Observando a cidade a partir da cobertura envidraçada, com as mãos escondidas nos bolsos de seu impecável terno, ele contemplava a noite se desdobrando como um manto familiar a seus pés. Os arranha-céus iluminados e o frenético movimento da vida urbana traçavam uma narrativa como um livro que os humanos jamais poderiam imaginar - a de quem realmente caminhava entre eles. Era desse modo que ele preferia viver.
- Prepare o jato, - disse em um tom baixo, firme e decisivo. O homem que o acompanhava permaneceu imóvel, não por impulso, mas em um gesto de lealdade, como um fiel escudeiro ao lado de um cavaleiro. Ele era o Beta, o único que ficava ao seu lado sem desviar o olhar.
- O jato está pronto, senhor. Partimos em quarenta minutos.
Roderick não se virou, mantendo os olhos fixos em seu reflexo no vidro, como um general que observa o campo de batalha antes da missão. Ele era um homem alto, quase medindo dois metros, cuja presença era tão imponente quanto a de um edifício em meio a arranha-céus. Embora seus ombros largos parecessem relaxados, eles escondiam um controle excepcional, semelhante a um maestro que, mesmo em uma pausa, espera pacientemente pelo momento certo para iniciar a sinfonia. Seus cabelos negros, levemente desgrenhados, estavam cortados em um comprimento equilibrado entre o curto e o longo, suficientemente domados para se adequarem ao rigor do ambiente corporativo, como um lobo que, embora selvagem, se adapta ao seu papel em uma alcateia. A barba aparada e o cavanhaque bem definido moldavam um rosto que, apesar da juventude, exibia a gravitas de experiências acumuladas ao longo do tempo, reminiscentes de um livro cujas páginas foram escritas com sabedoria adquirida.
- Quero ver o resort pessoalmente antes da inauguração, - declarou ele com convicção, como um capitão que exige uma inspeção antes de zarpar. - Não confio em relatórios quando se trata do meu território.
O Beta avançou um passo, permanecendo alerta, como um cão fiel que percebe o menor sinal de tensão.
- Tudo está conforme o planejado. A obra foi concluída antes do previsto e a segurança foi reforçada, sem qualquer sinal de movimentação suspeita nas redondezas.
Roderick virou-se lentamente, seus olhos âmbar- quase como uísque- encontrando os do Beta.
- E os guardiões? - Essa questão sempre foi essencial, como a fundação de um edifício que garante sua estabilidade.
- Estão posicionados adequadamente, - respondeu o Beta. - A alcateia local já reconheceu este território como parte de seu domínio, como um terreno familiar que não é questionado.
Roderick assentiu, satisfeito com a resposta.
- E quanto aos lobos selvagens?
Houve uma breve pausa, um sutil detalhe que não passou despercebido por Roderick.
- Eles estão... diferentes, - admitiu o Beta, escolhendo suas palavras com cuidado, como um artista que seleciona cuidadosamente as cores para uma tela.
- Diferentes em que sentido? - questionou Roderick, agora mais intrigado.
- Eles estão mais tranquilos e obedientes, sem sinais de estresse, - notou o Beta.
Uma sobrancelha de Roderick ergueu-se levemente, sinalizando seu crescente interesse.
- Isso é incomum, - comentou ele, sua atenção focada na situação.
- De fato, - concordou o Beta, seu olhar sério refletindo a gravidade do momento. - Considerando que são guardiões, eles geralmente não reagem bem a estranhos e, normalmente, mostram-se bastante indiferentes.
Roderick cruzou os braços, a curiosidade brotando como uma planta buscando luz.
- O que causou essa mudança?
O Beta respirou fundo, como quem se prepara para soltar uma informação valiosa que poderia iluminar a dúvida.
- Contratamos a veterinária, como você pediu.
- E? - questionou Roderick, ansioso por mais detalhes.
- Eles a tratam como se fossem... cachorrinhos, - respondeu o Beta, com incredulidade evidente na voz.
Para Roderick, a palavra parecia tão fora do lugar quanto um gato tentando latir.
- Cachorrinhos? - ele repetiu, com um leve ceticismo na voz.
