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Cativa do Submndo
img img Cativa do Submndo img Capítulo 2 Prólogo
2 Capítulo
Capítulo 6 O Jogo Antes do Toque img
Capítulo 7 Manual da Rendição img
Capítulo 8 A Ruína img
Capítulo 9 Nada É Tão Perigoso Quanto Nós img
Capítulo 10 O Prazer Não Pede Permissão img
Capítulo 11 A Mulher Que Ensina a Cair img
Capítulo 12 À beira do abismo img
Capítulo 13 Desejo e rendição img
Capítulo 14 Jogadas img
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Capítulo 2 Prólogo

Cassie

O vento quente invade o escritório como um aviso silencioso. Já é tarde da noite, e a cidade respira em outro ritmo mais lento, mais perigoso. O ar traz consigo o cheiro úmido das ruas de Nova Orleans, misturado a promessas que ninguém ousa nomear. Há algo diferente nessa corrente morna, algo que não pertence mais ao inverno.

Ele anuncia mudanças.

As cortinas pesadas se movem com relutância, deixando entrar um sopro de vida que contrasta com a rigidez do ambiente. A estação fria se despede sem cerimônia, e, logo adiante, a primavera ameaça começar, não suave, não delicada, mas inquieta, carregada de excessos, como tudo que floresce fora de controle.

Dentro do escritório, o calor se espalha devagar, tocando a madeira escura, o couro, a pele. O silêncio permanece, mas já não é o mesmo, ele pulsa e pressente. Como se até as paredes soubessem que ciclos estão se encerrando e outros, mais perigosos, prestes a nascer. A primavera virá e com ela, nada permanecerá intacto.

O escritório não foi feito para conforto, mas para dominar.

Ocupa uma sala ampla do primeiro andar da minha mansão, de fachada discreta, ao atravessar a porta pesada de madeira escura, o ar muda. Há silêncio demais, um silêncio denso, carregado de expectativa, como se as paredes escutassem.

A mesa principal é ampla, maciça, talhada em madeira nobre, nada ali é decorativo por acaso. Cada objeto carrega função ou aviso. Uma arma repousa à vista, não como ameaça explícita, mas como lembrança constante de autoridade. Ao lado, documentos organizados com precisão quase obsessiva, contratos, dívidas, nomes que não aparecem em lugar algum além daquela sala.

As paredes são revestidas em tom vinho profundo com detalhes em preto fosco. Quadros antigos pendem alinhados demais para serem apenas arte. Alguns retratam paisagens europeias, outros rostos severos de antepassados cujo poder ainda ecoa. Há histórias ali que nunca serão contadas em voz alta.

Atrás da mesa, uma poltrona de couro negro, larga, imponente, feita para quem manda não para quem espera. À frente dela, cadeiras mais simples, propositalmente desconfortáveis. Quem se senta ali entende rápido seu lugar.

A iluminação é baixa, estratégica. Luminárias direcionadas criam sombras calculadas, ocultam expressões, destacam gestos mínimos. O cheiro é uma mistura de madeira encerada, couro, café forte e algo metálico, talvez pólvora, talvez apenas memória.

Há uma janela ampla, do chão ao teto, com vista para a cidade. Lá fora, Nova Orleans pulsa, viva e alheia. Aqui dentro, decisões são tomadas sem pressa, destinos são selados sem testemunhas, e cada palavra dita pesa mais do que um tiro.

Não é apenas um escritório, é um trono moderno e quem entra ali sabe: dificilmente sairá o mesmo.

Às vezes, preciso me esforçar para lembrar quem fui antes de vestir essa pele. Os anos passaram como lâminas silenciosas, e eu aprendi a sobreviver dentro de uma farsa cuidadosamente construída, derrubando inimigos um a um enquanto me afastava, passo a passo, da mulher que um dia acreditei ser. Para não ruir, ergui um castelo de gelo, alto, frio, intransponível e fiz do meu próprio coração sua fundação. Moldei minha imagem com precisão cruel, até que o mundo passasse a enxergar apenas aquilo que eu precisava que visse: uma mulher implacável.

Hoje, sou temida em toda Nova Orleans. Meu nome circula em sussurros carregados de respeito e receio. Homens poderosos se curvam diante de mim, não por devoção, mas por instinto de sobrevivência. Conhecem meus gostos, minhas regras, meus silêncios perigosos. Minha fama não nasceu do acaso, foi forjada com decisões duras, sangue contido e escolhas que não admitem arrependimento.

O que poucos sabem, o que quase ninguém ousaria imaginar é que por trás dessa máscara afiada existe uma agente do FBI. Às vezes me questiono se ela ainda existe, uma mulher que aceitou assumir essa identidade como quem assina uma sentença, infiltrando-se no submundo para conter um tráfico que crescia de forma descontrolada, devorando tudo ao redor.

Uma missão que não previa retorno ileso.

Minha amiga, minha confidente, minha fiel escudeira, escolheu caminhar ao meu lado quando tudo ainda parecia suportável. Juntas, atravessamos fronteiras morais que jamais constaram em qualquer manual. E, às vezes, diante do espelho, encaro meu reflexo por tempo demais, tentando reconhecer naquela mulher de olhar duro e postura calculada a agente dedicada e quase ingênua que um dia acreditou existir beleza até mesmo nas sombras.

Não sei em que ponto exato deixei de fingir. Não sei quando a máscara deixou de ser proteção e passou a ser pele. Só sei que, neste jogo de poder, desejo e mentira, sobreviver exige mais do que coragem.

Exige aceitar que algumas identidades não se interpretam, elas consomem.

Hoje eu faria uma jogada decisiva. Uma daquelas que não se anunciam, mas definem o fim da partida. O tabuleiro estava disposto diante de mim havia anos, e cada movimento anterior me trouxera exatamente até este ponto: a lenta aproximação do rei, protegida por sacrifícios calculados e peões descartáveis.

Para alcançar a vitória, porém, eu precisava de uma peça específica. Rara. Valiosa. Perigosamente frágil.

Antes disso, seria necessário corromper o que havia de mais puro. Uma criatura doce, moldada pela ingenuidade, pela obediência e pela ilusão de segurança. Quando eu a tomasse para mim, não haveria retorno. Ela jamais voltaria a ser quem era. E talvez essa fosse a parte mais cruel e mais honesta do meu plano.

Eu a traria para o meu castelo e ali, entre sombras e silêncio, eu a quebraria apenas o suficiente para reconstruí-la à minha imagem. Não como vítima. Mas como vencedora. Porque sobreviver, no meu mundo, exige perder algo essencial.

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