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O DUQUE DE BLACKMOOR
img img O DUQUE DE BLACKMOOR img Capítulo 4 O SILÊNCIO E A FEBRE
4 Capítulo
Capítulo 6 O NOIVADO COM SARAH img
Capítulo 7 HELENA e SOPHIA img
Capítulo 8 É PRECISO SEGUIR EM FRENTE img
Capítulo 9 A PRESENÇA DE HELENA img
Capítulo 10 A REVELAÇÃO img
Capítulo 11 AUSÊNCIAS img
Capítulo 12 O Filho que ela não teve img
Capítulo 13 O FILHO DO CHANCELER img
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Capítulo 4 O SILÊNCIO E A FEBRE

Helena despertou com o corpo em chamas e a mente turva, como se o quarto girasse lentamente ao seu redor. Tentou se sentar, mas a vertigem a obrigou a apoiar-se na cabeceira da cama. O ar parecia pesado demais para ser respirado, e o silêncio de Blackmoor, antes acolhedor, tornou-se opressor.

Com esforço, colocou os pés no chão. Precisava de ajuda - essa certeza atravessou a confusão como um lampejo lúcido. Avançou alguns passos em direção à porta, apoiando-se no aparador, quando as forças lhe faltaram de vez. O vaso de porcelana caiu, estilhaçando-se contra o piso, e o som seco ecoou pelo corredor no mesmo instante em que seu corpo cedeu.

Foi a governanta quem a encontrou, caída, a pele ardendo sob o toque alarmado.

- Meu Deus... - murmurou, ao perceber a febre intensa. - Fique comigo, senhora Helena.

O barulho havia sido suficiente para despertar a casa.

Raphael surgiu à porta poucos instantes depois. Bastou um olhar para compreender a gravidade da cena. A governanta explicou apressada:

- Eu a encontrei assim, desmaiada. A febre está muito alta.

Sem dizer uma palavra, o duque ajoelhou-se ao lado de Helena. Quando a tomou nos braços, o gesto foi firme, decidido - e inesperadamente íntimo. O corpo dela parecia leve demais, frágil demais contra o dele. Helena abriu os olhos por um instante, confusa, sentindo o calor que não vinha apenas da febre, mas da presença que a envolvia com segurança incontestável.

Raphael a levou de volta ao quarto com passos seguros, como se aquele peso lhe pertencesse. Ao deitá-la na cama, seu olhar demorou-se mais do que o necessário em seu rosto pálido, nos lábios entreabertos, na vulnerabilidade exposta. Não havia ali gentileza ensaiada - apenas a força contida de um homem que não aceitava perder o controle do que estava sob sua guarda.

E Helena, antes de sucumbir novamente à inconsciência, teve a estranha e perturbadora certeza de que não estava apenas doente. Estava, pela primeira vez, inteiramente à mercê dele.

Havia um segredo silencioso que não era dito em palavras, mas pulsava no peito do Duque com força inquietante: ele se sentia responsável por Helena.

Não era apenas dever, tampouco simples cortesia. Era algo mais profundo, quase instintivo, que o mantinha à beira do desespero enquanto os minutos passavam e o médico não chegava. Ele caminhava pelo quarto como um animal enjaulado, as mãos cerradas, o olhar voltado a todo instante para a porta, como se pudesse apressar o tempo com a própria angústia.

A Srta . Madeleine percebendo o estado dele, tentou acalmá-lo com palavras suaves, pedindo paciência, assegurando que o médico viria em breve. Mas nada parecia aliviar aquela tensão. O Duque mal a ouvia; sua atenção estava inteiramente voltada para Helena, para o ritmo irregular de sua respiração, para o calor febril que ele ainda sentia nos dedos.

Então, finalmente, passos rápidos ecoaram pelo corredor. O som fez o Duque erguer a cabeça de imediato. A porta se abriu, revelando o Dr. Robert, ainda ajeitando o casaco, o semblante atento e experiente. Bastou um olhar para que ele percebesse a inquietação do amigo.

- Ela ficará bem - disse, antes mesmo de qualquer pergunta, numa tentativa de acalmá-lo. - Mas preciso examiná-la com calma.

O Duque assentiu, relutante, como se deixar o quarto fosse um sacrifício. O médico pediu que ele se retirasse e solicitou que Judith permanecesse para auxiliá-lo. Antes de sair, o Duque lançou um último olhar a Helena, demorando-se mais do que pretendia, como se quisesse gravar cada detalhe de seu rosto pálido, entregue àquela luta silenciosa contra a febre.

Com a porta fechada, o Dr. Robert iniciou o atendimento com cuidado e precisão, examinando-a, verificando sua temperatura, sua respiração, murmurando orientações a Judith. Em meio aos procedimentos, voltou-se para ela com uma pergunta simples, quase casual:

- Quem é a jovem?

Madeleine hesitou por um instante antes de responder, sincera:

- Não sei, doutor. Ela é apenas uma hóspede.

Do lado de fora, no corredor frio e silencioso, o Duque aguardava. Cada segundo parecia uma eternidade. Encostado à parede, os pensamentos em desordem, ele sentia que, ao fechar aquela porta, havia deixado ali dentro não apenas uma mulher doente... mas algo que, sem perceber, já começava a lhe pertencer.

O duque permaneceu no corredor principal, imóvel, enquanto o médico cuidava de Helena atrás da porta fechada. O silêncio daquele lugar era quase cruel, interrompido apenas pelo eco distante de passos e pelo bater inquieto de seu próprio coração. Seus olhos, porém, foram atraídos para o retrato de Sophia pendurado na parede - o mesmo corredor, o mesmo olhar eternizado na tela, a mesma presença que jamais o abandonara.

Foi como abrir uma caixa lacrada no mais íntimo do seu ser. Todas as dores que ele acreditara domadas romperam as amarras do tempo.

Aquele rosto, tão vivo na pintura, devolveu-lhe a memória do dia em que tudo se perdeu. Sophia havia morrido ali, naquele mesmo quarto para o qual Helena agora fora levada. E, de súbito, o passado deixou de ser lembrança: tornou-se presente.

A cena se repetia em sua mente com uma nitidez cruel - o médico saindo, o olhar pesado, as palavras que ele nunca esqueceu. Seu corpo reagiu como se os anos não tivessem passado, como se a ferida jamais tivesse cicatrizado.

Será que, sem perceber, ele projetava em Helena a dor irreparável da perda de Sophia? Será que o medo que agora o consumia era menos pela vida de Helena e mais pela ameaça de reviver a própria ruína? Mais que isto os segredos que Raphael guardava iam muito além do que as coincidência que a vida lhe ofertava.

Os anos haviam seguido seu curso, o mundo mudara, mas as feridas continuavam abertas, pulsando em silêncio. O duque fechou os olhos por um instante, apoiando-se na parede fria do corredor, temendo que, a qualquer momento, a porta se abrisse novamente - não para trazer esperança, mas para repetir a tragédia que o havia transformado em um homem distante, sombrio e solitário.

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