu um calafrio que não era de medo, mas de uma antecipação perigosa.
"Tudo tem uma rachadura, Helena. Algumas são financeiras, outras são pessoais. Eu vou encontrar a sua."
Ela bloqueou a tela com um movimento seco. A tentativa de intimidação de Caio era quase previsível, um roteiro de vilão que ele executava com perfeição. O que ele não entendia, em sua redoma de bilhões, era que ela já havia enfrentado rachaduras muito mais profundas do que qualquer crise de mercado. Helena sabia que sua força não vinha do que ela possuía, mas do que ela estava disposta a perder para não se corromper.
Ao sair da empresa naquela noite, recusando o motorista particular e optando por dirigir seu próprio carro, ela sentiu a cidade pulsar ao seu redor. São Paulo era bruta, barulhenta e impiedosa, exatamente como os métodos de Moretti. Mas, ao segurar o volante com firmeza e ajustar o retrovisor, Helena viu a silhueta da DuarteTech ficando para trás, ainda iluminada e ainda sua. Ele achava que podia comprá-la porque nunca havia conhecido alguém que não tivesse um preço. Ela sabia que a verdadeira batalha não seria travada em bolsas de valores, mas na resistência de sua própria vontade. Caio Moretti queria sua empresa como um troféu, mas ela garantiria que, se ele quisesse mesmo chegar perto dela, teria que aprender que o poder sem consciência é a prisão mais cara do mundo. Por enquanto, a bandeira da independência ainda estava hasteada, e o código que ela escrevia era um que ele jamais conseguiria decifrar.