As empregadas movia-se pelo quarto com cuidado, trocando compressas, organizando as bacias com a água , panos úmidos e os frascos utilizados pelo médico. Seu semblante era de alívio contido, misturado a uma preocupação que ela não conseguia esconder por completo.
Ao sair do quarto levando tudo aquilo nos braços, cruzou com o Duque no corredor.
Ele a observou por um instante, atento demais para não perceber o peso em seu olhar.
- O que está acontecendo? - perguntou, a voz baixa, mas firme.
A governanta hesitou. Apertou os lábios, como se escolhesse as palavras com cuidado.
- O doutor... ele pediu para vê-lo. É melhor que o Duque converse com ele.
A resposta curta bastou. Raphael não fez mais perguntas. Seguiu imediatamente para o quarto.
Dr. Robert estava guardando seus instrumentos, dobrando os panos com gestos metódicos. Ao ver o amigo entrar, ergueu o olhar, sério, ponderado - aquele mesmo olhar que precedia notícias difíceis.
- A febre cedeu, o que é um bom sinal - começou. - Mas ela está extremamente debilitada.
O Duque aproximou-se da cama, sem tocar Helena, como se temesse despertá-la.
- Ela não vinha se alimentando bem - continuou o médico. - O corpo mostra sinais claros de fraqueza, além disso, há marcas de um sofrimento prolongado, acredito eu, pelas olheiras, noites sem descanso... isso enfraquece qualquer pessoa. E seus pulmões estão fracos, é notório que esta jovem vem de duas difíceis, ainda mais no estado em que ela se encontra.
Houve um breve silêncio antes de o Duque falar, a voz mais baixa do que pretendia:
- Trata-se de Helena... viúva do chanceler Pierre, você o conhece Robert. Não se fala em outra coisas nos arredores até a Capital.
O médico congelou por um instante. Seus olhos se voltaram novamente para Helena, como se passasse a enxergá-la sob uma nova luz. A surpresa foi evidente. Ele não disse nada de imediato, mas sua expressão denunciava uma pergunta silenciosa: o que ela estaria fazendo ali? Se perguntou a si mesmo mas não ousou perguntar ao Duque.
- Compreendo - respondeu por fim. - E fique tranquilo. Serei discreto.
- Preciso que seja - disse o Duque, com firmeza. - Nada disso deve sair destas paredes. Até que ela se recupere.
O médico assentiu, mas antes de encerrar, respirou fundo, como quem decide revelar algo mais delicado.
- Há, porém, algo além do que lhe disse... - começou, escolhendo as palavras com cautela. - Algo que exige atenção redobrada e cuidados constantes. O estado dela não é simples, nem passageiro.
O Duque ergueu o olhar, sentindo o peso daquela frase se instalar em seu peito.
- O que quer dizer, Robert?
O médico fechou a bolsa lentamente, mantendo o olhar sério, quase grave, antes de responder.
E naquele instante, o Duque soube: a verdadeira prova ainda estava por vir.
O médico permaneceu em silêncio por alguns instantes, como se buscasse forças para prosseguir. Havia coisas que nem mesmo a ciência sabia dizer sem ferir.
- Há algo mais - disse por fim, em voz baixa. - Algo que preciso lhe contar...
O Duque manteve-se de pé, o corpo rígido, o olhar fixo no médico.
- Helena estava grávida. De poucas semanas, estava grávida Raphael.
As palavras caíram no quarto como um golpe seco. O ar pareceu rarear. O Duque não reagiu de imediato, como se o sentido da frase demorasse a alcançá-lo. Quando finalmente compreendeu, sentiu as pernas cederem. Caminhou alguns passos vacilantes e sentou-se, levando as mãos ao rosto, cobrindo os olhos, como se aquele gesto pudesse impedir que continuasse a ouvir.
- Infelizmente... - continuou o médico, com pesar - a criança não resistiu.
O estado debilitado de Helena, a falta de cuidados adequados, o desgaste físico e emocional... tudo isso tornou impossível que a gestação prosseguisse.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase sufocante. O Duque permaneceu imóvel, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos pressionadas contra o rosto. Era como se o mundo tivesse se partido novamente diante dele. Aquelas palavras ecoavam em sua mente, trazendo à tona lembranças antigas, feridas que jamais haviam cicatrizado por completo.
Foi como se o passado tivesse retornado para castigá-lo mais uma vez.
Uma dor antiga, que ele julgava enterrada, despertava agora com força cruel, misturando-se à culpa, à impotência e a um pesar profundo que ele não ousava nomear. Não era apenas pela criança que não viveria. Era por Helena, por tudo o que ela havia perdido, por tudo o que ainda poderia perder. E sobretudo por ele mesmo em reviver o que houve com Sophia.
O médico observava em silêncio, respeitando aquele momento. Sabia que não havia palavras capazes de aliviar o peso daquela revelação.
E ali, naquele quarto marcado pela febre, pela chuva e pela dor silenciosa, o Duque compreendeu que aquela história estava longe de ser apenas um acaso. Algo maior os unia - algo feito de perdas, sombras e destinos que insistiam em se cruzar.
O Duque permaneceu ali por toda a noite.
Sentado na penumbra do quarto, enquanto a mansão adormecia, ele deixou que o passado o alcançasse sem defesas. A culpa, sempre oculta, voltava a sussurrar em sua consciência - não como acusação direta, mas como um peso constante, impossível de afastar. Perguntava-se, em silêncio, se poderia ter feito algo diferente no passado com Sophia, e da mesma forma com Helena.
A imagem de Sophia surgia e desaparecia entre lembranças fragmentadas, misturando-se à de Helena, frágil, lutando para sobreviver. Duas dores distintas, unidas pelo mesmo destino cruel. Duas perdas que o tempo não apagara.
A cada respiração irregular de Helena, o coração do Duque se apertava. Havia medo. Um medo profundo de perdê-la também, mesmo sem compreender plenamente o lugar que ela começava a ocupar em sua vida. Não era amor, ainda não, mas fora um dia. Assim como era cuidado, era presença, era um vínculo silencioso que se formava na dor.
Quando a madrugada avançou e os primeiros sinais de luz insinuaram-se pelas janelas, ele ainda estava ali. Não dormira. Não se movera. Apenas vigiara, como se sua permanência pudesse protegê-la de mais uma tragédia.
Naquele silêncio carregado de memórias e arrependimentos, o Duque compreendeu que algumas culpas não se apagam... mas se transformam.
E que, talvez, cuidar de Helena fosse também uma forma tardia de tentar redimir o passado que jamais o abandonara. Mais do que o medo e a dor antiga, o duque guardava um segredo sobre Helena - um segredo que nem mesmo ousava nomear. Estava enterrado em seu inconsciente, onde a culpa se disfarçava de silêncio, mas ainda assim o condenava. Cada batida de seu coração era um lembrete de que havia coisas não ditas, decisões tomadas na escuridão, cujas consequências agora se apresentavam diante dele, frágeis e humanas.