Caio estava de pé, de costas para a porta, observando o caos ordenado de São Paulo através da parede de vidro. Ele não se virou de imediato. O som dos saltos dela contra o piso de granito era um código que ele já havia decifrado. Ele permitiu que o silêncio se estendesse por cinco segundos deliberados, saboreando a fúria que emanava da mulher atrás dele antes de girar lentamente sobre os calcanhares.
- Você costuma invadir propriedades privadas com essa mesma energia de quem está prestes a declarar uma guerra santa, Helena? - perguntou Caio, a voz baixa, carregada de uma calma que ele sabia ser irritante. Ele não usava paletó; as mangas da camisa branca estavam dobradas até os antebraços, revelando um relógio que custava o PIB de uma pequena cidade e a tensão nos seus músculos.
- Você sabe exatamente por que estou aqui, Caio. Guarde o cinismo para os seus amigos do Jockey - Helena avançou até parar a poucos centímetros da mesa dele. Ela não carregava papéis, apenas o peso de sua indignação. - Eu vim olhar no seu rosto enquanto pergunto: você realmente se acha tão pequeno que precisa sabotar fornecedores de nuvem e estrangular linhas de crédito bancário para conseguir o que quer? É esse o tamanho do seu império? Uma castelo construído com tijolos de covardia?
Caio deu um passo à frente, contornando a mesa. Ele não recuou diante da proximidade dela. Pelo contrário, usou sua altura para tentar cercá-la no espaço físico da sala. O perfume dela - algo cítrico e amadeirado, longe das fragrâncias doces e óbvias das mulheres que costumavam frequentar aquele andar - atingiu seus sentidos como um aviso de perigo.
- Eu chamo isso de mercado, Helena. Você deveria conhecer as regras, já que gosta tanto de brincar de ser dona de empresa - ele respondeu, a voz perigosamente próxima do ouvido dela. - O que você está sentindo não é covardia. É a gravidade. Eu sou o centro de massa deste setor, e você está tentando orbitar fora do sistema. Eventualmente, as coisas colidem.
- Você não é a gravidade, Caio. Você é apenas um ruído - ela sibilou, os olhos castanhos faiscando com uma intensidade que o obrigou a sustentar o olhar com mais esforço do que pretendia. - Você acha que me isolar vai me fazer correr para o seu colo implorando por uma fusão? Você está estrangulando os seus próprios princípios, se é que algum dia teve algum. Bloquear meus servidores e processar minhas patentes com argumentos pífios não é estratégia de negócios. É birra de um homem que não sabe ouvir "não".
Ele riu, um som seco e sem humor, enquanto se aproximava ainda mais. A tensão entre os dois era palpável, uma corda esticada ao limite. A hostilidade mútua agia como um catalisador para algo que nenhum dos dois queria admitir: uma atração bruta e inegável que nascia do atrito de dois egos colossais. Helena podia sentir o calor que emanava do corpo dele, e Caio notou o ritmo acelerado da respiração dela, o subir e descer suave do peito sob o tecido fino da blusa de seda.
- O "não" é apenas um atraso, Helena. Nada neste mundo é absoluto, exceto a rendição final - Caio disse, reduzindo a distância entre eles até que as pontas de seus sapatos se tocassem. - Você veio até aqui porque está assustada. Porque percebeu que a sua "integridade" não mantém as luzes acesas quando eu decido apagá-las.
- Eu vim aqui porque queria ver se ainda restava alguma sombra de homem por trás desse título de CEO - Helena rebateu, recusando-se a dar um único passo atrás. Ela ergueu o queixo, desafiando a intimidação física dele. - Mas vejo que só existe um menino mimado com uma conta bancária grande demais. Você quer a DuarteTech? Então tente vencê-la no campo do desenvolvimento, da inovação, do código. Mas você não consegue, não é? O seu cérebro só entende de destruição, nunca de criação.
Caio levou a mão à mesa, inclinando-se sobre ela, o rosto a centímetros do dela. A hostilidade no olhar dele se misturou a algo mais sombrio, uma curiosidade predatória. Por um instante, o mundo fora daquela sala deixou de existir. Não havia mercado, não havia ações, não havia fornecedores. Havia apenas o desafio estático entre homem e mulher.
- Você é exaustiva, Helena. E fascinante - ele confessou, a voz num sussurro que vibrou contra a pele dela. - Você luta contra mim como se estivesse defendendo a sua própria vida. Mas nós dois sabemos que, no fundo, essa raiva toda é apenas o seu jeito de lidar com o fato de que eu sou o único nesta cidade que realmente te enxerga. O único que pode te dar o mundo que você merece governar ao meu lado, e não contra mim.
- Eu nunca vou estar ao seu lado, Caio. E se você acha que essa tensão barata que você tenta criar vai me distrair do fato de que você é um predador medíocre, você se subestima - ela sentiu um arrepio percorrer sua espinha, mas sua voz não falhou. - O que você sente por mim não é reconhecimento. É desejo de posse. E você nunca vai me possuir. Nem a mim, nem à minha empresa.
Ela se afastou bruscamente, quebrando o feitiço do momento. A distância trouxe de volta o ar gelado do escritório e a clareza da guerra em curso. Caio permaneceu parado, os dedos ainda pressionando a borda da mesa, sentindo o vazio que a proximidade dela havia deixado.
- O cerco não vai parar, Helena - ele avisou, voltando ao tom profissional, embora seus olhos ainda queimassem. - Isso só termina quando você assinar o contrato. Ou quando não restar pedra sobre pedra do que você chama de império.
- Então prepare os seus advogados e as suas malas, Moretti - ela caminhou em direção à porta, parando apenas por um segundo para olhar por cima do ombro. - Porque eu prefiro governar sobre ruínas a ser rainha no seu palácio de mentiras. Você acha que me isolou no mercado, mas a única pessoa isolada aqui é você. Sozinho com o seu dinheiro, esperando que alguém venha te amar sem que você precise pagar por isso.
Ela saiu com a mesma força com que entrara, deixando a porta aberta. Caio ficou em silêncio por um longo tempo, ouvindo o som dos passos dela desaparecendo no corredor. Ele levou a mão ao pescoço, sentindo o pulsar acelerado da própria veia. O confronto o deixara mais vivo do que qualquer transação bem-sucedida em meses. Ele acabara de sentir o gosto da resistência pura, e isso o excitava mais do que a perspectiva do lucro. Helena Duarte não havia vindo para negociar; viera para demarcar território. E ao fazer isso, ela transformara uma disputa comercial em algo pessoal, visceral e perigoso. O cerco invisível agora tinha um rosto e um perfume, e Caio Moretti nunca desejara tanto ver uma fortaleza cair, apenas para ter o prazer de ver o que aconteceria quando Helena não tivesse mais nada para defender além de si mesma.