Não era um castelo de torres elegantes e contos românticos, tampouco um palácio destinado a festas e celebrações. Tratava-se de um antigo solar de pedra, vasto e imponente, construído para resistir ao tempo e aos homens. Suas linhas eram sólidas, quase austeras, como se cada parede tivesse sido erguida para proteger segredos e silêncios. O edifício principal se estendia horizontalmente, com alas largas e janelas altas, poucas delas iluminadas, lançando feixes amarelados que mal conseguiam vencer a escuridão da noite.
Muros altos cercavam a propriedade, cobertos aqui e ali por heras antigas, e os portões de ferro trabalhado rangiam levemente ao se abrirem, como se o próprio lugar reagisse à presença de estranhos. O ar era frio e carregado de um leve odor de terra molhada e pedra antiga. Não havia música, nem vozes - apenas o som distante do vento e o estalar ocasional de uma tocha.
O lugar impunha respeito. E, ainda que Helena não soubesse explicar por quê, também despertava um temor discreto, quase reverente.
Ele desceu primeiro da carruagem.
O duque era um homem mais velho, mas de uma beleza rara - madura, contida, severa. Alto, mantinha a postura ereta de alguém acostumado a comandar sem precisar elevar a voz. Os traços firmes do rosto pareciam esculpidos pelo tempo, não pela vaidade. Os cabelos escuros já eram tocados pelo cinza nas têmporas, e os olhos profundos, quase negros, carregavam uma sombra que Helena não soube decifrar.
Não era um olhar cruel, tampouco hostil. Era distante. O olhar de alguém que aprendera, ao longo dos anos, a esconder sentimentos atrás do silêncio - como se o próprio solar fosse um reflexo de quem o habitava.
Assim que atravessaram o grande portal, foram recebidos por alguns criados que aguardavam em silêncio respeitoso. Inclinaram levemente a cabeça em saudação, os rostos atentos, como se cada movimento fosse cuidadosamente ensaiado. O calor do interior contrastava com o frio da noite, trazendo consigo o aroma de lenha queimada e cera derretida.
O salão principal se revelou amplo e solene. O piso de pedra polida refletia a luz suave dos candelabros fixados nas paredes, e uma lareira majestosa ardia ao fundo, lançando sombras dançantes sobre tapeçarias antigas que narravam batalhas e brasões esquecidos pelo tempo. O teto alto, sustentado por vigas de madeira escura, dava ao ambiente uma sensação de grandiosidade silenciosa, mais próxima da contemplação do que da ostentação.
O duque retirou o sobretudo com um gesto contido e passou o olhar pelo salão. Não precisou elevar a voz.
- Senhora Madeleine - disse, firme, porém calmo.
A governanta aproximou-se de imediato. Era uma mulher de postura impecável, cabelos presos com rigor e olhar atento, daqueles que nada deixam escapar. Curvou-se respeitosamente.
- Providencie para que a senhorita Helena seja conduzida a um quarto aquecido. Que lhe tragam roupas secas, algo confortável - fez uma breve pausa, lançando um olhar discreto para Helena, avaliando-lhe o estado - e que o jantar lhe seja servido em seus aposentos.
Madeleine assentiu prontamente.
- Sim, Vossa Graça.
O duque continuou, com a mesma serenidade que tornava suas ordens incontestáveis:
- Ela é uma convidada. Espero que seja tratada como tal. Cuidem para que nada lhe falte.
- Será feito - respondeu a governanta, com convicção.
Nesse momento, o mordomo aproximou-se do duque, murmurando algo em voz baixa. Sem mais palavras, ele fez um leve gesto afirmativo e seguiu ao lado do homem, seus passos ecoando pelo corredor principal até desaparecerem na penumbra, deixando para trás apenas o crepitar da lareira... e a estranha sensação de que aquele lugar, apesar de austero, começava a se mover em torno de Helena.
No quarto, a governanta ajudou-a em silêncio, com gestos cuidadosos e experientes. Desfez os fechos do vestido ainda úmido, trouxe uma camisola limpa e macia, e tratou de reacender o fogo da lareira até que o ambiente se tornasse acolhedor. Pouco depois, uma criada retornou com uma sopa quente, cujo vapor suave subiu como um convite ao descanso. Helena sorveu as primeiras colheradas lentamente, sentindo o calor espalhar-se pelo corpo cansado.
Depois daquele dia terrível, aquele simples gesto de cuidado lhe pareceu um abrigo. Um raro instante de amparo em meio ao caos.
O quarto era amplo, porém delicado. Havia ali sinais claros do uso feminino: uma escova de cabelos repousava sobre a penteadeira, frascos de perfume quase vazios alinhavam-se com cuidado, e uma colcha clara cobria a cama, contrastando com a austeridade do restante do solar. Não parecia um aposento de hóspedes qualquer. Havia intimidade demais naquele espaço.
Na parede, um quadro chamou sua atenção.
Retratava uma mulher de rara beleza, olhar sereno e profundo, olhos amendoados que pareciam acompanhar quem os fitasse. Os traços eram suaves, mas havia força naquele semblante - uma presença que atravessava o tempo e a tela. Helena sentiu um leve aperto no peito.
Quem seria ela?
Seria aquele, de fato, o seu quarto?
Antes que pudesse formular tais perguntas em voz alta, a governanta aproximou-se novamente.
- Estarei à disposição, senhorita, caso precise de algo - disse com gentileza contida, antes de se retirar e fechar a porta com discrição.
Sozinha, envolta pelo silêncio e pelo calor da lareira, Helena deixou o corpo ceder. Deitou-se ainda com pensamentos dispersos, mas o cansaço venceu qualquer tentativa de entendimento. Ali, entre lençóis desconhecidos e mistérios não ditos, adormeceu profundamente - exausta demais para pensar, exausta demais para sofrer.
Enquanto o sono a envolvia, Helena respirou fundo, como se, pela primeira vez em muito tempo, pudesse descansar sem medo. Aquele lugar estranho, de paredes antigas e histórias ocultas, oferecia-lhe algo que há dias lhe fora negado: silêncio. Não o silêncio da solidão, mas o da pausa necessária para não desmoronar.