A clareza era uma lâmina afiada, cortando anos de autoengano. Amanda Campos não era apenas uma ex-namorada qualquer. Ela era o amor de colégio de Ricardo, seu "primeiro amor", a garota com quem ele deveria se casar antes que a fortuna de família tradicional dele evaporasse da noite para o dia. Quando os Dorsey perderam tudo, Amanda não hesitou. Ela desapareceu, sua família retirando seus investimentos e deixando Ricardo para navegar pelos destroços sozinho.
Eu me lembrava da ligação de Ricardo, cinco anos atrás. Sua voz estava quebrada, crua. Sua família estava enfrentando a falência, sua grande propriedade prestes a ser hipotecada. Eles ligaram para a família de Amanda primeiro, é claro, mas foram recebidos com um silêncio frio. Ricardo estava à deriva, um homem bonito, mas inseguro, despojado de seu status herdado, de coração partido e humilhado.
Foi quando eu entrei em cena. Eu já era uma neurocirurgiã em ascensão, ganhando um bom dinheiro, mas ainda não a profissional de sete dígitos que sou hoje. Eu fiz um empréstimo multimilionário usando meus ganhos futuros como garantia, um acordo privado e legalmente vinculativo que eu mantinha trancado no meu cofre. Paguei as dívidas deles, salvei a propriedade de ser loteada e forneci um pouso suave para seus pais e irmã. Ricardo ficou grato, profundamente grato. Eu acreditei, ingenuamente, que essa gratidão floresceria em amor, uma parceria real. Eu acreditei que o amor poderia ser construído sobre tal fundação. A família dele, no entanto, sussurrava que ele só se casou comigo pelo meu dinheiro, uma verdade mordaz que eu sempre afastava.
Agora, parada aqui, observando-os bajular Amanda, a mulher que os abandonou, ficou claro. Eles me deviam tudo. Absolutamente tudo.
Eu praticamente criei Juliana. Desde pagar a mensalidade exorbitante do colégio de elite quando a família dela não podia mais arcar, até financiar sua vida de luxo na faculdade particular. Quando ela expressou inveja das bolsas de grife de suas amigas, eu comprei a última Chanel para ela. Quando ela reclamou de dividir um carro, eu comprei um SUV de luxo para ela. Eu era sua mãe substituta, sua fada madrinha, sua fonte inesgotável de recursos.
E Heitor e Cecília? Eles viviam na minha casa de hóspedes, uma propriedade mais luxuosa do que sua antiga e falida fazenda. Eu pagava por seus funcionários, suas compras orgânicas, suas matrículas em clubes de golfe de alto padrão. Quando Heitor precisou de um novo carro clássico para sua coleção, eu comprei. Quando a saúde de Cecília piorou, eu paguei pelos melhores especialistas e tratamentos experimentais, levando-os em voos particulares para clínicas em todo o mundo. Nossa casa principal, a que eu possuía integralmente, custava uma fortuna para manter – IPTU, contas, a equipe doméstica, a jardinagem. Eu pagava por tudo. Eu era o caixa eletrônico pessoal deles, sua linha de vida privada. Usei minha extensa rede no mundo médico e empresarial para garantir seu conforto, sua saúde, sua própria existência. Meu trabalho era exigente, muitas vezes requerendo 80 horas semanais, mas eu seguia em frente, impulsionada por um senso equivocado de amor e obrigação.
Mas agora, vendo-os receber Amanda, a mulher que os deixou afundar, na minha casa, na minha viagem, e depois sacrificar minha segurança pela dela... a raiva era um ácido queimando dentro de mim.
Amanda se aproximou, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios. "Helena, querida", ela arrulhou, sua voz pingando falsa doçura. "Sinto muito pelo seu voo. O Ricardo me contou. É uma pena, mas sabe como é, família em primeiro lugar." Ela gesticulou para o clã Dorsey, que assentiu em concordância, uma frente unida e presunçosa.
Juliana riu, aninhando-se em Amanda. "É, Helena. Tipo, finalmente, alguém que realmente nos entende. Você é sempre tão... séria." Ela olhou para Amanda com adoração, como um cachorrinho encontrando seu mestre há muito perdido. "A Amanda sempre foi muito mais divertida. Não é à toa que o Ricardo ainda fala dela."
Os olhos de Amanda piscaram para os meus, um brilho triunfante neles. Ricardo e sua família apenas sorriram, confirmando sua cumplicidade nesta humilhação. Eles não se importavam que eu estivesse sendo enviada em uma rota perigosa. Eles não se importavam com a minha vida. Eu era apenas a máquina de lavar dinheiro.
Ricardo, sentindo a tensão, tentou me apaziguar. "Helena, olha, são só algumas horas. Quando você chegar lá, eu te compro aquele relógio super caro que você gostou. Aquele com os diamantes."
Eu olhei para ele, meu olhar congelante. "Ricardo. Me diz uma coisa. Você tem cinco milhões de reais, em dinheiro, pra me dar agora?"
Seu queixo caiu. "O quê? Helena, do que você está falando?"
