Ao entrar, a postura de Liara se transformou; seus ombros relaxaram, seu rosto se descontraiu e a respiração se suavizou.
- Cadê os lobinhos da mamãe? - chamou, deixando o balde no chão. - Vim limpar a sujeira de vocês, porque hoje vai ter festinha, e os lobinhos vão ter que se comportar. Os lobos se aproximaram lentamente, alguns se sentando e outros se deitando, sem rosnar ou recuar, como se tivessem uma espécie de entendimento silencioso sobre o que estava para acontecer. Um deles inclinou a cabeça, atento, parece que captando cada inflexão da voz de Liara. - Senão eu vou ficar muito chateada - completou ela, apontando o dedo de leve para eles. - E vocês sabem que quando eu fico chateada, eu fico chateada mesmo.
Entenderam? Os lobos emitiram um som que não era exatamente um uivo; era uma resposta de empatia, uma comunicação genuína repleta de nuances. Roderick, a alguns metros de distância, sentiu o lobo que habitava nele se erguer, um instinto primitivo despertando dentro dele. - Eles... - murmurou o Beta, ao lado. - Eles estão respondendo. Roderick apenas observou em silêncio, um misto de fascínio e preocupação refletido em seus olhos. Liara parecia estar em casa, como se aqueles lobos fossem mais que animais; fossem sua família, sua conexão com algo maior.
- Agora vocês vão ficar sentadinhos aí, quietinhos - continuou, colocando luvas com um movimento firme e decidido. - A mamãe vai fazer a higienização e colocar a comidinha de vocês... e eu não quero sujeira, ouviram bem? Um dos lobos se acomodou, apoiando o focinho nas patas, enquanto outro abanou a cauda, mostrando uma obediente expectativa. - Escutem com atenção - disse ela, com um olhar sério e impositivo. - Vou ensinar vocês a usarem o sanitário. Nada de xixi e cocô espalhado por aí. Vocês são educados, e vão fazer no lugar certo.
Ela apontou para uma área específica do recinto, onde um espaço limpo e preparado aguardava sua atenção, e os lobos balançaram as cabeças em resposta, mostrando entendimento e concordância. O Beta arregalou os olhos, evidentemente perplexo e intrigado. - Isso... isso não é normal - sussurrou. - Não - concordou Roderick, sua expressão permanecendo neutra, mas com um brilho curioso. - Não é. Liara prosseguiu, completamente alheia a quem a observava, imersa em sua própria esfera de confiança e carinho.
- E se eu tiver que dormir aqui com vocês para ensinar direito, eu durmo - avisou. - Mas vocês vão aprender, assim a mamãe não precisa trabalhar dobrado e pode cuidar dos outros bebês por aí. Entenderam? Os lobos emitiram mais ganidos, demonstrando atenção e obediência, como se soubessem que havia algo maior em jogo ali, uma promessa de respeito e cuidado.
O gerente do resort se aproximou com cautela, falando em um tom baixo que contrastava com a vivacidade do ambiente: - É impressionante como eles respondem a ela. - Ela é humana? - perguntou Roderick, mantendo seus olhos âmbar fixos na cena, analisando cada movimento. - Sim, senhor.
- O gerente assentiu, parecendo cada vez mais admirado.
- E não faz ideia de onde está realmente trabalhando. Não sabe que cuida de licantropos. Para ela, são lobos selvagens. Roderick observou um dos lobos se aproximar de Liara e permitir que ela acariciando a cabeça, um gesto que parecia transcendental.
- Esses lobos - continuou o gerente, com um tom quase reverencial - são homens que escolheram permanecer na forma animal por um tempo. Alguns... estão sendo punidos, guardando segredos que não podem ser revelados.
Roderick cerrou o maxilar, sentindo a tensão subir. - E mesmo assim... obedecem a ela. - Como filhotes - completou o gerente. - Ela os atrai. E eles aceitam, como se ela fosse a resposta para algo que estava faltando em suas vidas.
