Ponto de Vista de Sofia:
O voo foi um borrão de turbulência e sonhos febris.
Aterrissamos em Toronto. O ar era cortante, cheirando a gelo e terra antiga.
Um comboio esperava.
Um homem saiu do SUV da frente. Mais velho, cabelos escuros com fios de prata, irradiando poder.
Marco Rossi. Alfa da Lua de Sangue. Meu pai.
Desci do avião. Pernas tremendo, o acônito perdendo o efeito.
Marco parou a um metro e meio de distância. Ele inspirou.
A biologia não mente.
"Sofia", ele sussurrou. Voz como cascalho.
Ele estendeu a mão.
Então o vento mudou.
Ele congelou. Narinas dilatadas. Olhos ficaram vermelhos selvagens.
Ele sentiu o cheiro da prata.
Ele olhou para o meu pescoço. A coleira havia escorregado, revelando o anel em carne viva e purulento.
"QUEM FEZ ISSO?"
O rugido sacudiu as janelas do jato. Pura violência.
"Moretti", ele rosnou. "Eu vou matá-lo. Vou queimar a cidade dele até as cinzas!"
"Alfa", uma voz calma interrompeu.
Um homem mais jovem, de casaco de tweed, se aproximou. Óculos. Cheirava a sálvia e antisséptico.
Guilherme Sterling. O Beta.
"Ela está ferida, Marco. Vingança depois."
Guilherme olhou para mim. Não com pena, mas com preocupação clínica.
"Você está queimando em febre. Envenenamento por prata lutando contra a primeira Transformação. Precisamos ir para o refúgio."
"Estou bem", grasnei.
"Você está segura agora, pequena loba", disse Marco, a raiva se transformando em uma proteção feroz. Ele envolveu seu casaco pesado em mim. Tabaco e couro. Pai.
Apoiei-me nele.
A adrenalina despencou. O mundo girou.
Pontos pretos dançaram.
Senti braços fortes me segurarem antes que eu atingisse o concreto.
Ponto de Vista de Dante:
A festa foi um desastre.
Meu lobo andava de um lado para o outro no meu peito, arranhando as costelas.
Eu não via Sofia há horas.
"Onde ela está?", perguntei a um empregado.
"Não a vejo desde que ela... caiu, Alfa."
Um nó frio no estômago. Passei por Isabella.
Subi as escadas de dois em dois degraus.
O quarto dela.
"Sofia!"
Silêncio.
Apertei o interruptor.
Vazio.
Não apenas desocupado. Limpo. Prateleiras nuas. Armário vazio.
O ar cheirava a água sanitária. Ela havia se apagado.
"Não", sussurrei.
Na escrivaninha, uma única folha de papel de desenho.
Desenho a carvão. Um lobo preto - eu - e um lobo branco em um penhasco.
No canto inferior: Vida longa ao Rei.
E em cima do papel... a coleira.
Manchada de sangue e pus. Tiras de pele presas na filigrana.
O cheiro me atingiu. Não era baunilha. Sofrimento. Carne queimada. Infecção.
Deixei a coleira cair como se fosse radioativa.
Ela não tinha apenas fugido. Ela tinha se arrastado para fora.
Janela aberta. Chuva encharcando o chão.
"ALARME!", rugi. O Comando estilhaçou o vidro da janela.
"Isolem a propriedade! Encontrem-na!"
Meu lobo soltou um som de desolação absoluta.
Ela não estava se escondendo na floresta.
O laço estava silencioso. Ela tinha ido embora.