A ideia fixa que carregava era simples e, ao mesmo tempo, revolucionária: o projeto precisava gerar impacto social real. Os prestadores de serviço tinham que ganhar bem. Os técnicos, engenheiros, operadores e trabalhadores terceirizados precisavam sentir que aquele negócio também era deles. O lucro não podia ficar restrito a salas climatizadas, planilhas fechadas e assinaturas em contratos frios. Precisava chegar a quem colocava o corpo em risco todos os dias.
Quando apresentou o projeto pela primeira vez, ouviu risadas disfarçadas, olhares de desdém e comentários venenosos. Diziam que ele era jovem demais, idealista demais, ingênuo demais. O investimento inicial foi alto, milionário, e muita gente apostou que aquilo não passaria de um capricho caro de um herdeiro tentando brincar de empresário consciente.
Cinco anos depois, ninguém mais ria.
O projeto rendia nove vezes mais do que o valor investido - por ano. E não dava qualquer sinal de desaceleração. Pelo contrário. Crescia de forma agressiva, sólida, consistente. Chamava atenção de bancos internacionais, fundos de investimento, conglomerados estrangeiros e, inevitavelmente, de gente poderosa que não aceitava ver dinheiro circulando fora do próprio bolso.
Dois anos antes, veio o boom.
O mercado finalmente entendeu o tamanho do que Gabriel havia construído. E, como sempre acontecia quando algo realmente grande surgia, os grandes capitalistas chegaram em bloco. Vieram com sorrisos treinados, discursos técnicos e propostas "irrecusáveis". Queriam mais lucro. Queriam cortar custos. Queriam rever contratos, reduzir pagamentos, eliminar cláusulas sociais.
Para eles, a conta era simples: se o projeto dava lucro daquele jeito, dava para espremer mais. Se alguém saísse perdendo no processo, que fossem os prestadores de serviço. Os pobres sempre se viravam. Ou quebravam.
Gabriel não cedeu.
Desde o início, manteve a mesma postura. Não mexeu na distribuição de renda, não abriu mão das cláusulas sociais, não negociou princípios. Cada reunião terminava do mesmo jeito: propostas recusadas, tensões no ar, portas fechadas com força.
Essa postura transformou o projeto em algo admirado por muitos... e odiado por outros tantos.
E quem odiava tinha poder. Muito poder.
Antes de voltar para o Brasil, Samira recebeu o alerta de Evelyn. A amiga, que sempre foi sua conselheira silenciosa, seu radar e seu porto seguro, não rodeou o assunto.
Os acionistas estavam se articulando.
A jogada era suja, mas extremamente eficaz. Todos colocariam suas ações à venda ao mesmo tempo. O mercado entraria em pânico. Os preços despencariam em questão de horas. Os cinquenta e um por cento de Gabriel continuariam sendo maioria no papel, mas valeriam quase nada na prática.
Ele ficaria encurralado.
Teria apenas duas opções. Ou colocava parte das próprias ações no mercado, perdendo o controle da empresa, ou abria o capital para tentar conter o estrago. E abrir capital naquele cenário era brincar com fogo. Se a queda continuasse, a empresa quebraria em pouco tempo.
Era um xeque-mate.
Se Gabriel cedesse, perderia o posto de acionista majoritário e os tubarões venceriam. Se resistisse até o fim, poderia afundar tudo o que havia construído com tanto cuidado.
Era exatamente ali que Samira entrava.
Evelyn tinha sido a grande responsável por levá-la até aquele ponto. Foi ela quem a ensinou a observar em silêncio, a ouvir mais do que falar, a perceber movimentos antes que se tornassem oficiais. Foi com Evelyn que Samira aprendeu que informação, quando usada no tempo certo, valia mais do que dinheiro.
Samira sempre esteve um passo à frente. E não por sorte.
Havia dois anos, mesmo sem título oficial, ela já exercia o papel de vice-presidente do projeto. Era ela quem desenhava estratégias, antecipava movimentos do mercado, sugeria decisões que pareciam ousadas demais, mas sempre se provavam corretas. Tudo isso à distância, protegida pelo anonimato da Senhorita Poirot.
Em uma das reuniões com a câmera desligada, Samira questionou Gabriel pela primeira vez com um tom mais firme, quase impaciente:
- Como exatamente você espera que eu seja vice-presidente da sua empresa no Brasil morando no Canadá, Gabriel?
Do outro lado da tela, ele suspirou. O cansaço era evidente até na voz.
- Então volte para casa, Senhorita Poirot. Ninguém administra essa empresa melhor do que você.
- Ainda não posso - respondeu ela, sem hesitar. - Você sabe que estou no meio do furacão. Se eu voltar agora, perco acesso a informações que ainda são fundamentais para você crescer mais um pouco antes do ataque final.
Houve um silêncio pesado antes da resposta.
- Eu não estou conseguindo segurar tudo sozinho - ele admitiu. - Preciso de alguém ao meu lado. Preciso de um vice-presidente de verdade. E não confio esse cargo a mais ninguém.
Samira ficou em silêncio por alguns segundos. Não por dúvida, mas por cálculo.
- Eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para consolidar sua empresa - disse, por fim. - Até lá, você pode contar com o apoio de um dos seus sócios, mas sem dar poder demais.
A resposta dele veio carregada de amargura:
- São todos aves de rapina. Se eu der qualquer espaço, eles desmontam a parte social do projeto em uma semana. Vamos fazer assim: tudo o que puder ser decidido à distância, eu divido com você.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Durante dois anos, Samira comandou decisões importantes por e-mail, mensagens criptografadas e reuniões discretas. Dava ordens diretas à equipe administrativa, resolvia conflitos internos, fechava contratos, renegociava prazos, apagava incêndios antes mesmo que eles se tornassem públicos. Tudo sem nunca aparecer.
Quando completou seis meses nessa função informal, seus ganhos já eram cinco vezes maiores do que quando assumiu o projeto. Foi então que fez um pedido pessoal: a contratação de Tarcísio como administrador júnior.
Ela passou a dar ordens diretas a ele, sempre mantendo a distância profissional. Tarcísio jamais desconfiou que a Senhorita Poirot e sua noiva eram a mesma pessoa. Evelyn achou melhor assim. Samira também. Não queria ferir o orgulho dele, nem criar um desequilíbrio que pudesse corroer a relação por dentro.
No mês anterior, como já controlava toda a área administrativa, foi ela quem sugeriu a promoção de Tarcísio.
Gabriel avisou que estava organizando tudo para sua volta definitiva ao Brasil. Disse que, assim que ela assumisse oficialmente, poderia promover e demitir quem quisesse. Afinal, era Samira quem realmente conhecia o time.
Ela riu quando ouviu aquilo.
Os administradores trabalhavam no mesmo prédio que Gabriel, e ele mal sabia o nome de metade deles.
- Eu não cuido só desse projeto, Senhorita Poirot - ele explicou. - Depois que meu pai se aposentou, tudo caiu nas minhas costas. Por isso coloquei você no comando dessa parte.
- Eu sei - respondeu Samira, calma. - Seu pai se afastou e agora você segura o império inteiro sozinho.
Do outro lado da linha, houve uma pausa curta, desconfiada.
- Como você sabe disso?
- Somos da mesma cidade, senhor Cavalcante. Sua vida nunca foi exatamente um segredo.
Ele riu. Um riso curto, intrigado, carregado de curiosidade.
- Interessante... Então não vai ser difícil você voltar em breve e assumir seu cargo de vez.
Respirou fundo antes de concluir, com um tom mais pessoal do que nunca:
- E, finalmente, eu poder te conhecer.