Liara finalizou a limpeza com um senso de dever cumprido, organizou o espaço e colocou a comida com cuidado, cada movimento revelando sua dedicação. - Pronto - disse, batendo palmas com alegria contagiante. - Agora todo mundo para as suas caminhas. Está tudo limpinho. Imediatamente, os lobos obedeceram, como soldados sob o comando de uma generala, formando uma visão de harmonia ao redor dela. Ela cruzou os braços, satisfeita com o resultado do seu trabalho.
- Euzinha, linda e maravilhosa - sorriu para si mesma, antes de deixar escapar um suspiro de alívio. - Agora vou tomar um banho e vestir meu uniforme de gala, porque quando esse evento começar e os humanos vierem visitar as ferinhas...
Fez uma careta, consciente da ironia daquilo.
- Que, convenhamos, as feras são os humanos, né? Roderick sentiu um sorriso perigoso se formar em seu rosto, evidenciando uma predileção que não soube explicar.
- Eu quero estar aqui presente - continuou ela - para vocês não fazerem nada de errado, escutaram meus anjinhos?
Os lobos retornaram seu som em resposta, uma sinfonia de apoio que apenas ela parecia conseguir invocar. - Daqui a uma hora eu volto. - apontou, com determinação. - Uma hora. Mamãe volta.
Ao se virar para sair, esbarrou em Roderick novamente, interrompendo sua linha de pensamento com um choque.
- PELO AMOR DE DEUS! - exclamou, os olhos arregalados. - Você está me seguindo, armário ambulante?!
O gerente pigarreou, tentando recuperar o controle da situação. - Senhorita... - tentou intervir, mas a confusão era evidente em sua voz.
- A senhorita é tão distraída que nem percebeu que nós estávamos aqui, ela franziu o cenho em confusão.
- Estavam? Não vi m
- Este é o senhor Likaius - disse o gerente, apressando-se para esclarecer., veio para a recepção, Liara respirou fundo, processando a informação.
- Então... me desculpe, senhor Likaius - disse, seca, mas com uma pitada de curiosidade nos olhos. - Mas se o senhor veio aqui achando que esses lobos são feras, o senhor está muito enganado.
Ela apontou para o recinto, agora com um tom de desafio. - Eles são educados, obedientes e entendem tudo, muito mais do que muita gente por aí, não são apenas lobos; são uma extensão de mim, e espero que um dia você consiga ver isso.
Pegou o balde e olhou para trás com um brilho de determinação, então, com licença - concluiu, já se afastando.
- Tenho que guardar esse material, tomar meu banho, porque a escrava aqui precisa se arrumar para esperar pessoas como vocês virem visitar as "feras".
Fez aspas no ar, uma ironia evidente em seu tom. - Com licença e saiu rebolando, resmungando sobre a indiferença humana e a aparente falta de compreensão.
O gerente engoliu em seco, claramente impressionado. - Ela falou isso para o senhor, é inapropriado. Roderick manteve o olhar fixo na direção por onde Liara desaparecia, um rastro de intriga no semblante.
- E ela ainda nem sabe quem eu sou - completou o gerente, a perplexidade evidente em cada palavra. Roderick sorriu, um sorriso lento e perigoso que refletia um novo interesse.
- Vocês vão ficar calados - ordenou, sua voz agora firme e autoritária.
- Deixem-na continuar agindo naturalmente.
Ele se virou, com o olhar âmbar carregado de algo novo e poderoso. - Eu gostei dela, ela vai trazer mais do que apenas um frescor ao nosso mundo obscuro.
Deu alguns passos, uma nova determinação em seu caminhar. - À noite- murmurou, uma sombra de malícia atravessando seu olhar.
- Ela vai saber quem eu sou. A lua, acima da selva australiana, observava em silêncio, como se estivesse prestes a testemunhar uma mudança que poderia alterar o destino de todos os envolvidos.