Ele se inclinou. Por um segundo horrível, pensei que ele me beijaria. Em vez disso, ele cheirou meu cabelo.
"Ainda dormindo", ele murmurou. "Bom."
Ele entrou no banheiro. O chuveiro ligou.
Meus olhos se abriram de repente.
*Mova-se*, a voz dentro de mim ordenou. *Cace.*
Deslizei para fora da cama. Fui para o corredor.
O escritório de Ivan era seu santuário. Protegido por uma fechadura biométrica e um teclado numérico.
Parei diante da pesada porta de mogno.
"Ele acha que você é estúpida", a voz na minha cabeça sibilou.
Olhei para o teclado. Ivan era arrogante. Ele não usaria um número aleatório.
Digitei a data: *18-12-05*. O aniversário de Léo.
A luz piscou verde. Bingo.
Entrei. Fui direto para o computador dele. Estava logado.
Não perdi tempo procurando uma pasta chamada "Planos Malignos". Ivan não era um vilão de desenho animado; ele era um homem de negócios. Eu precisava seguir o dinheiro.
Abri seus registros financeiros. Meu diploma em finanças, que Ivan sempre zombava como "fofo", finalmente era útil.
Examinei as transferências dos últimos cinco anos. Havia as despesas de sempre, mas um pagamento recorrente se destacava. Uma empresa de fachada chamada "Apex Consultoria", registrada em um paraíso fiscal.
Cruzei o número de registro da empresa. Era uma corporação fantasma. Mas os manifestos de envio associados a ela eram reais.
"Entrega de Aconitum. Extrato concentrado", sussurrei, lendo a nota fiscal. Aconitum. Acônito.
Então verifiquei as contas pessoais. Saques enormes. Em dinheiro.
Encontrei uma subpasta oculta em sua nuvem, disfarçada de declarações de imposto de renda. Dentro não havia impostos. Eram laudos médicos falsificados de uma clínica nos territórios dos Renegados.
*Assunto: Léo Reis. Potencial da Linhagem: Alfa Classe-S.*
E um teste de paternidade. *Pai: Alfa Ivan Hughes. Status: Positivo.*
Meu pai estava financiando o veneno. Ivan estava lavando o dinheiro para Kiara.
Senti a bile subir na minha garganta. Tirei um pequeno pen drive de prata do bolso do meu pijama.
Copiei tudo. O rastro financeiro, os manifestos de envio, os testes de DNA falsos.
A barra de progresso se arrastava. 98%... 99%... Concluído.
Arranquei o pen drive assim que ouvi o chuveiro desligar no fim do corredor.
Limpei o histórico recente, desliguei o monitor e saí.
Voltei para o quarto bem a tempo de a maçaneta do banheiro girar. Mergulhei na cama.
Ivan saiu, cheirando a sabonete e menta. Ele se deitou ao meu lado.
O celular dele vibrou. Ele verificou, uma pequena risada escapando de seus lábios.
Depois que ele adormeceu, estendi a mão e peguei o celular dele.
A mensagem era de um número não salvo. Uma foto de Kiara montada nos ombros de Ivan no parque de diversões da Alcateia.
Legenda: *Um Alfa pertence apenas a uma fêmea que pode gerar guerreiros. Sacrifique a mula, Ivan.*
Fiquei olhando para a tela. Uma mula. Estéril. Inútil.
Encaminhei cuidadosamente a mensagem para um endereço de e-mail descartável que criei anos atrás, e depois apaguei o registro de envio.
Coloquei o celular de volta no lugar.
Amanhã era a Reunião da Alcateia. Toda a Alcateia da Lua de Prata estaria lá.
Era o palco perfeito.
Fechei os olhos. Meu sangue parecia quente, como fogo líquido. O veneno estava perdendo a guerra.