- Exatamente, - confirmou o Beta. - Ela se relaciona com eles de maneira destemida, como um mestre que comanda uma orquestra, sem subserviência ou agressividade. Os animais se aproximam, obedecem a suas instruções e até permitem que ela os toque, como se soubessem que ela tem o carinho de um cuidador. Alguns chegam a se deitar aos pés dela, buscando conforto.
Um sentimento desconhecido começou a emergir em Roderick, embora ele tentasse rapidamente reprimir essa sensação, como se tentasse esconder uma sombra sob a luz do sol.
- E quanto às pessoas? - ele perguntou, curioso.
- Ah, não tão bem, - disse o Beta, deixando escapar um leve sorriso. - Ela tende a ser arisca e reservada, mostrando pouca paciência para interações humanas - imagine uma ave que prefere ficar em seu galho seguro do que se aproximar de um humano estranho.
Roderick começou a andar de um lado para o outro, perdido em pensamentos.
- Talvez isso explique a conexão, - ele murmurou. - Os animais têm um talento especial para perceber o que os humanos tentam ocultar, como se fossem detetives em busca da verdade em uma sala cheia de segredos.
- Quando chegarmos, o senhor poderá conhecê-la, - informou o Beta. Roderick apenas assentiu, ainda mergulhado em seus pensamentos.
- Vamos ver, - respondeu ele.
O jato atravessava o céu como um pincel traçando a tela da vontade de Roderick. Durante a viagem, ele analisou mapas digitais, relatórios de segurança e dados climáticos, mas sua mente parecia uma onda distante, longe da praia da realidade. Ele refletia sobre os clãs, a pressão por uma rainha e sua própria história - como um livro com páginas em branco sobre um casamento arranjado que não gerou herdeiros, uma companheira que não foi sua escolha, e a solidão que acompanha o poder, como uma sombra persistente.
Havia sido viúvo por cem anos, como uma flor que parecia nunca florescer novamente após a morte de sua luz.
Ainda assim, Roderick encontrava realização em seus empreendimentos. Os resorts que administrava não eram apenas negócios; eram como oásis em um deserto, funcionando como santuários. Nesses espaços, vampiros, licantropos e outras criaturas podiam existir sem serem observados, onde podiam descansar, negociar e sobreviver. Para os humanos, o que se via era apenas luxo e beleza natural, enquanto as criaturas da noite entendiam que ali era um refúgio seguro, como um abrigo na tempestade.
A Austrália, com sua floresta primitiva e energia vibrante, oferecia uma posição estratégica, assim como um castelo em um terreno elevado. Uma das alcateias mais poderosas da região a protegía há gerações, como uma muralha protetora. O novo resort seria inaugurado naquela noite, e Roderick sentia a necessidade de tocar a terra antes de receber qualquer convidado, como um artista que precisa sentir a textura da tela antes de começar a pintar.
Assim que o jato pousou, uma onda de calor denso e úmido o envolveu, como se a própria terra o estivesse saudando. Roderick respirou profundamente, sentindo que aquele ambiente vibrante o reconhecia.
- Está tudo preparado, - comentou o Beta ao seu lado.
Ele contemplou o horizonte, observando a vegetação exuberante e a atmosfera silenciosa que pulsava com vida.
- Vamos para o resort, - afirmou.
Enquanto caminhava pelo local, avaliava cada aspecto: a arquitetura que se integrava perfeitamente à natureza, as rotas de fuga meticulosamente planejadas, os pontos de observação estratégicos e as posições da alcateia. Tudo parecia estar em perfeita harmonia.
- A recepção será hoje à noite? - perguntou.
- Sim, com convidados já confirmados: vampiros, licantropos e híbridos.
- E os humanos? - indagou Roderick, a curiosidade transparecendo em sua voz.
- Apenas aqueles que não têm a menor ideia do que estão presenciando.
Um sorriso de canto surgiu no rosto de Roderick.
- Excelente.
Ele deu alguns passos adiante, sentindo a pulsação da terra sob seus pés, como se estivesse sintonizado com as batidas do coração do lugar.
- Quero visitar o canil dos lobos selvagens.
O Beta, sem hesitar, respondeu:
- Claro.
E assim, enquanto se dirigiam aos guardiões, o destino começava a se desenrolar.