POV Elara:
O closet era maior que meu primeiro apartamento. Cheirava a ele - cedro, poder e o peso sufocante da posse.
Eu me encolhi no canto, atrás dos casacos de inverno, o celular descartável escorregadio na minha palma suada.
Disquei um número sussurrado nos cantos mais sombrios das redes de Renegados.
"Vargas", uma voz rouca soou. Parecia cascalho em um liquidificador.
"É a Tecelã", sussurrei.
"A Luna Obsidiana? Você está longe da sua torre de marfim."
"Preciso do pacote", eu disse. "O Tabula Rasa."
Silêncio. Até um bruxo das trevas respeitava esse nome.
"Você sabe o que está pedindo?", perguntou Vargas, seu tom mudando de zombaria para cautela. "Isso não te faz apenas esquecer. Ele queima os caminhos neurais. Para um lobo... é ácido. Dissolve o espírito. Ele caça sua loba interior e a derrete enquanto ela grita."
"Eu sei."
"Ele corta o Laço de Companheirismo queimando os pontos de conexão na alma. Você se tornará uma casca vazia. Uma humana. Indefesa."
"Eu já sou indefesa", eu disse, olhando para minhas mãos trêmulas.
"O preço é alto."
"Prata", eu disse. "De alta pureza. Moedas cunhadas do tesouro pré-guerra. O suficiente para comprar um país pequeno."
Ouvi sua inspiração aguda. "Fechado. Amanhã à noite. Meia-noite. Na clínica veterinária abandonada no Brás. Venha sozinha. Se eu sentir cheiro de Alfa, vou ferver seu sangue antes que você cruze a porta."
"Ele não estará lá", eu disse. "Ele está ocupado construindo seu futuro."
Desliguei.
Meu coração martelava contra minhas costelas como um pássaro preso. Eu tinha acabado de encomendar minha própria execução.
A porta do quarto se abriu.
Eu congelei.
Breno entrou cambaleando, cheirando a conhaque e exaustão. Ele se despiu no escuro, jogando o terno no chão como pele descartada.
Esperei até que sua respiração se aprofundasse no ritmo do sono. Dez minutos. Vinte.
Saí de fininho. A luz da lua o banhava. Ele parecia pacífico. Inocente.
Fiquei ao lado da cama, observando-o.
Sua mão disparou, agarrando meu pulso como uma armadilha de urso.
Eu ofeguei.
Seus olhos ainda estavam fechados. Um reflexo do sono. Seus instintos de Alfa sentindo uma propriedade em movimento.
"Minha", ele rosnou, um som baixo que vibrou pelo colchão.
O Comando do Alfa me atingiu. Meus joelhos bateram no carpete. Minha cabeça se curvou, expondo meu pescoço. Não foi uma escolha; foi biologia.
Ele me puxou para mais perto, ainda dormindo. Sua mão era uma marca de ferro.
"Minha", ele murmurou, cheirando o ar onde meu pescoço deveria estar.
Não era amor. Era controle de inventário. Chaves? Ok. Carteira? Ok. Esposa? Ok.
Uma onda de repulsa me atingiu, quente e ácida.
Mordi minha língua. Com força.
O gosto de cobre do sangue quebrou o transe.
Puxei meu pulso de volta. Exigiu tudo de mim para lutar contra o Comando, como caminhar na lama até a cintura.
Rastejei para trás, em direção ao banheiro. Tranquei a porta e deslizei contra o azulejo frio.
Meu pulso latejava. Uma marca de mão vermelha já estava florescendo na minha pele.
*Não consigo fazer isso*, minha loba choramingou. *Ele é o Companheiro. Partir é a morte.*
*Ficar é ser apagada*, eu disse a ela.
Fechei os olhos e visualizei uma parede de tijolos. Peguei a memória dele me tirando do fogo e a empurrei para trás dos tijolos. Peguei a memória do nosso casamento e a emparedei também.
Eu estava construindo uma tumba para o meu passado. Porque quando eu bebesse aquele veneno, eu precisava que Breno Wiggins estivesse morto para mim antes que eu estivesse morta para mim mesma.
Três dias até a lua cheia.
Três dias para matar a loba.