"Dinheiro. Cinco milhões. Você pode simplesmente me dar um cheque?"
"Não! Claro que não! Por que você perguntaria isso?" Ele gaguejou, seu rosto empalidecendo. A súbita exigência de dinheiro tangível, do meu dinheiro, o abalou. Ele estava acostumado a eu pagar silenciosamente por tudo, não a exigir um saque direto.
"Porque foi isso que eu investi nesta família nos últimos cinco anos", afirmei, minha voz desprovida de emoção. "É o quanto custa para manter seus pais no 'anexo' deles, para financiar o estilo de vida da Juliana, para manter você com roupas de grife e uma academia de 'bem-estar de boutique' que mal se paga. Você não tem cinco milhões de reais. Você não tem nem cinquenta mil do seu próprio dinheiro."
Ele se encolheu, ferido pela verdade brutal. Sua família desviou o olhar, de repente achando o chão fascinante. Eles sabiam. Todos eles sabiam que sua renda miserável mal cobria suas despesas pessoais, muito menos sustentava uma família inteira. Seus clientes eram ricos, mas sua parte era sempre pequena. Ele era uma fachada, um rosto bonito, vivendo da minha generosidade infinita.
Um pensamento perigoso surgiu em minha mente. E se Amanda tivesse que sustentá-los? O que ela faria?
Cecília, sempre a mestra da manipulação, quebrou o silêncio. "Helena, querida, você deve estar cansada. Por que não vai fazer para nós aquela sua massa com trufas maravilhosa? A Amanda sempre adorou." Ela disse isso como se eu fosse sua chef pessoal, não a dona da casa e a única provedora de sua vida luxuosa. Então ela acrescentou, com um suspiro saudoso: "A Amanda costumava fazer os biscoitos mais deliciosos para o Ricardo. Ele os amava tanto."
Eu não me movi. Meu olhar estava fixo em Cecília, um desafio silencioso em meus olhos. "Cecília, acredito que você é perfeitamente capaz de fazer massa com trufas. Ou talvez a Amanda, já que ela é tão boa em 'fazer coisas' para o Ricardo, pudesse preparar algo para a família dela."
Eu me virei, caminhando calmamente para o banheiro da suíte. Podia ouvir seus murmúrios confusos atrás de mim. Olhei para o enorme e ornamentado espelho da penteadeira, uma peça que comprei em Florença. Preparei um banho, despejando óleos luxuosos que importei da França, do tipo que custava mais do que a mensalidade da academia "boutique" de Ricardo. Fiquei de molho, deixando o calor penetrar lentamente em meus ossos, tentando lavar a sensação de estar contaminada. Pensei nos milhões que derramei em suas vidas, nos anos da minha juventude, nos sacrifícios intermináveis. Eu era a galinha dos ovos de ouro deles, e eles estavam prontos para cortar minhas asas e me enviar em uma missão suicida.
Uma batida forte veio na porta. "Helena! O que você está fazendo? O jantar não está pronto!" A voz de Ricardo era áspera, carregada de impaciência.
Eu mal me dei ao trabalho de levantar a voz. "Cecília é perfeitamente capaz de cozinhar, Ricardo. Ou talvez a Amanda possa. Ela tem tanta história com a família, afinal."
"Helena, sua sogra não está bem!", ele sibilou através da porta.
Eu zombei. "Ah, é mesmo? A mesma mulher que estava agora mesmo se derretendo pela sua massa com trufas favorita e planejando férias de primeira classe? Engraçado como a 'doença' dela só parece surgir quando uma tarefa precisa ser feita."
"Helena, para de ser tão difícil! Apenas saia e cozinhe!"
"Não." Minha voz era firme. "Eu não vou cozinhar para eles. Nunca mais."
Ouvi um gemido frustrado, seguido por vozes abafadas. Eventualmente, os sons de panelas e frigideiras batendo relutantemente da cozinha confirmaram que Cecília, pela primeira vez em anos, estava cozinhando. Uma pequena e sombria satisfação floresceu em meu peito.
Mais tarde, revigorada e vestida com um roupão de seda, entrei na sala de jantar. O ar estava pesado com tensão e o cheiro de massa mal cozida. Juliana estava prestes a se sentar no meu lugar de costume na cabeceira da mesa, ao lado de Ricardo, com Amanda do outro lado dele.
"Helena, você pode sentar ali", Cecília estalou, apontando para uma cadeira solitária na extremidade oposta, longe do calor da família.
Olhei para o prato de massa sem graça. "Não, obrigada. Tenho outros planos."
Os olhos de Ricardo brilharam. "Outros planos? Que outros planos? Onde você vai?"
"Para algum lugar onde sou apreciada, Ricardo. Algum lugar onde minha vida não é considerada um bem descartável. Aproveitem a refeição. Não se preocupem, a conta do seu voo de primeira classe para Noronha ainda vai ser paga. Só não por mim."
Eu saí, deixando-os atordoados, o barulho de garfos caídos apressadamente ecoando em meus ouvidos. A porta da frente se fechou atrás de mim, o som um ponto final definitivo no fim de um capítulo longo e doloroso.