"Não diga!", Dante rugiu. "Ela é uma criança humana e fraca! Se eu a reivindicar, os Anciões a despedaçarão! Estou fazendo isso para protegê-la!"
"Você está a protegendo até a morte", disse Guilherme.
Saí para o terraço.
Isabella estava no centro das atenções em um vestido vermelho-sangue. Ela me viu e sorriu com desdém.
Ela se aproximou, fingiu um tropeço e derramou seu vinho em mim.
"Ops", ela riu. "Olhe para você. Limpando a bagunça. Combina com você."
Ela me empurrou. Com força.
Escorreguei na pedra molhada e caí para trás, na lama e na chuva.
Dante saiu correndo.
"O que aconteceu?"
"Ela me empurrou!", Isabella chorou. "Ela tentou me atacar!"
Dante olhou para mim, tremendo na lama, a coleira brilhando. Ele sabia que ela estava mentindo.
Mas ele era o Alfa. Ele não podia ficar do lado da serviçal contra a Luna.
"Levante-se", ele latiu. "Suma da minha vista."
Ele tirou o paletó.
Meu coração fez uma coisa estúpida e esperançosa.
Ele o envolveu em torno de Isabella.
"Vamos entrar, amor."
Eles viraram as costas.
Fiquei deitada na lama. O frio se infiltrando na medula.
Bzzzz.
Meu celular descartável.
Fronteira aberta. Setor 4. Meia-noite.
23:00.
Levantei-me.
Uma onda de calor me atingiu. Não era a prata. Era interno.
Meu sangue ferveu. Ossos rangeram. Minha visão se aguçou, rastreando gotas de chuva individuais.
Minhas unhas se alongaram em garras.
Agora não.
Mas minha loba não estava mais se escondendo. Ela estava acordando.
A febre aumentou. Eu não estava tremendo de frio; estava tremendo de poder.
"Feliz aniversário, Dante", sussurrei.
Corri para a floresta.
Eu não corri como uma humana. Movi-me com uma velocidade impossível.
Eu estava correndo em direção aos Renegados.
Eu não era mais Sofia, a órfã. Eu era a tempestade.
A lama estava escorregadia, mas eu não caí.
Eu havia esfregado a pasta de acônito nos meus pulsos e tornozelos. Anestesiou minha pele e deixou minha loba lenta, mas para as patrulhas, eu cheirava a musgo molhado.
Cheguei à cerca do perímetro. Quatro metros de altura, eletrificada.
Eu conhecia o ponto fraco. Coelhos cavavam sob a fundação perto do cano de drenagem.
Rastejei pela lama. O concreto arranhou minhas costas.
Saí do outro lado.
Liberdade.
Um sedan preto esperava na estrada de acesso.
Corri. Minhas pernas queimavam com a febre da transformação.
Uma sombra se destacou das árvores.
Um lobo.
Guarda de patrulha. Uma besta marrom enorme, rosnando, bloqueando meu caminho.
Ele se agachou. Ele me reconheceu. O animal de estimação do Alfa.
Ele abriu as mandíbulas para uivar.
Não.
Eu não me encolhi.
Parei. A febre subiu mais quente que a prata.
"Saia", eu disse.
Não foi um grito. Foi uma vibração. Imitei o tom que Dante usava quando comandava as legiões. Joguei cada grama da minha raiva reprimida na minha aura.
Uma onda de energia explodiu para fora.
O lobo marrom congelou. Ele choramingou. O instinto superou o dever. Confrontado com a frequência de um predador superior, ele se submeteu.
Ele recuou, com o rabo entre as pernas, a barriga na lama.
Não questionei. Mergulhei no carro.
"Vai!"
Aceleramos em direção à rodovia.
Atravessamos a fronteira territorial.
Deixar uma Alcateia não é como cruzar fronteiras estaduais. É uma amputação espiritual.
Snap.
"Argh!", arfei, agarrando meu peito.
O gancho foi arrancado da minha alma. O zumbido de fundo da Alcateia desapareceu.
Silêncio. Frio, silêncio solitário.
Mas então... oxigênio.
Pela primeira vez em dez anos, eu podia respirar.